em branco

fogos & artificios


O ar coalhado de fogos de artifício. Parece que foi ontem. Melhor ainda, era pra ter sido hoje. Um novo amanhã. Sim, eu me lembro do ano novo.

Prometemos um mundo tão melhor, desde parar de fumar até salvar os peixes-boi; de praticar a não-violência a não jogar lixo pela janela do carro. Desde reciclar o lixo até ajudar o próximo; de doar agasalhos a votar consciente.

O ar coalhado de fogos de artifício. Parece que foi ontem. Melhor ainda, era pra ter sido hoje. Um novo amanhã. Sim, eu me lembro do ano novo.

Desta vez, melhor esquecer, ou agora é pra valer?

felizANONOVO
felizANO OVO

papai-noel de loja


O emprego de Papai-Noel de loja era uma satisfação. Divertia-se com os pedidos das crianças, "Papai-Noel, eu quero a paz no mundo.", "Papai-Noel, eu queria que o meu papai parasse de bater na minha mamãe...", "Papai-noel, eu quero um vídeo-game!"
Aos setenta e tantos, divertia-se e renovava-se com essa alegria de encarar o dia-a-dia que as crianças tinham.
É, o emprego de Papai-Noel de loja era uma satisfação, mas com os caraminguás minguados do INSS era também uma necessidade. Por isso, naquele triste mês de dezembro em que a loja decidiu trocá-lo por um Papai-Noel mais novo e, segundo as palavras do gerente, "mais preparado, mais capaz de lidar com as crianças de hoje em dia", chorou no caminho de volta pra casa.

Uma semana depois foi até a loja conferir o tal novo e maravilhoso Papai-Noel. Tudo ia bem, até que o Marquinhos, o peste do Marquinhos, que todo ano testava a sua barba verdadeira de Papai-Noel profissional, resolveu testar a barba postiça do novo Papai-Noel...
Barba devidamente arrancada, Marquinhos, exibindo seu troféu, alardeava pela loja, "O Papai-Noel é de mentira! O Papai-Noel é de mentira!"

O novo Papai-Noel, coitado, não sabia onde esconder a cara barbeada. E o velho, ah, o velho foi-se embora pra casa rindo de satisfação, "Hô-hô-hô! Hô-hô-hô!"

The Best of, Última Chamada!!!

!Ô Terezinha!

The Best of Poetas do Tietê

É sábado agora, 20:00H no Tendal da Lapa
Rua Constança, 72


DELÍRIO POÉTICO



A letra sonha em ser palavra
O algarismo com as quatro operações
O rabisco sonha em ser linha reta
As notas em ser canções
O depois sonha em ser agora
O rascunho sonha em ser escrito
A música em trilha sonora
O maldito com o bendito
O asfalto sonha em ser calçada
O pobre em ser rico
O deixa disso sonha em ser problema
O poeta é o sonho de todo poema...





Caranguejúnior 03/10/2008

Meditação sobre o Tietê - poema de Mário de Andrade

Meditação sobre o Tietê - por Mário de Andrade

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...


Já nada me amarga mais a recusa da vitória
Do indivíduo, e de me sentir feliz em mim.
Eu mesmo desisti dessa felicidade deslumbrante,
E fui por tuas águas levado,
A me reconciliar com a dor humana pertinaz,
E a me purificar no barro dos sofrimentos dos homens.
Eu que decido. E eu mesmo me reconstituí árduo na dor
Por minhas mãos, por minhas desvividas mãos, por
Estas minhas próprias mãos que me traem,
Me desgastaram e me dispersaram por todos os descaminhos,
Fazendo de mim uma trama onde a aranha insaciada
Se perdeu em cisco e polem, cadáveres e verdades e ilusões.


Mas porém, rio, meu rio, de cujas águas eu nasci,
Eu nem tenho direito mais de ser melancólico e frágil,
Nem de me estrelar nas volúpias inúteis da lágrima!
Eu me reverto às tuas águas espessas de infâmias,
Oliosas, eu, voluntariamente, sofregamente, sujado
De infâmias, egoísmos e traições. E as minhas vozes,
Perdidas do seu tenor, rosnam pesadas e oliosas,
Varando terra adentro no espanto dos mil futuros,
À espera angustiada do ponto. Não do meu ponto final!
Eu desisiti! Mas do ponto entre as águas e a noite,
Daquele ponto leal à terrestre pergunta do homem,
De que o homem há de nascer.


Eu vejo; não é por mim, o meu verso tomando
As cordas oscilantes da serpente, rio.
Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.
Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência
Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.
Contágios, tradições, brancuras e notícias,
Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas,
fechado, mudo,
Mudo e vivo, no despeito estrídulo que me fustiga e devora.
Destino, predestinações... meu destino. Estas águas
Do meu Tietê são abjetas e barrentas,
Dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses.
Nem as ondas das suas praias cantam, e no fundo
Das manhãs elas dão gargalhadas frenéticas,
Silvos de tocaias e lamurientos jacarés.
Isto não são águas que se beba, conhecido, isto são
Águas do vício da terra. Os jabirus e os socós
Gargalham depois morrem. E as antas e os bandeirantes e os ingás,
Depois morrem. Sobra não. Nem siquer o Boi Paciência
Se muda não. Vai tudo ficar na mesma, mas vai!... e os corpos
Podres envenenam estas águas completas no bem e no mal.
Isto não são águas que se beba, conhecido! Estas águas
São malditas e dão morte, eu descobri! e é por isso
Que elas se afastam dos oceanos e induzem à terra dos homens,
Paspalhonas. Isto não são água que se beba, eu descobri!
E o meu peito das águas se esborrifa, ventarrão vem, se encapela
Engruvinhado de dor que não se suporta mais.
Me sinto o pai Tietê! ôh força dos meus sovacos!
Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!
Nordeste de impaciente amor sem metáforas,
Que se horroriza e enraivece de sentir-se
Demagogicamente tão sozinho! Ô força!
Incêndio de amor estrondante, enchente magnânima que me inunda,
Me alarma e me destroça, inerme por sentir-me
Demagogicamente tão só!


