em branco

Meditação sobre o Tietê - poema de Mário de Andrade

Meditação sobre o Tietê - por Mário de Andrade

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...


Já nada me amarga mais a recusa da vitória
Do indivíduo, e de me sentir feliz em mim.
Eu mesmo desisti dessa felicidade deslumbrante,
E fui por tuas águas levado,
A me reconciliar com a dor humana pertinaz,
E a me purificar no barro dos sofrimentos dos homens.
Eu que decido. E eu mesmo me reconstituí árduo na dor
Por minhas mãos, por minhas desvividas mãos, por
Estas minhas próprias mãos que me traem,
Me desgastaram e me dispersaram por todos os descaminhos,
Fazendo de mim uma trama onde a aranha insaciada
Se perdeu em cisco e polem, cadáveres e verdades e ilusões.


Mas porém, rio, meu rio, de cujas águas eu nasci,
Eu nem tenho direito mais de ser melancólico e frágil,
Nem de me estrelar nas volúpias inúteis da lágrima!
Eu me reverto às tuas águas espessas de infâmias,
Oliosas, eu, voluntariamente, sofregamente, sujado
De infâmias, egoísmos e traições. E as minhas vozes,
Perdidas do seu tenor, rosnam pesadas e oliosas,
Varando terra adentro no espanto dos mil futuros,
À espera angustiada do ponto. Não do meu ponto final!
Eu desisiti! Mas do ponto entre as águas e a noite,
Daquele ponto leal à terrestre pergunta do homem,
De que o homem há de nascer.


Eu vejo; não é por mim, o meu verso tomando
As cordas oscilantes da serpente, rio.
Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.
Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência
Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.
Contágios, tradições, brancuras e notícias,
Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas,
fechado, mudo,
Mudo e vivo, no despeito estrídulo que me fustiga e devora.
Destino, predestinações... meu destino. Estas águas
Do meu Tietê são abjetas e barrentas,
Dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses.
Nem as ondas das suas praias cantam, e no fundo
Das manhãs elas dão gargalhadas frenéticas,
Silvos de tocaias e lamurientos jacarés.
Isto não são águas que se beba, conhecido, isto são
Águas do vício da terra. Os jabirus e os socós
Gargalham depois morrem. E as antas e os bandeirantes e os ingás,
Depois morrem. Sobra não. Nem siquer o Boi Paciência
Se muda não. Vai tudo ficar na mesma, mas vai!... e os corpos
Podres envenenam estas águas completas no bem e no mal.
Isto não são águas que se beba, conhecido! Estas águas
São malditas e dão morte, eu descobri! e é por isso
Que elas se afastam dos oceanos e induzem à terra dos homens,
Paspalhonas. Isto não são água que se beba, eu descobri!
E o meu peito das águas se esborrifa, ventarrão vem, se encapela
Engruvinhado de dor que não se suporta mais.
Me sinto o pai Tietê! ôh força dos meus sovacos!
Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!
Nordeste de impaciente amor sem metáforas,
Que se horroriza e enraivece de sentir-se
Demagogicamente tão sozinho! Ô força!
Incêndio de amor estrondante, enchente magnânima que me inunda,
Me alarma e me destroça, inerme por sentir-me
Demagogicamente tão só!


