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Arqueologia - Escavando Poesia


Imagem: capa do álbum "Para los
arqueólogos do futuro"  de 1989,
da banda chilena "Congreso".

Na Papoetaria do dia 5/11, a partir do poema "Dino", do poeta Pipol, e de duas frases, de Foulcaut e Stephen King, tentamos ligar uns pontinhos soltos da História.


"Os acontecimentos na arqueologia das ciências humanas são acontecimentos-limite, anunciam os derradeiros momentos de algo prenunciando o surgimento de outra coisa" - Foulcaut


“O trabalho do escritor é conseguir tirar cada osso do solo sem danificá-lo. Às vezes o fóssil que você desenterra é pequeno, uma concha marinha. Às vezes é enorme, um tiranossaurus rex. – Stephen King


Dino (Pipol)
Equipe escavando na América do Sul
encontra os restos fósseis do que seria
o maior dinossauro que já existiu.

 
Cientistas renomados da América do Norte
não medirão esforços para provar que,
embora maior e certamente muito mais forte,
o novo dinossauro não era carnívoro,
e sua agressividade nem chegava perto
da do Tiranossauro Rex,

 
o dinossauro favoritos dos garotos
da América do Norte.

Passado Moderno
Carolina Hermana

Quem vive de passado é museu,
Monalisa, Leonardo da Vinci,
Retratos velhos e quase esquecidos,
Deixados de lado. 

Não importa com quantos paus se faz uma caverna,
Modernidade traz à tona luz de graça,
A internet abençoada conecta o mundo,
Ocultando de vez o envio de cartas. 

Ser ou não ser?
Fazer ou esquecer?
Protestar ou dormir?
Reclamar ou agir? 

Escrevam poesias,
Pichem palácios,
Reclamem rebeldia,
Não elogiem os palhaços.


sobre palitos, deditos & doritos
Paulo D’Auria 

eu vi a pintura rupestre na televisão
os homenzinhos palitos caçando com suas lanças palitos
grandes animais palitos do paleolítico
e eles (já) moravam no morro onde
faziam fogueiras cantavam trepavam
e desenhavam suas grandes façanhas na rocha
para a posteridade ver 

(e 40 mil anos depois não é que eu vi
eu vi o pablo picasso palito na televisão) 

a vida na pedra era dura
fazia inverno quando devia fazer verão
mulher se caçava na clava
(a vida na pedra era dura)
o deus sol era inclemente
(fazia verão quando devia fazer jardim de inverno)
e nem tinha inventado ainda a tal redenção
a vida / na pedra era / dura 

feliz de minha vida mole engoli
a o último gole de cocacola e sorri
espanei as migalhas do colo
passei perfume
conferi a hora
e saí 

lá fora o menino palito estendeu seu bracinho palito
e me entregou seu bilhete rupestre neo-neolítico:
tenho 6 irmãos
meu pai foimbora di casa
minha mãe impregada istá disimpregada
pregada
pregada na cruz palito da vida palito
com seus bracinhos palitos abertos 

acho que perdi
a loco
motiva
o trem bala
da história 

voltei para casa e tranquei
a história a porta a razão do lado de fora 

mas a frase de um velho de 90 anos que trabalha na roça
batendo na porta da minha cabeça pedra:
“a vida é dura pra quem é mole!” 

eu / sou / mole / mole / mole
de marré marré marré

futuro do presente
Paulo D'Auria

na arqueologia do futuro do presente os arqueólogos vão desenterrar a os ossos e os ossos e mais ossos da nossa cabeça vazia oca sem cérebro que o pouco os insetos já terão comido devolvido à terra na forma de limbo digo húmus na arqueologia do futuro do presente os arqueólogos vão desenterrar os nossos cocôs junto à fogueirinha de papel e calcular os anos pelo carbono 14 dos carros escapamentos de banco de couro e concluir que éramos contemporâneos moradores das cavernas viadutos e dos autómóveis de aço luxo na arqueologia do futuro do presente os arqueólogos vão cuidadosamente tirar o pó dos ossos de nossas cabeças ocas insossas e levantar a questão que ecoará através dos séculos o que afinal nós estávamos pensando?


Essência Envenenada
André Dia(s/z)? 

Achei meu coração
enterrado no cemitério dos velhos sonhos,
já não batia como antes
mal podia reconhecê-lo
cada fraca palpitação
era um código Morse
que já não me dizia nada.
Os anos 2000 não são coloridos
como os desenhos dos Jetesons,
a revolução industrial
mastigou com seus dentes metálicos
cada vestígio da frágil semente,
bolhas esverdeadas de sabão
estouram todos os dias,
o índio mata para comprar drogas,
enterro de volta meu coração.
Quem sabe,
quem sabe um dia
o desenterre para um transplante,
esta troca tão sonhada
da inocente essência envenenada

Um comentário:

Caranguejúnior disse...

Muito lÔ - cÔ

Abrax!