A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua
Si as tuas águas estão podres de fel
E majestade falsa? A culpa é tua
Onde estão os amigos? Onde estão os inimigos?
Onde estão os pardais? e os teus estudiosos e sábios, e
Os iletrados?
Onde o teu povo? e as mulheres! dona Hircenuhdis Quiroga!
E os Prados e os crespos e os pratos e
os barbas e os gatos e os línguas
Do Instituto Histórico e Geográfico, e os museus e a Cúria,
e os senhores chantres reverendíssimos,
Celso niil estate varíolas gide memoriam,
Calípedes flogísticos e a Confraria Brasiliense e Clima
E os jornalistas e os trustkistas e a Light e as
Novas ruas abertas e a falta de habitações e
Os mercados?... E a tiradeira divina de Cristo!...
Tu és Demagogia. A própria vida abstrata tem vergonha
De ti em tua ambição fumarenta.
És demagogia em teu coração insubmisso.
És demagogia em teu desequilíbrio anticéptico
E antiuniversitário.
És demagogia. Pura demagogia.
Demagogia pura. Mesmo alimpada de metáforas.
Mesmo irrespirável de furor na fala reles:
Demagogia.
Tu és enquanto tudo é eternidade e malvasia:
Demagogia.
Tu és em meio à (crase) gente pia:
Demagogia.
És tu jocoso enquanto o ato gratuito se esvazia:
Demagogia.
És demagogia, ninguém chegue perto!
Nem Alberto, nem Adalberto nem Dagoberto
Esperto Ciumento Peripatético e Ceci
E Tancredo e Afrodísio e também Armida
E o próprio Pedro e também Alcibíades,
Ninguém te chegue perto, porque tenhamos o pudor,
O pudor do pudor, sejamos verticais e sutis, bem
Sutis!... E as tuas mãos se emaranham lerdas,
E o Pai Tietê se vai num suspiro educado e sereno,
Porque és demagogia e tudo é demagogia.
Olha os peixes, demagogo incivil! Repete os carcomidos peixes!
São eles que empurram as águas e as fazem servir de alimento
Às areias gordas da margem. Olha o peixe dourado sonoro,
Esse é um presidente, mantém faixa de crachá no peito,
Acirculado de tubarões que escondendo na fuça rotunda
O perrepismo dos dentes, se revezam na rota solene
Languidamente presidenciais. Ei-vem o tubarão-martelo
E o lambari-spitfire. Ei-vem o boto-ministro.
Ei-vem o peixe-boi com as mil mamicas imprudentes,
Perturbado pelos golfinhos saltitantes e as tabaranas
Em zás-trás dos guapos Pêdêcê e Guaporés.
Eis o peixe-baleia entre os peixes muçuns lineares,
E os bagres do lodo oliva e bilhões de peixins japoneses;
Mas és asnático o peixe-baleia e vai logo encalhar na margem,
Pois quis engolir a própria margem, confundido pela facheada,
Peixes aos mil e mil, como se diz, brincabrincando
De dirigir a corrente com ares de salva-vidas.
E lá vem por debaixo e por de-banda os interrogativos peixes
Internacionais, uns rubicundos sustentados de mosca,
E os espadartes a trote chique, esses são espadartes! e as duas
Semanas Santas se insultam e odeiam, na lufa-lufa de ganhar
No bicho o corpo do crucificado. Mas as águas,
As águas choram baixas num murmúrio lívido, e se difundem
Tecidas de peixe e abandono, na mais incompetente solidão.
Vamos, Demagogia! eia! sus! aceita o ventre e investe!
Berra de amor humano impenitente,
Cega, sem lágrimas, ignara, colérica, investe!
Um dia hás de ter razão contra a ciência e a realidade,
E contra os fariseus e as lontras luzidias.
E contra os guarás e os elogiados. E contra todos os peixes.
E também os mariscos, as ostras e os trairões fartos de equilíbrio e
Pundhonor.
Pum d'honor.
Qué-de as Juvenilidades Auriverdes!
Eu tenho medo... Meu coração está pequeno, é tanta
Essa demagogia, é tamanha,
Que eu tenho medo de abraçar os inimigos,
Em busca apenas dum sabor,
Em busca dum olhar,
Um sabor, um olhar, uma certeza...
É noite... Rio! meu rio! meu Tietê!
É noite muito!... As formas... Eu busco em vão as formas
Que me ancorem num porto seguro na terra dos homens.
É noite e tudo é noite. O rio tristemente
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
Água noturna, noite líquida... Augúrios mornos afogam
As altas torres do meu exausto coração.
Me sinto esvair no apagado murmulho das águas
Meu pensamento quer pensar, flor, meu peito
Quereria sofrer, talvez (sem metáforas) uma dor irritada...
Mas tudo se desfaz num choro de agonia
Plácida. Não tem formas nessa noite, e o rio
Recolhe mais esta luz, vibra, reflete, se aclara, refulge,
E me larga desarmado nos transes da enorme cidade.


Si todos esses dinossauros imponentes de luxo e diamante,
Vorazes de genealogia e de arcanos,
Quisessem reconquistar o passado...
Eu me vejo sozinho, arrastando sem músculo
A cauda do pavão e mil olhos de séculos,
Sobretudo os vinte séculos de anticristianismo
Da por todos chamada Civilização Cristã...


Olhos que me intrigam, olhos que me denunciam,
Da cauda do pavão, tão pesada e ilusória.
Não posso continuar mais, não tenho, porque os homens
Não querem me ajudar no meu caminho.
Então a cauda se abriria orgulhosa e reflorescente
De luzes inimagináveis e certezas...
Eu não seria tão-somente o peso deste meu desconsolo,
A lepra do meu castigo queimando nesta epiderme
Que encurta, me encerra e me inutiliza na noite,
Me revertendo minúsculo à advertência do meu rio.
Escuto o rio. Assunto estes balouços em que o rio
Murmura num banzeiro. E contemplo
Como apenas se movimenta escravizada a torrente,
E rola a multidão. Cada onda que abrolha
E se mistura no rolar fatigado é uma dor. E o surto
Mirim dum crime impune.
Vêm de trás o estirão. É tão soluçante e tão longo,
E lá na curva do rio vêm outros estirões e mais outros,
E lá na frente são outros, todos soluçantes e presos
Por curvas que serão sempre apenas as curvas do rio.
Há de todos os assombros, de todas as purezas e martírios
Nesse rolo torvo das águas. Meu Deus! meu
Rio! como é possível a torpeza da enchente dos homens!
Quem pode compreender o escravo macho
E multimilenar que escorre e sofre, e mandado escorre
Entre injustiça e impiedade, estreitado
Nas margens e nas areias das praias sequiosas?
Elas bebem e bebem. Não se fartam, deixando com desespero
Que o rosto do galé aquoso ultrapasse esse dia,
Pra ser represado e bebido pelas outras areias
Das praias adiante, que também dominam, aprisionam e mandam
A trágica sina do rolo das águas, e dirigem
O leito impassível da injustiça e da impiedade.
Ondas, a multidão, o rebanho, o rio, meu rio, um rio
Que sobe! Fervilha e sobe! E se adentra fatalizado, e em vez
De ir se alastrar arejado nas liberdades oceânicas,
Em vez se adentra pela terra escura e ávida dos homens,
Dando sangue e vida a beber. E a massa líquida
Da multidão onde tudo se esmigalha e se iguala,
Rola pesada e oliosa, e rola num rumor surdo,
E rola mansa, amansada imensa eterna, mas
No eterno imenso rígido canal da estulta dor.