A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua
Si as tuas águas estão podres de fel
E majestade falsa? A culpa é tua
Onde estão os amigos? Onde estão os inimigos?
Onde estão os pardais? e os teus estudiosos e sábios, e
Os iletrados?
Onde o teu povo? e as mulheres! dona Hircenuhdis Quiroga!
E os Prados e os crespos e os pratos e
os barbas e os gatos e os línguas
Do Instituto Histórico e Geográfico, e os museus e a Cúria,
e os senhores chantres reverendíssimos,
Celso niil estate varíolas gide memoriam,
Calípedes flogísticos e a Confraria Brasiliense e Clima
E os jornalistas e os trustkistas e a Light e as
Novas ruas abertas e a falta de habitações e
Os mercados?... E a tiradeira divina de Cristo!...
Tu és Demagogia. A própria vida abstrata tem vergonha
De ti em tua ambição fumarenta.
És demagogia em teu coração insubmisso.
És demagogia em teu desequilíbrio anticéptico
E antiuniversitário.
És demagogia. Pura demagogia.
Demagogia pura. Mesmo alimpada de metáforas.
Mesmo irrespirável de furor na fala reles:
Demagogia.
Tu és enquanto tudo é eternidade e malvasia:
Demagogia.
Tu és em meio à (crase) gente pia:
Demagogia.
És tu jocoso enquanto o ato gratuito se esvazia:
Demagogia.
És demagogia, ninguém chegue perto!
Nem Alberto, nem Adalberto nem Dagoberto
Esperto Ciumento Peripatético e Ceci
E Tancredo e Afrodísio e também Armida
E o próprio Pedro e também Alcibíades,
Ninguém te chegue perto, porque tenhamos o pudor,
O pudor do pudor, sejamos verticais e sutis, bem
Sutis!... E as tuas mãos se emaranham lerdas,
E o Pai Tietê se vai num suspiro educado e sereno,
Porque és demagogia e tudo é demagogia.
Olha os peixes, demagogo incivil! Repete os carcomidos peixes!
São eles que empurram as águas e as fazem servir de alimento
Às areias gordas da margem. Olha o peixe dourado sonoro,
Esse é um presidente, mantém faixa de crachá no peito,
Acirculado de tubarões que escondendo na fuça rotunda
O perrepismo dos dentes, se revezam na rota solene
Languidamente presidenciais. Ei-vem o tubarão-martelo
E o lambari-spitfire. Ei-vem o boto-ministro.
Ei-vem o peixe-boi com as mil mamicas imprudentes,
Perturbado pelos golfinhos saltitantes e as tabaranas
Em zás-trás dos guapos Pêdêcê e Guaporés.
Eis o peixe-baleia entre os peixes muçuns lineares,
E os bagres do lodo oliva e bilhões de peixins japoneses;
Mas és asnático o peixe-baleia e vai logo encalhar na margem,
Pois quis engolir a própria margem, confundido pela facheada,
Peixes aos mil e mil, como se diz, brincabrincando
De dirigir a corrente com ares de salva-vidas.
E lá vem por debaixo e por de-banda os interrogativos peixes
Internacionais, uns rubicundos sustentados de mosca,
E os espadartes a trote chique, esses são espadartes! e as duas
Semanas Santas se insultam e odeiam, na lufa-lufa de ganhar
No bicho o corpo do crucificado. Mas as águas,
As águas choram baixas num murmúrio lívido, e se difundem
Tecidas de peixe e abandono, na mais incompetente solidão.
Vamos, Demagogia! eia! sus! aceita o ventre e investe!
Berra de amor humano impenitente,
Cega, sem lágrimas, ignara, colérica, investe!
Um dia hás de ter razão contra a ciência e a realidade,
E contra os fariseus e as lontras luzidias.
E contra os guarás e os elogiados. E contra todos os peixes.
E também os mariscos, as ostras e os trairões fartos de equilíbrio e
Pundhonor.
Pum d'honor.
Qué-de as Juvenilidades Auriverdes!
Eu tenho medo... Meu coração está pequeno, é tanta
Essa demagogia, é tamanha,
Que eu tenho medo de abraçar os inimigos,
Em busca apenas dum sabor,
Em busca dum olhar,
Um sabor, um olhar, uma certeza...
É noite... Rio! meu rio! meu Tietê!
É noite muito!... As formas... Eu busco em vão as formas
Que me ancorem num porto seguro na terra dos homens.
É noite e tudo é noite. O rio tristemente
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
Água noturna, noite líquida... Augúrios mornos afogam
As altas torres do meu exausto coração.
Me sinto esvair no apagado murmulho das águas
Meu pensamento quer pensar, flor, meu peito
Quereria sofrer, talvez (sem metáforas) uma dor irritada...
Mas tudo se desfaz num choro de agonia
Plácida. Não tem formas nessa noite, e o rio
Recolhe mais esta luz, vibra, reflete, se aclara, refulge,
E me larga desarmado nos transes da enorme cidade.


Si todos esses dinossauros imponentes de luxo e diamante,
Vorazes de genealogia e de arcanos,
Quisessem reconquistar o passado...
Eu me vejo sozinho, arrastando sem músculo
A cauda do pavão e mil olhos de séculos,
Sobretudo os vinte séculos de anticristianismo
Da por todos chamada Civilização Cristã...


Olhos que me intrigam, olhos que me denunciam,
Da cauda do pavão, tão pesada e ilusória.
Não posso continuar mais, não tenho, porque os homens
Não querem me ajudar no meu caminho.
Então a cauda se abriria orgulhosa e reflorescente
De luzes inimagináveis e certezas...
Eu não seria tão-somente o peso deste meu desconsolo,
A lepra do meu castigo queimando nesta epiderme
Que encurta, me encerra e me inutiliza na noite,
Me revertendo minúsculo à advertência do meu rio.
Escuto o rio. Assunto estes balouços em que o rio
Murmura num banzeiro. E contemplo
Como apenas se movimenta escravizada a torrente,
E rola a multidão. Cada onda que abrolha
E se mistura no rolar fatigado é uma dor. E o surto
Mirim dum crime impune.
Vêm de trás o estirão. É tão soluçante e tão longo,
E lá na curva do rio vêm outros estirões e mais outros,
E lá na frente são outros, todos soluçantes e presos
Por curvas que serão sempre apenas as curvas do rio.
Há de todos os assombros, de todas as purezas e martírios
Nesse rolo torvo das águas. Meu Deus! meu
Rio! como é possível a torpeza da enchente dos homens!
Quem pode compreender o escravo macho
E multimilenar que escorre e sofre, e mandado escorre
Entre injustiça e impiedade, estreitado
Nas margens e nas areias das praias sequiosas?
Elas bebem e bebem. Não se fartam, deixando com desespero
Que o rosto do galé aquoso ultrapasse esse dia,
Pra ser represado e bebido pelas outras areias
Das praias adiante, que também dominam, aprisionam e mandam
A trágica sina do rolo das águas, e dirigem
O leito impassível da injustiça e da impiedade.
Ondas, a multidão, o rebanho, o rio, meu rio, um rio
Que sobe! Fervilha e sobe! E se adentra fatalizado, e em vez
De ir se alastrar arejado nas liberdades oceânicas,
Em vez se adentra pela terra escura e ávida dos homens,
Dando sangue e vida a beber. E a massa líquida
Da multidão onde tudo se esmigalha e se iguala,
Rola pesada e oliosa, e rola num rumor surdo,
E rola mansa, amansada imensa eterna, mas
No eterno imenso rígido canal da estulta dor.


Porque os homens não me escutam! Por que os governadores
Não me escutam? Por que não me escutam
Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?
Todos os donos da vida?
Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo,
Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito
Metálico dos números, e tudo
O que está além da insinuação cruenta da posse.
E si acaso eles protestassem, que não! que não desejam
A borboleta translúcida da humana vida, porque preferem
O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,
Com béstias de operário e do oficial, imediatamente inferior.
E palminhas, e mais os sorrisos das máscaras e a profunda comoção,
Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade deslumbrante
De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.
Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as fezes
De mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,
Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:
Nós nos iríamos de camisa aberta ao peito,
Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,
Entrando na terra dos homens ao coro das quatro estações.


Pois que mais uma vez eu me aniquilo sem reserva,
E me estilhaço nas fagulhas eternamente esquecidas,
E me salvo no eternamente esquecido fogo de amor...
Eu estalo de amor e sou só amor arrebatado
Ao fogo irrefletido do amor.
...eu já amei sozinho comigo; eu já cultivei também
O amor do amor, Maria!
E a carne plena da amante, e o susto vário
Da amiga, e a inconfidência do amigo... Eu já amei
Contigo, Irmão Pequeno, no exílio da preguiça elevada, escolhido
Pelas águas do túrbido rio do Amazonas, meu outro sinal.
E também, ôh também! na mais impávida glória
Descobridora da minha inconstância e aventura,
Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei
Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!
E eu não sabia! eu bailo de ignorâncias inventivas,
E a minha sabedoria vem das fontes que eu não sei!
Quem move meu braço? quem beija por minha boca?
Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração?
Quem? sinão o incêndio nascituro do amor?...
Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,
Bardo mestiço, e o meu verso vence a corda
Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece
Úmido nas espumas da água do meu rio,
E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo Amor.
Por que os donos da vida não me escutam?
Eu só sei que eu não sei por mim! sabem por mim as fontes
Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas.