Porque os homens não me escutam! Por que os governadores
Não me escutam? Por que não me escutam
Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?
Todos os donos da vida?
Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo,
Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito
Metálico dos números, e tudo
O que está além da insinuação cruenta da posse.
E si acaso eles protestassem, que não! que não desejam
A borboleta translúcida da humana vida, porque preferem
O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,
Com béstias de operário e do oficial, imediatamente inferior.
E palminhas, e mais os sorrisos das máscaras e a profunda comoção,
Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade deslumbrante
De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.
Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as fezes
De mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,
Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:
Nós nos iríamos de camisa aberta ao peito,
Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,
Entrando na terra dos homens ao coro das quatro estações.


Pois que mais uma vez eu me aniquilo sem reserva,
E me estilhaço nas fagulhas eternamente esquecidas,
E me salvo no eternamente esquecido fogo de amor...
Eu estalo de amor e sou só amor arrebatado
Ao fogo irrefletido do amor.
...eu já amei sozinho comigo; eu já cultivei também
O amor do amor, Maria!
E a carne plena da amante, e o susto vário
Da amiga, e a inconfidência do amigo... Eu já amei
Contigo, Irmão Pequeno, no exílio da preguiça elevada, escolhido
Pelas águas do túrbido rio do Amazonas, meu outro sinal.
E também, ôh também! na mais impávida glória
Descobridora da minha inconstância e aventura,
Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei
Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!
E eu não sabia! eu bailo de ignorâncias inventivas,
E a minha sabedoria vem das fontes que eu não sei!
Quem move meu braço? quem beija por minha boca?
Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração?
Quem? sinão o incêndio nascituro do amor?...
Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,
Bardo mestiço, e o meu verso vence a corda
Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece
Úmido nas espumas da água do meu rio,
E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo Amor.
Por que os donos da vida não me escutam?
Eu só sei que eu não sei por mim! sabem por mim as fontes
Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas.


Meu baile é solto como a dor que range, meu
Baile é tão vário que possui mil sambas insonhados!
Eu converteria o humano crime num baile mais denso
Que estas ondas negras de água pesada e oliosa,
Porque os meus gestos e os meus ritmos nascem
Do incêndio puro do amor... Repetição. Primeira voz sabida, o Verbo.
Primeiro troco. Primeiro dinheiro vendido. Repetição logo ignorada.
Como é possível que o amor se mostre impotente assim
Ante o ouro pelo qual o sacrificam os homens,
Trocando a primavera que brinca na face das terras
Pelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!
É noite! é noite!... E tudo é noite! E os meus olhos são noite!
Eu não enxergo siquer as barcaças na noite.
Só a enorme cidade. E a cidade me chama e pulveriza,
E me disfarça numa queixa flébil e comedida,
Onde irei encontrar a malícia do Boi Paciência
Redivivo. Flor. Meu suspiro ferido se agarra,
Não quer sair, enche o peito de ardência ardilosa,
Abre o olhar, e o meu olhar procura, flor, um tilintar
Nos ares, nas luzes longe, no peito das águas,
No reflexo baixo das nuvens.
São formas... Formas que fogem, formas
Indivisas, se atropelando, um tilintar de formas fugidias
Que mal se abrem, flor, se fecham, flor, flor, informes inacessíveis,


Na noite. E tudo é noite. Rio, o que eu posso fazer!...
Rio, meu rio... mas porém há-de haver com certeza
Outra vida melhor do outro lado de lá
Da serra! E hei-de guardar silêncio
Deste amor mais perfeito do que os homens?...
Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado.
No entanto eu sou maior... Eu sinto uma grandeza infatigável!
Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior... Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! vencedor das mortes, bem nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!
Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.
As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turrona paulista
Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas
Para o peito dos sofrimentos dos homens.
... e tudo é noite. Sob o arco admirável
Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,
Uma lágrima apenas, uma lágrima,
Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

Contagem regressiva: faltam 19 dias


Olá, Amigo
Não perca a conta,
Faltam 19 dias para o sarau dos saraus:

The Best Of Poetas do Tietê!

dia 12/12 às 20:ooh no Tendal da Lapa
Rua Constança, 72

três contos


1.
Os pontos cardeais me desnorteavam, ansiava qualquer trilha que passasse exatamente entre eles, sem norte, na sorte.
Primeiro era preciso acordar; abrir os olhos e não enxergar a paisagem viciada do dia-a-dia.
Depois, era preciso respirar; abrir os pulmões para o ar novo da madugada.
Por fim, abrir a porta. E dar o primeiro salto.

2.
Depois de sentir todas as dores, depois de todas as alegrias, ela sabia. Provava sabores - ansiosamente - e descobria que já os conhecia.
Depois de sentir todas as dores, depois de todas as alegrias, provava sentidos: de olhos fechados, de boca fechada, sem respirar; ela sabia.
Não restava mais nada. Entregou-se.
3.
A placa avisava, o guarda cuidava, mas ele insistia. De canto de olho, rondava.
O desejo cada vez maior, inconformado, atirou-se contra a porta fechada.
Não, a placa avisava.
Não, cuidava a câmera de vigilância.
Não.

The Best Of Poetas do Tietê

Programe-se!
Falta 1 mês para o sarau dos saraus:

The Best Of Poetas do Tietê!

BATALHA DO BRASILEIRO



é a vida de todo o brasileiro

trabalha, trabalha...
batalha o ano inteiro
sonhando em um dia
ganhar muito dinheiro
criar asas!

a realidade é outra
asa não se cria
final do mês pagar as contas
carnê das casas Bahia
spc
serasa
conta de luz
conta de água
conta alí
conta aqui
abre a carteira
fugiu...

salário mágico
cadê???

sumiu...



Caranguejúnior 11/11/08

AMANHECER




Amanhecendo...

Olhando pro céu
Meu olho ardendo
Vendo

Uma estrela errante
Uma lua minguante
Descendo...

Querendo
Beijar o horizonte

Deitar no seu colo
E sonhar...



Caranguejúnior

SUÍCIDIO LUNAR



se você não voltar

me atiro

no primeiro
tiro de qualquer revolver

me atiro

e com as unhas
arranho o céu

retiro

as estrelas
de órbita

jogo-me

no primeiro
luar

morro

no buraco negro
espiral


e danço...

se você não voltar





Caranguejúnior

Primavera em São Paulo é a Parada Gay!

Imagem: raphaelcarnavalesco.wordpress.com


Outro dia na Papoetaria (sábados, 11:00, Tendal da Lapa), os Poetas do Tietê faziam um brainstorm sobre agri-cultura, meio-ambiente, primavera, enfim, as infinitas possibilidades de nosso tema do mês de outubro, quando Marcelo Ferrari bem observou que a primavera é uma explosão de cores e alegria.
Na hora pensei: "Gentem, a primavera de São Paulo é a Parada Gay!"

Embora São Paulo conte com algumas espécies de árvores que nos presenteiam com suas fantásticas floradas agora no comecinho da primavera, - destaque para a Tipuana, o Ipê-Rosa, o Jacarandá Mimoso e a Sibipiruna, - a verdade é que ainda não temos jardins suficientemente bem cuidados ou um projeto paisagístico que faça da primavera um acontecimento em nossa cidade.

Muito ao contrário da Parada Gay, que de parada não tem nada. Na última edição movimentou quase 200 milhões de reais, atraiu 400 mil turistas e levou um total de 3 milhões de pessoas à Avenida Paulista.

Isso sem falar na explosão de cores e alegria!

Então está combinado, em São Paulo a primavera acontece em um fim-de-semana de junho, bem no meio do inverno!

Flores




A beleza das flores
me entristece.
Sinto-me vazio,
numa sala cheia de flores
Sou cadáver sem cor,
diante da mais colorida flor
A beleza da flor fura-me
os olhos,
Como os espinhos que se enterram
em minha pele.
Leio um epitáfio, em cada
pétala de flor.

mágica mais simples


poesia não é
alegrar o triste
colorir o cinza
germinar asfalto
demolir concreto

poesia não é
palhaçada
suvinil
britadeira
marreta

poesia é tudo também mais e além

poesia é
alegrar o triste
colorir o cinza
germinar asfalto
demolir concreto

poesia é
palhaçada
grafite
semente que passarinho caga
e tempo tempo tempo e tempo

contradição
reinvenção
mágica mais simples
agricultura

VERDEMAISVEZES


Verde
que te quero
verde

verdeperto
verdelonge
verdelá
verdecá
verdemaisvezes
verdemaisverde

verde não se vá
o cinza já está aqui
no ar
nas paredes
nos pensamentos
dos que só querem te VERDESTRUÍDO!!!




Caranguejúnior

MEIO AMBIENTE

debaixo daquela árvore
penso em você
debaixo daquela árvore
penso em te ver
talvez um dia te reencontrar
talvez não chorar
e sim se deslumbrar
e felicidade sentir
sorrir e sorrir...
de tudo
contudo
do absurdo
penso em viver
e não padecer
debaixo daquela árvore
penso em você
penso em te ter




Caranguejúnior 16/05/2007

AGRI-cultura

Imagem: trabalhadores da prefeitura "capinam" calçada
na capital, in sertaopaulistano.blogspot.com


Ao contrário do que se possa imaginar, o paulistano pratica a arte da AGRI-cultura diariamente.
Não somos agricultures no sentido estrito da palavra, porém somos exímios AGRI-cultivadores.
Agri que vem do latim, acre, amargo, azedo... Ah, meu caro leitor, você já está começando a entender onde quero chegar!

Responda rápido, o que é mais difícil:

Pescar um robalo no Tietê ou fugir dos trombadinhas a roubar-nos no Viaduto do Chá?

Colher alface no asfalto ou fé na Praça da Sé?

Esperar banana amadurecer no pé ou esperar o trânsito desembananar?

Cavar covas para o plantar batata, mandioca, milho, feijão ou cavar um espaço no Metrô pra Itaquera às seis da tarde?

É por essas e outras que eu digo e repito, AGRI-cultura como a paulistana, não há!
Ah, agri-doces paulistanos!

prima vera

grafite nas ruas de são paulo

O mundo anda tão maluco que nem a prima-vera prima mais pela verdade Vocês verão São Paulo quinta-feira 8 de outubro onze e trinta de uma noite fria Desafiando o frio fora de hora caminhando pela cidade fora de forma atravessando a degradada rua guaicurús o poeta prosseguia sussurrando poesia No mundo da lua não havia garoa fina 10 graus meia-noite ônibus errado No mundo onde ia a cabeça do poeta só havia poesia Foi quando percebeu o mendigo debaixo da marquise O papelão ajeitado à moda de cama o cobertor sujo a garrafa de coca-cola já quase sem cachaça alguma O homem só queria se ir desse mundo para qualquer lugar mais quente nem ligava se fosse pro inferno Mas a realidade insistia em rodeá-lo Calçada asfalto garoa poças meia-noite São Paulo E toda a poesia na cabeça do poeta se foi deixando sua cabeça mais vazia que a garrafa de cachaça Balão que o guiava no mundo das nuvens despencou Calçada asfalto garoa poças meia-noite São Paulo O mundo anda tão maluco que nem a prima-vera prima mais pela verdade Vocês verão Muitas vezes esses tombos do mundo da lua são os que mais machucam

amo-ti, E.T.


você que jaz - não em paz,
resurgindo das cinzas-cidade que o matou.
você espelho que ela evita e quebra
atraindo 7-centos anos de azar e ingnorância.

você onde a cidade cospe e faz pior,
você seus intestinos,
você seu coração,
você suas próprias veias que a cidade auto-injeta e envenena.

amo-ti você,
amo-ti, E.T. pousado nas entranhas da cidade.

amo-ti, E.T.,
porque você é verdadeiro,
ela é de fumaça;
você, elementar,
ela é de borracha.

amo a ti, E.T.,
porque o verdadeiro E.T. é ela,
cidade que, quando nasceu,
se batizou em tuas águas.
e quando ela se for
e quando dela nada restar,
ti, E.T.
renascerá.

outubro: AGRI-cultura


Em outubro os Poetas do Tietê poetarão sobre o tema AGRI-cultura.

Nosso sarau será realizado dentro do evento "Café Orgânico" que acontecerá no Tendal da Lapa no dia 24/10 pela manhã.
AGRI-cultura foi a maneira que nós, paulistanos de coração, por opção ou adoção, encontramos de falar de meio-ambiente nesta metrópole do caos!