Meu baile é solto como a dor que range, meu
Baile é tão vário que possui mil sambas insonhados!
Eu converteria o humano crime num baile mais denso
Que estas ondas negras de água pesada e oliosa,
Porque os meus gestos e os meus ritmos nascem
Do incêndio puro do amor... Repetição. Primeira voz sabida, o Verbo.
Primeiro troco. Primeiro dinheiro vendido. Repetição logo ignorada.
Como é possível que o amor se mostre impotente assim
Ante o ouro pelo qual o sacrificam os homens,
Trocando a primavera que brinca na face das terras
Pelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!
É noite! é noite!... E tudo é noite! E os meus olhos são noite!
Eu não enxergo siquer as barcaças na noite.
Só a enorme cidade. E a cidade me chama e pulveriza,
E me disfarça numa queixa flébil e comedida,
Onde irei encontrar a malícia do Boi Paciência
Redivivo. Flor. Meu suspiro ferido se agarra,
Não quer sair, enche o peito de ardência ardilosa,
Abre o olhar, e o meu olhar procura, flor, um tilintar
Nos ares, nas luzes longe, no peito das águas,
No reflexo baixo das nuvens.
São formas... Formas que fogem, formas
Indivisas, se atropelando, um tilintar de formas fugidias
Que mal se abrem, flor, se fecham, flor, flor, informes inacessíveis,


Na noite. E tudo é noite. Rio, o que eu posso fazer!...
Rio, meu rio... mas porém há-de haver com certeza
Outra vida melhor do outro lado de lá
Da serra! E hei-de guardar silêncio
Deste amor mais perfeito do que os homens?...
Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado.
No entanto eu sou maior... Eu sinto uma grandeza infatigável!
Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior... Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! vencedor das mortes, bem nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!
Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.
As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turrona paulista
Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas
Para o peito dos sofrimentos dos homens.
... e tudo é noite. Sob o arco admirável
Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,
Uma lágrima apenas, uma lágrima,
Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

Contagem regressiva: faltam 19 dias


Olá, Amigo
Não perca a conta,
Faltam 19 dias para o sarau dos saraus:

The Best Of Poetas do Tietê!

dia 12/12 às 20:ooh no Tendal da Lapa
Rua Constança, 72

três contos


1.
Os pontos cardeais me desnorteavam, ansiava qualquer trilha que passasse exatamente entre eles, sem norte, na sorte.
Primeiro era preciso acordar; abrir os olhos e não enxergar a paisagem viciada do dia-a-dia.
Depois, era preciso respirar; abrir os pulmões para o ar novo da madugada.
Por fim, abrir a porta. E dar o primeiro salto.

2.
Depois de sentir todas as dores, depois de todas as alegrias, ela sabia. Provava sabores - ansiosamente - e descobria que já os conhecia.
Depois de sentir todas as dores, depois de todas as alegrias, provava sentidos: de olhos fechados, de boca fechada, sem respirar; ela sabia.
Não restava mais nada. Entregou-se.
3.
A placa avisava, o guarda cuidava, mas ele insistia. De canto de olho, rondava.
O desejo cada vez maior, inconformado, atirou-se contra a porta fechada.
Não, a placa avisava.
Não, cuidava a câmera de vigilância.
Não.

The Best Of Poetas do Tietê

Programe-se!
Falta 1 mês para o sarau dos saraus:

The Best Of Poetas do Tietê!

BATALHA DO BRASILEIRO



é a vida de todo o brasileiro

trabalha, trabalha...
batalha o ano inteiro
sonhando em um dia
ganhar muito dinheiro
criar asas!

a realidade é outra
asa não se cria
final do mês pagar as contas
carnê das casas Bahia
spc
serasa
conta de luz
conta de água
conta alí
conta aqui
abre a carteira
fugiu...

salário mágico
cadê???

sumiu...



Caranguejúnior 11/11/08

AMANHECER




Amanhecendo...

Olhando pro céu
Meu olho ardendo
Vendo

Uma estrela errante
Uma lua minguante
Descendo...

Querendo
Beijar o horizonte

Deitar no seu colo
E sonhar...



Caranguejúnior

SUÍCIDIO LUNAR



se você não voltar

me atiro

no primeiro
tiro de qualquer revolver

me atiro

e com as unhas
arranho o céu

retiro

as estrelas
de órbita

jogo-me

no primeiro
luar

morro

no buraco negro
espiral


e danço...

se você não voltar





Caranguejúnior

Primavera em São Paulo é a Parada Gay!