Cartinha para Papai Noel


Querido Papai Noel,


Gostaria de

ganhar um carrinho

bomba

Para enfiá-lo

dentro

e ver suas

tripas pintarem

um quadro

menos mentiroso

do que estou

acostumado a ver

desde pequenininho,

um quadrinho todo

vermelho como o

rótulo da Coca-Cola,

que desentope pias

e corrói cérebros,

que não avisam

os olhos dessa gente,

que Natal não é peru

nem abraço falso.



Beijos e navalhadas

no seu saco.



Andrézinho.

O chute


Levei um
chute na
minha identidade!
Já não sei
mais quem eu sou!
João? Maria?
José? Rodrigo?
Sou um monte
de pedaços!
O que não importa,
se espalhou
Mas, meu tesão
ficou colado na
sola,
Entre os dedos
Que este vil
cão, chupou!

Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

O falo


Viril
violador,
Extropiado
de tanto
se meter
onde não
foi chamado,
Que fim terá
o falo?
Ridiculamente
rígido
num priapismo
assustador ?
Ou cabisbaixo
e vencido
entre dois ovos
cozidos em seboso
suor?
Palmas! Palmas
para o falo!
Este incansável
incompreendido molestador!


Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

musa


fotomontagem sobre imagens de Monalisa, Frida Khalo, Simone de Beuvoir, Venus de Milus, Madonna, Anita Garibaldi, Florbela Espanca e Giselle Bundchen

Não, eu não idealizo a minha musa,
não a emolduro em telas que não a conteriam;
mesmo os seus defeitos, eu reciclo
e transformo em mil novas possibilidade.

Minto isso pra vocês,
porque pra mim
ela já nasceu perfeita:
meio Monalisa com Simone de Beuvoir,
meio Madonna com Florbela Espanca,
meio Giselle Bundchen com Anita Garibaldi,
meio calabresa, meio muzzarela.

Todos esses meios,
todos essas juntas,
são gota
que respingou no avental de Deus
no dia em que Ele tonalizou
o seu olho
esquerdo.

Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

LIXO, O LUXO DE OUTROS DIAS





lixo
o luxo de outros dias

jogados ao léu
numa montanha de chorume
sem cume
sem perfume

recicladores
reciclam as cores
as dores do mundo

o que restou ?
o que restará?

o que restaurou!
o quê restaurar!?


na montanha do monte Himalata
onde ninguem quer subir

os artistas conquistaram
o seu pedaço
de pau
de ferro
de garrafas e latas
que hoje
transforam-se
em nobres sucatas...




Caranguejúnior

coração de garrafa pet


Imagem: um castelo de lixo
(curiosidadesnanet.wordpress.com)


Tá certo, eu não arquiteto
cidades, eu não desenho
automóveis, eu não piloto
foguetes.

Sou um poeta só,
mas não precisa rir assim do meu amor.
Se até uma garrafa pet você recicla,
e faz casinha para o seu pet que você beija – de língua!

Tá certo, eu nem sou cachorro não,
nem lixo nem aquilo.
Poeta que só lhe sonharia um reino,
que faria de meus braços carruagem
que lhe viajaria à lua nova.

Mas não precisa ir assim de mim,
reciclo meu coração de vidro barato
e faço falsos diamantes para teus dedos,
casinha para teus deslumbres.

Para minha rainha
fecho sábado de carnaval a avenida,
e brincamos doces polcas, falsas valsas,
até o nunca mais desfalecer.

paisagem noturna




SETEMBRO - Lixo?

Lixo?
Imagem: pimentanamuqueca.com.br


O sarau de setembro dos Poetas do Tietê estará inserido no evento multicultural de encerramento da Exposição Diálogos do Coletivo Nobre Sucata. Exposição que apresenta telas, esculturas, instalações etc, criadas a partir de material encontrado nas ruas da cidade.



Pensando nisso, os Poetas do Tietê elegeram como tema de setembro "Lixo?"




Embarque em mais esta navegação literária do Poetas do Tietê!

São Rivotril


São Rivotril
que estás no alto
da prateleira!
Bendito sois
entre as caixas
de remédios!
Socorrei-me,
pois parece que
irei explodir,
como bomba de São João!
Mas, João, nada pode fazer,
contra o demônio do stress
que me possui!
Só o suavizante manto
tarja-preta
que traz a paz das nuvens
à minha cabeça!
Antes: Puta que o pariu!
Agora: A dor de existir?
Sumiu! Sumiu! Sumiu!
Santo! Santo! São Rivotril!

Merda


Pisei
na
merda,
Merda
fedida
Que
nem
pum
no
elevador
parado,
Pum
de
repolho,
Que
nem
trabalho
de
segunda feira,
Que nem
casal
se
beijando
no
cinema,
E eu
sozinho,
olhando
pra
tela
branca!
Merda!

trilha sonora do stress

Dizem que as estatística dizem que nas poucas horas entre o “É Fantástico” e o “está no ar o Bom-dia São Paulo”, neste curto período: domingo-à-noite-segunda-feira-de-manhã, ocorre o maior número de suicídios e ataques cardíacos na semana.

O que que é isso gente? É stress! Só de pensar, “Vai começar tudo de novo, o meu chefe, a cobrança, aquela pendência que eu ainda não consegui resolver...” Só de pensar já dá uma falta de ar, uma dor no peito, no braço esquerdo!

“Olha a hora! Seis e quarenta e cinco! Repita! Seis e quarenta e cinco!” Eu de férias, na praia, e meu vizinho me acordava todo santo dia com o rádinho de pilha e o barbeador elétrico: “Olha a hora! Seis e quarenta e seis! Repita! Seis e quarenta e seis!”
Ô meu Cristo amado! Fé-ri-aaas! Relaxa homem!
Não tem jeito, não. O paulistano acostuma com aquela hora de acordar todo dia e não desacostuma nem nas férias! Nem na aposentadoria!

“São Paulo da garoa, São Paulo terra boa!” Boa, com esse friozinho, de ficar debaixo das cobertas até mais tarde... “São Paulo que amanhece trabalhando!”
Que trabalhando? Que trabalhando? Me deixa dormir!

TRRRRIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMM
“São Paulo que não pode adormecer...”

Ô cidadezinha estressada, sô! Só mais cinco minutinhos!

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ESPERMATOZÓIDES DO SACO DE METAL



a noite cai
e os olhos ardendo
adentro o grande óvulo
fecundado de trabalhadores

do CAIS DE SANTA RITA
a prece das seis horas
o sinal da cruz
do sinal fechado

a pressa de chegar
não me deixa enxergar a BOA VISTA
o Capibaribe cheio, imponente...
no meio da cidade

o Borborema Cheio de sonhos
e conversas
José's, João's e JOANA BEZERRA
descem e sobem sem parar

amontoados
querendo ao menos ter
ao menos ver uma
BOA VIAGEM se aproximar

e Deus contempla-nos com
PIEDADE
espremido e amarrotado
sorrio,CANDEIAS chegou!

com o pé direito desço
do grande óvulo fecundado
de trabalhadores
espermatozóides do saco de metal




Caranguejúnior

CORRERIA

o tempo é curto
o tempo é escasso
o tempo é confuso
o tempo é tudo
o tempo é nada
nosso mal...
não tenho tempo
para o tempo
o tempo
não tem tempo pra mim
correria sem fim
que tempo?
nessa vida
não tenho cronômetro




Caranguejúnior

o motorista

Ah, só porque eu sou motorista de ônibus em São Paulo você acha que já sabe o que eu vou falar:
Trânsito-motoboy-congestionamento-marginal parada.
Trânsito louco-motoboy maluco-engarrafamento-marginal alagada.
Trânsito-trânsito-trânsito-trânsito-trânsito!



imagem: victornavena.blogspot.com
Não, eu adoro isso!
“Sai da frente, Dona Maria! Vai pilotar fogão!
Ô barbeiro, braço duro, alfaiate, fdp, pqp! Sai da frente!”
Adoro, adoro, adoro!
Você quer saber o que me estressa?
O que me estressa mesmo são trinta segundos de silêncio.
Vou te contar a minha história.
Eu venho do interior, trabalhava na roça, contato com a terra etc, e um silêncio dos infernos!
O dia todo eu e os passarinhos.
Chegava a noite, como qualquer bom brasileiro eu ia ver a novela. E não conseguia entender porque nos intervalos passava um comercial, dois, e daí trinta segundos de silêncio. Um comercial, dois, e mais trinta segundos de silêncio. E a gente que nem bobo olhando para a televisão muda, vazia, esperando, esperando o próximo comercial e, muitas vezes, vinham mais trinta segundos de silêncio!

Pois um dia meu vizinho veio para o Hospital das Clínicas tratar de um mal qualquer, e voltou, me contou a novidade:
- O Zé, sabia que em São Paulo a TV não tem comercial vazio?
É o intervalo inteiro, tudinho, tudinho cheio de comercial, é cada comercial bacana, sô! que só vendo!

“Sai da frente, Dona Maria! Vai pilotar fogão!
Ô barbeiro, braço duro, alfaiate, fdp, pqp, sai da frente!”
Adoro, adoro, adoro!
Você quer saber o que me estressa?
O que me estressa mesmo são trinta segundos de silêncio.

Vagabunda!

Ai, enfermeira!
Em vez de bálsamo,
Tétano da traição!
Em vez de beijo,
Putrida infecção!
Esperanças?
Levou junto
com a comadre!
Veneno no soro
a sufocar-me,
Cuspo-te o pus
num sorriso dolorido
como incisão das
mais profundas!
Te amo! Ai! Te amo!
Doce! Meiga! Vagabunda!

van filosofia

o homem moderno

O poeta contemplativo morreu na faixa de pedestres. Que estresse,
abrir passagem para os atletas, os corretores de seguro, os vendedores de automóveis!
O poeta mastiga a fumaça de respirar
E golfa o oxigênio de voar.

O poeta apaixonado, afogado em silicones saltitantes
no circo das nádegas amestradas,
devora a sexualidade
e regurgita versos de amor.

O poeta é um velho ultrapassado,
come a própria a carne
e vomita-se homem moderno.

AGOSTO: STRESS!!!

Em agosto, os Poetas do Tietê estão prá lá de irritados, eles estão estressados!

É trânsito, horário a cumprir, poluição, ônibus lotado... Argh!

- O quê? O quê foi que você disse, leitor? Repete! Repete agora!!!

Pra se livrar de tanto stress, os Poetas do Tietê só não vão sair no braço,
mas vão sair no verso!

E prepare-se, dia 29/08 às 20:00h no Tendal da Lapa, tem o Sarau do Stress!
Te pego na saída!!!

Poemalcóolico

A cerveja caiu na mesa,
na calçada, cusparada
na mente, esperança de amor
Nos lábios de uma mestiça

O Péééééregrino!

Quem sou eu?
Sou apenas o
Péééééregrino!
Aquele que chupava
o próprio pé
quando menino!
Agora, a barriga
já não deixa!
Tenho que chupar
o pé alheio!
Vale joanete
Vale até chulé
Mas
chupar bem chupado!
Que nem o materno seio!
Do dedão até os artelhos
É pra mamar no calcanhar
Nos vãos dos dedos
Tudo! Inteiro!
Deus tá vendo
que num fiz maldade
Foi meu jeito de rezá!
Né tara, não! É humildade!
Tire a meia pr'eu chupá!!

Gato trepando

Aaaaaaaaaaahhh...Aaaaaah...Aaaaah!
Au! Au! Au! Au!
Aaaaaaahhh...Aaaaah...Aaaah!
Au! Au! Au! Au!
Gato trepando parece gente
ou é a gente que parece
com gato trepando?
Bom é ser o cachorro
que late incomodado,
mas não tenta filosofar
Tenho uma plantação
de abobrinhas na cabeça
Ponho no papel e chamo de arte!
Poderia bem estar fazendo como o gato:
Aaaaaaah...Aaaaaaah...Aaaaaahhh!!
Mas sou mesmo, é a cara do bicho que late:
Au! Au! Au!
Au?

Solidão

É um cão raivoso
a me acuar
Arrancando-me
tecos de vontade
de viver
Falho
ao fingir
ser autosustentável
Falho
ao querer
falar desse sentimento
Resta-me
meter-me
debaixo das cobertas
Onde há duas mãos
quentes
a me esperar

são paulo porvir

Serra da Cantareira


São Paulo, se desarma de teus rótulos
e vem passear com a gente.
Desaperta a gravata, tira os óculos,
vamos brincar de Clark Kent!

Cultivar poderes de super-homens
na cidade que nunca dorme,
plantar no coração do povo
a alegria do novo.

São Paulo, não precisa ser bandeirante,
apenas mais tolerante.
Ninguém te obriga locomotiva,
um tantinho só mais emotiva.
São Paulo, não carecia tanta pujança,
um matiz de esperança que fosse.