Imagem: raphaelcarnavalesco.wordpress.com


Outro dia na Papoetaria (sábados, 11:00, Tendal da Lapa), os Poetas do Tietê faziam um brainstorm sobre agri-cultura, meio-ambiente, primavera, enfim, as infinitas possibilidades de nosso tema do mês de outubro, quando Marcelo Ferrari bem observou que a primavera é uma explosão de cores e alegria.
Na hora pensei: "Gentem, a primavera de São Paulo é a Parada Gay!"

Embora São Paulo conte com algumas espécies de árvores que nos presenteiam com suas fantásticas floradas agora no comecinho da primavera, - destaque para a Tipuana, o Ipê-Rosa, o Jacarandá Mimoso e a Sibipiruna, - a verdade é que ainda não temos jardins suficientemente bem cuidados ou um projeto paisagístico que faça da primavera um acontecimento em nossa cidade.

Muito ao contrário da Parada Gay, que de parada não tem nada. Na última edição movimentou quase 200 milhões de reais, atraiu 400 mil turistas e levou um total de 3 milhões de pessoas à Avenida Paulista.

Isso sem falar na explosão de cores e alegria!

Então está combinado, em São Paulo a primavera acontece em um fim-de-semana de junho, bem no meio do inverno!

Flores




A beleza das flores
me entristece.
Sinto-me vazio,
numa sala cheia de flores
Sou cadáver sem cor,
diante da mais colorida flor
A beleza da flor fura-me
os olhos,
Como os espinhos que se enterram
em minha pele.
Leio um epitáfio, em cada
pétala de flor.

mágica mais simples 2 - poesiaé


mágica mais simples


poesia não é
alegrar o triste
colorir o cinza
germinar asfalto
demolir concreto

poesia não é
palhaçada
suvinil
britadeira
marreta

poesia é tudo também mais e além

poesia é
alegrar o triste
colorir o cinza
germinar asfalto
demolir concreto

poesia é
palhaçada
grafite
semente que passarinho caga
e tempo tempo tempo e tempo

contradição
reinvenção
mágica mais simples
agricultura

VERDEMAISVEZES


Verde
que te quero
verde

verdeperto
verdelonge
verdelá
verdecá
verdemaisvezes
verdemaisverde

verde não se vá
o cinza já está aqui
no ar
nas paredes
nos pensamentos
dos que só querem te VERDESTRUÍDO!!!




Caranguejúnior

MEIO AMBIENTE

debaixo daquela árvore
penso em você
debaixo daquela árvore
penso em te ver
talvez um dia te reencontrar
talvez não chorar
e sim se deslumbrar
e felicidade sentir
sorrir e sorrir...
de tudo
contudo
do absurdo
penso em viver
e não padecer
debaixo daquela árvore
penso em você
penso em te ter




Caranguejúnior 16/05/2007

AGRI-cultura

Imagem: trabalhadores da prefeitura "capinam" calçada
na capital, in sertaopaulistano.blogspot.com


Ao contrário do que se possa imaginar, o paulistano pratica a arte da AGRI-cultura diariamente.
Não somos agricultures no sentido estrito da palavra, porém somos exímios AGRI-cultivadores.
Agri que vem do latim, acre, amargo, azedo... Ah, meu caro leitor, você já está começando a entender onde quero chegar!

Responda rápido, o que é mais difícil:

Pescar um robalo no Tietê ou fugir dos trombadinhas a roubar-nos no Viaduto do Chá?

Colher alface no asfalto ou fé na Praça da Sé?

Esperar banana amadurecer no pé ou esperar o trânsito desembananar?

Cavar covas para o plantar batata, mandioca, milho, feijão ou cavar um espaço no Metrô pra Itaquera às seis da tarde?

É por essas e outras que eu digo e repito, AGRI-cultura como a paulistana, não há!
Ah, agri-doces paulistanos!

prima vera

grafite nas ruas de são paulo

O mundo anda tão maluco que nem a prima-vera prima mais pela verdade Vocês verão São Paulo quinta-feira 8 de outubro onze e trinta de uma noite fria Desafiando o frio fora de hora caminhando pela cidade fora de forma atravessando a degradada rua guaicurús o poeta prosseguia sussurrando poesia No mundo da lua não havia garoa fina 10 graus meia-noite ônibus errado No mundo onde ia a cabeça do poeta só havia poesia Foi quando percebeu o mendigo debaixo da marquise O papelão ajeitado à moda de cama o cobertor sujo a garrafa de coca-cola já quase sem cachaça alguma O homem só queria se ir desse mundo para qualquer lugar mais quente nem ligava se fosse pro inferno Mas a realidade insistia em rodeá-lo Calçada asfalto garoa poças meia-noite São Paulo E toda a poesia na cabeça do poeta se foi deixando sua cabeça mais vazia que a garrafa de cachaça Balão que o guiava no mundo das nuvens despencou Calçada asfalto garoa poças meia-noite São Paulo O mundo anda tão maluco que nem a prima-vera prima mais pela verdade Vocês verão Muitas vezes esses tombos do mundo da lua são os que mais machucam

amo-ti, E.T.


você que jaz - não em paz,
resurgindo das cinzas-cidade que o matou.
você espelho que ela evita e quebra
atraindo 7-centos anos de azar e ingnorância.

você onde a cidade cospe e faz pior,
você seus intestinos,
você seu coração,
você suas próprias veias que a cidade auto-injeta e envenena.

amo-ti você,
amo-ti, E.T. pousado nas entranhas da cidade.

amo-ti, E.T.,
porque você é verdadeiro,
ela é de fumaça;
você, elementar,
ela é de borracha.

amo a ti, E.T.,
porque o verdadeiro E.T. é ela,
cidade que, quando nasceu,
se batizou em tuas águas.
e quando ela se for
e quando dela nada restar,
ti, E.T.
renascerá.

outubro: AGRI-cultura


Em outubro os Poetas do Tietê poetarão sobre o tema AGRI-cultura.

Nosso sarau será realizado dentro do evento "Café Orgânico" que acontecerá no Tendal da Lapa no dia 24/10 pela manhã.
AGRI-cultura foi a maneira que nós, paulistanos de coração, por opção ou adoção, encontramos de falar de meio-ambiente nesta metrópole do caos!

Cartinha para Papai Noel


Querido Papai Noel,


Gostaria de

ganhar um carrinho

bomba

Para enfiá-lo

dentro

e ver suas

tripas pintarem

um quadro

menos mentiroso

do que estou

acostumado a ver

desde pequenininho,

um quadrinho todo

vermelho como o

rótulo da Coca-Cola,

que desentope pias

e corrói cérebros,

que não avisam

os olhos dessa gente,

que Natal não é peru

nem abraço falso.



Beijos e navalhadas

no seu saco.



Andrézinho.

O chute


Levei um
chute na
minha identidade!
Já não sei
mais quem eu sou!
João? Maria?
José? Rodrigo?
Sou um monte
de pedaços!
O que não importa,
se espalhou
Mas, meu tesão
ficou colado na
sola,
Entre os dedos
Que este vil
cão, chupou!

Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

O falo


Viril
violador,
Extropiado
de tanto
se meter
onde não
foi chamado,
Que fim terá
o falo?
Ridiculamente
rígido
num priapismo
assustador ?
Ou cabisbaixo
e vencido
entre dois ovos
cozidos em seboso
suor?
Palmas! Palmas
para o falo!
Este incansável
incompreendido molestador!


Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

musa


fotomontagem sobre imagens de Monalisa, Frida Khalo, Simone de Beuvoir, Venus de Milus, Madonna, Anita Garibaldi, Florbela Espanca e Giselle Bundchen

Não, eu não idealizo a minha musa,
não a emolduro em telas que não a conteriam;
mesmo os seus defeitos, eu reciclo
e transformo em mil novas possibilidade.

Minto isso pra vocês,
porque pra mim
ela já nasceu perfeita:
meio Monalisa com Simone de Beuvoir,
meio Madonna com Florbela Espanca,
meio Giselle Bundchen com Anita Garibaldi,
meio calabresa, meio muzzarela.

Todos esses meios,
todos essas juntas,
são gota
que respingou no avental de Deus
no dia em que Ele tonalizou
o seu olho
esquerdo.

Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

LIXO, O LUXO DE OUTROS DIAS





lixo
o luxo de outros dias

jogados ao léu
numa montanha de chorume
sem cume
sem perfume

recicladores
reciclam as cores
as dores do mundo

o que restou ?
o que restará?

o que restaurou!
o quê restaurar!?


na montanha do monte Himalata
onde ninguem quer subir

os artistas conquistaram
o seu pedaço
de pau
de ferro
de garrafas e latas
que hoje
transforam-se
em nobres sucatas...




Caranguejúnior

eu sou a visão de cada um

amo-ti, etê

coração de garrafa pet


Imagem: um castelo de lixo
(curiosidadesnanet.wordpress.com)


Tá certo, eu não arquiteto
cidades, eu não desenho
automóveis, eu não piloto
foguetes.

Sou um poeta só,
mas não precisa rir assim do meu amor.
Se até uma garrafa pet você recicla,
e faz casinha para o seu pet que você beija – de língua!

Tá certo, eu nem sou cachorro não,
nem lixo nem aquilo.
Poeta que só lhe sonharia um reino,
que faria de meus braços carruagem
que lhe viajaria à lua nova.

Mas não precisa ir assim de mim,
reciclo meu coração de vidro barato
e faço falsos diamantes para teus dedos,
casinha para teus deslumbres.

Para minha rainha
fecho sábado de carnaval a avenida,
e brincamos doces polcas, falsas valsas,
até o nunca mais desfalecer.

paisagem noturna




SETEMBRO - Lixo?

Lixo?
Imagem: pimentanamuqueca.com.br


O sarau de setembro dos Poetas do Tietê estará inserido no evento multicultural de encerramento da Exposição Diálogos do Coletivo Nobre Sucata. Exposição que apresenta telas, esculturas, instalações etc, criadas a partir de material encontrado nas ruas da cidade.



Pensando nisso, os Poetas do Tietê elegeram como tema de setembro "Lixo?"




Embarque em mais esta navegação literária do Poetas do Tietê!

São Rivotril


São Rivotril
que estás no alto
da prateleira!
Bendito sois
entre as caixas
de remédios!
Socorrei-me,
pois parece que
irei explodir,
como bomba de São João!
Mas, João, nada pode fazer,
contra o demônio do stress
que me possui!
Só o suavizante manto
tarja-preta
que traz a paz das nuvens
à minha cabeça!
Antes: Puta que o pariu!
Agora: A dor de existir?
Sumiu! Sumiu! Sumiu!
Santo! Santo! São Rivotril!

Merda


Pisei
na
merda,
Merda
fedida
Que
nem
pum
no
elevador
parado,
Pum
de
repolho,
Que
nem
trabalho
de
segunda feira,
Que nem
casal
se
beijando
no
cinema,
E eu
sozinho,
olhando
pra
tela
branca!
Merda!

trilha sonora do stress

Dizem que as estatística dizem que nas poucas horas entre o “É Fantástico” e o “está no ar o Bom-dia São Paulo”, neste curto período: domingo-à-noite-segunda-feira-de-manhã, ocorre o maior número de suicídios e ataques cardíacos na semana.

O que que é isso gente? É stress! Só de pensar, “Vai começar tudo de novo, o meu chefe, a cobrança, aquela pendência que eu ainda não consegui resolver...” Só de pensar já dá uma falta de ar, uma dor no peito, no braço esquerdo!

“Olha a hora! Seis e quarenta e cinco! Repita! Seis e quarenta e cinco!” Eu de férias, na praia, e meu vizinho me acordava todo santo dia com o rádinho de pilha e o barbeador elétrico: “Olha a hora! Seis e quarenta e seis! Repita! Seis e quarenta e seis!”
Ô meu Cristo amado! Fé-ri-aaas! Relaxa homem!
Não tem jeito, não. O paulistano acostuma com aquela hora de acordar todo dia e não desacostuma nem nas férias! Nem na aposentadoria!

“São Paulo da garoa, São Paulo terra boa!” Boa, com esse friozinho, de ficar debaixo das cobertas até mais tarde... “São Paulo que amanhece trabalhando!”
Que trabalhando? Que trabalhando? Me deixa dormir!

TRRRRIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMM
“São Paulo que não pode adormecer...”

Ô cidadezinha estressada, sô! Só mais cinco minutinhos!

_____________________________________________________