Depois,
dorme
pela cantoria da Cantareira
e as promessas da Serra do Mar
aconchegada,

e sonha com o porvir.

real grandeza


Em São Paulo, a moça de Mineiros, Goiás,
vende seus deliciosos acarajés
toda paramentada de baiana
nos arredores da Catedral da Sé.
Foi lá
que seu namorado, o Ceará,
a conheceu.
Ele comercializa relógios,
DVDs, cigarros e isqueiros,
e também miniaturas do Cristo Redentor
em sua barraca de camelô
feitas na China especialmente
para turistas apressados a negócios
sem tempo para o Rio de Janeiro.
Se Deus quiser, o casamento sai pro ano,
estão juntando algum pra não haver desengano.
O barraco é uma beleza,
fica na Rua Real Grandeza,
na Vila Brasilandia.
Vão ter três filhos
e vão ser muito felizes,
o mais velho vai trabalhar
na fábrica de motores,
a mais nova vai limpar
casa de doutores.
E no dia 12 de outubro
a família toda vai a Aparecida
agradecer a graça alcançada:
a mais nova tinha ido morar fora
e foi dada por desaparecida.
Mas hoje a família comemora,
foi encontrada e libertada
de triste patranha
em que caíra na Espanha.
É família de fibra,
- vivas a esta tal polícia Interpol!
está de volta a menina que sumiu!
A família vibra como um gol,
como um gol,
como um gol do Brasil!

Poesia Urbana , Crônicas Paulistanas

Aproveitando a deixa do meu "conterrâneo" Paulo D'áuria, apresento 3 textos autorais dentro do mesmo tema.
Leituras poéticas de fragmentos da nossa cidade.

Hipotenusa


(tirada da janela de casa)

lanço um olhar retilíneo sobre o horizonte de casas um quadro de altivez financiada num prédio de periferia estou acima não se constata outra coisa canta um cego rabequeiro “o sertão já virou mar” e sou deus e sou nenhum contemplo as luzes paulistanas imagino confins pontilhados na loucura surreal densidade demográfica um ponto nas reticências nas entrelinhas da frase que não se acaba em Penha-Lapa parágrafo e letra maiúscula mas deixa perguntas no ar muito mais que nono andar nego cio na solidão no pensamento negocio em linha reta sobre vidas e vigas no céu da terra prometida

Rodossentimento



coração pneu de carro
desvia dos sobressaltos
resiste derrapa na curva
machuca se cai no buraco
altivo se roda alinhado
é rei conduzindo vassalo
até que a morte os separe
até que termine furado

Blade Runner da Silva



na noite

da minha cidade

não há estrelas

desaba chuva

de propaganda

enganosa


out-doors

são máquinas

de lavar dinheiro

ditando o foco

da sociedade

cadente


resta na lua fosca

coadjuvante colírio

nos olhos

bombardeados

por implacáveis

luzes


olhos-de-gato

são reticências

pelas ruas

direcionando

o modo de vida

embalado para viagem

são paulo que não tem cristo que nos abrace

Imagem, bairro do Morumbi, São Paulo

São Paulo que não tem cristo que nos abrace
São Paulo mato-grosso sem cachorro
capão redondamente grávido
de esperança

São Paulo que não tem farol na barra que nos ilumine
São Paulo de cara virada com todos os santos
São Paulo sem belo-horizonte
Pernambuco sem mar
Amazonas sem Yara

São Paulo brasilândia bem mexida
batida
remoída
regurgitada

São Paulo sem lei
São Paulo meu rei
sem brilho
sem diamantina
São Paulo bijuteria

São Paulo filho
de pai jesuíta
e mãe desconhecida
batendo calçada
na vida

São Paulo menino mal educado
no pátio do colégio de castigo
atrás da porta
ajoelhado no milho!

reciclicidade


imagem: globo.com

São Paulo é assim, o fim.
Reciclicidade do lixo, disso, daquilo, daculoutro.
Reciclicidade da inversão térmica, da invenção férvica, da intervenção cirurgicamente inviável.
São Paulo não cabe na métrica,
Ca ótica cega,
São Paulo não sabe a gramática,
É anafilática - digo, analfabética.

são paulos


São Paulos, são joãos e Josés
São Marias, são Claras e das Dores
São cidades armadas de concreto e aço
Nas vilas Marianas, Santanas, Moemas

São cidades-colagem de aglomerado e papelão
Sob as pontes das marginais
Automóveis de mil cavalos
Carroças movidas a gente

São Paulo esparramada subindo a Cantareira
Descendo até o mar
São Paulo amontoada subindo até o céu
E sob o metrô da Sé
Uma estação secreta para o inferno

Cidade que já morreu
E outra que ainda nem nasceu
São Paulos que eu amo
Todos os dias depois
De jurar eterno ódio

Seus homens de terno no asfalto ao verão
Mendigos ao relento nas madrugadas de inverno
As morenas da zona norte
As madames da zona sul
Orgulho na zona leste
Guaranis na zona oeste

Zona, zona, zona e esperança
Esperança, esperança, esperança e espelunca
Locomotiva desgovernada do Brasil
Porta do mundo, cidades mil

São Paulo tem mil cantos
São Paulo tem professor de esperanto
Se você quer falar javanês, vá a São Paulo
Se você quer falar cantão, vá a São Paulo
Se você quer falar baianês, vá a São Paulo
Se você quer falar ao coração, vá a São Paulo

Do Jaraguá tem vista
Para a Paulista
Na Paulista
Ninguém enxerga ninguém

Buzinas e mundo cão
Subindo e descendo a Consolação
Eu me perco na multidão

Mas lá no fundo um cocoricó, um Rincão
Eu nunca me sinto só
Na matriz da Freguesia do Ó

JULHO


Em julho, os Poetas do Tietê estão "quase" de férias.
Saímos para pescar no Rio Tietê!


Não teremos neste mês a "Papoetaria" que normalmente acontece aos sábados pela manhã no Tendal da Lapa.

E nosso sarau será dia 1º de agosto às 18:30h.

Denominado "Sarau do Cachorro Louco", será na verdade um sarau com tema livre.

E para que nossos leitores não fiquem sem diversão este mês, resolvi republicar aqui alguns poema anteriormente publicados em meu blog pessoal.

Todos com o tema "São Paulo".

Boa leitura!

Vivo pelo desejo

Quero sangrar
contigo
Esvair-me em dor,
Quero te entender
Ganchos em meus ombros
Lâmina na banha
Tambem quero saciar
os apetites,
Ficar exposto
no açougue,
Mas sempre atento
para os olhares
de volupia,
E as bocas salivando
Morto? Não!
Vivo pelo desejo
de quem me devora!

foi pra isso que essa vaca nasceu


Fria,
fatiada no supermercado,
descongelando em minhas mãos,
exalando devagarinho
o cheiro,
o cheiro de sangue
que não corre mais.
FOI PRA ISSO QUE ESSA VACA NASCEU
pra saciar essa fome
que o homem
não sente,
pra saciar o esquecido,
os não-sentidos
a fome morta.
FOI PRA ISSO QUE ESSA VACA NASCEU
fria,
em carne viva.

no mercado municipal



No Mercado Municipal tem barraca de tudo, frutas, verduras, grãos, temperos, carnes.
De segunda à sexta, pra compensar a pouca clientela, todos são amigos:
- Seu Alfredo! Tudo certin?
- Ó, Seu Castro! Tudo muito bem! E a Portuguesinha, hein?
- Vamos indo, vamos indo...
Já aos fins de semana, aquela correria danada, não sobra tempo para amenidades. Todos os sábados, Dona Berta por exemplo, a esposa de Seu Alfredo, o verdureiro, acorre o marido na barraca, que ele não daria conta da clientela sozinho.
Para besteiragens, no entanto, pouco tempo nunca foi entrave. Já não era de hoje que seu Alfredo notava os olhares compridos de Seu Castro, o açougueiro da barraca em frente, para sua esposa.
Aos sábados Seu Castro parecia dar duplo sentido a todas as observações que fazia para seus clientes.
Se um cliente perguntava, “A carne tá fresca?”, Seu Castro esticava os olhos para os lados de Dona Berta e respondia, “Tenra! Tenrinha!”
Seu Alfredo vinha oficinando esses cochichos do diabo há sábados e mais sábados. Mas vigiava a mulher com o canto dos olhos e nunca notou qualquer reciprocidade de sua parte. Então, deixava passar.
Até o dia em que, coincidência ou não, sua Berta voltava do banheiro toda conversinhas com Seu Castro. Seu Alfredo parecia que ia cozinhar um pimentão, ferveu-se por dentro. O tampo da cabeça feito panela de pressão pronta a explodir. Mas se conteve. Não tinha visto nada de mais e não faria cena à toa.
Mas eis que, cinco minutos depois, um cliente pergunta ao açougueiro, “Essa carne não está pálida, não? Não deveria estar mais vermelhinha?”, e seu Castro mandou esta, “Olha, carne vermelha demais é maquiagem, feito baton em mulher, - mulher aparecida, a gente desconfia... Carne é a mesma coisa! A boa é assim, recatada... Branquinha, mas firme!”
O sorriso tímido de Dona Berta parecia refletir o vermelho dos tomates da banca.
Ah, Seu Alfredo não se conteve mais e, em frente à gentarada, à fila para o pastel de bacalhau, aos clientes fiéis e aos desconhecidos, passou a mão numa berinjela e tacou certeira, direto nas ventas de Seu Castro.
- Quequéisso, querido? Ficou maluco?
- Não se faça de desentendida que eu vi! Já percebi tudo entre vocês!
Nesse momento, de posse de um bom naco de coxão-duro, Seu Castro avançava para a barraca de verduras.
O que se viu nos próximos vinte minutos entrou para o folclore do Mercado Municipal, voou pepino, alcatra; alface, picanha; couves e costelas, acelgas e patinho!
E os insultos?
“É muita mulher pra tu, verdureiro! Deixa pra quem gosta de uma boa carne aproveitar!”, Não tenho culpa que casou mal, tem tanta vergonha de sua mulher que nunca a trouxe aqui! Mas já vi a bruaca em fotos! Deus nos livre!”, “O que tem aí é um banquete! Tu não dá conta, não!”, “Ah, se dou! Você é que um safado a cobiçar a mulher alheia!”
Mas nem tudo foi perdido, em meio à batalha de legumes e carnes, muita gente passou a mão na mercadoria que de qualquer maneira acabaria perdida.
Seu Alfredo e Seu Castro passaram a noite na delegacia, onde, ocasionalmente voltam, para responder ao processo por desordem pública que respondem até hoje.
Dona Berta nunca mais voltou ao mercado, morre de vergonha.
Para ajudá-lo com o movimento de fins de semana, Seu Alfredo contratou Cinira.
De segunda à sexta o verdureiro e o açougueiro conversam sobre futebol, violência, trânsito e sobre as qualidades de Cinira. Menina nova, mas de carnes muito bem proporcionadas.
E essa história não para por aqui. Elielson, motoboy, já notou os olhares gulosos de Seu Castro e Seu Alfredo em direção à sua namorada.
Sábado que vem, quando ele vier lhe pegar na saída do trabalho, ela vai comentar, “Ai, sinto-me como uma peça de picanha na vitrine...”

Levem suas sacolas vazias... Vai sobrar coxão mole, filé mignon, rúcula, chicória e escarola pra todo lado!

'' CARNAL "


venha

com toda a fome que tiver

venha

com o garfo ou colher

venha

salivando

venha

me desejando

me abrace
me abra
me feche
me costure
me tempere
me misture
me cozinhe
me doure

eu te adoro

sacie o seu instinto
carnal
suas fantasias
seu carnaval

faça de mim
o seu duralex

encha-se do meu sabor
deguste-me devagar

mate a sua fome
sua fome de amor...





Caranguejúnior

antes da arte, a carne - tendal 20 anos

1)



2)

3)

4)
Há vinte anos atrás, um edifício reencarnou.
Um edifício reencarnar? Difícil acreditar?
Então, sigam meu raciocínio:
A essência do conceito de reencarnação não é que, cada vez que mudamos de corpo, aprendemos, caminhamos, evoluímos?
Pois foi exatamente assim com esse edifício. Apesar de ter reencarnado ao contrário, pois o corpo continua o mesmo, - sólido, cimento, ferro, concreto, - o espírito é que é novo.
Mudou tanto e tão radicalmente que, onde antes havia carne, hoje há arte. Antes da alma, a fome.
O edifício que era um matadouro de bois, reencarnou em um viveiro de artes.
Onde antes cuidava-se do instinto mais primal do ser humano, a fome, hoje sacia-se sua fome mais nobre, a fome pela arte e pela cultura.
5)
***
"Nosso tema de junho CARNE VIVA, remete aos 20 anos do Espaço Cultural Tendal da Lapa, comemorados neste mês. O Tendal, um dos mais democráticos e simpáticos espaços culturais da cidade, onde ministramos nossa oficina poética, a Papoetaria, e onde realizamos nossos saraus mensais (a cada último sábado do mês), funciona em um edifício tombado pelo Patrimônio Histórico onde outrora funcionou um matadouro. "