em branco
- - - - - abaixo é o tema de dezembro - são silvestre - - - - -

a corrida - seleção brasileira

são papais-noéis, são garçons, são paulinos, são corintianos, são ronaldinhos, são ronaldões, são capixabas, são potiguares, são atletas, são pernetas, são penetras, são índios, são brancos, são negros, são japones, são chineses, são homens e são mulheres, uma seleção brasileira de tipos e esforços, sorrisos e esperanças rasgando o coração da cidade de são paulo, são silvestre.


Fotos Paulo D'Auria

Na via advém, mas se não vem, adivinha?

O que é o que é que:
entre erres e esses
de ruas e pedestres
homens e mulheres
não querem perder?

Tempo, tempo, tempo...

Parece com um teste,
são novatos e mestres
nativos campestres
com trajes e vestes
do mesmo porquê.

Passa tempo, passa tempo, passatempo...

E no último dia
que o ano padece
São Paulo conhece
com data de prece
o que vai pra tevê.

Há tanto tempo, há tanto tempo, há tanto tempo...

Que quando é hora de ir,
mesmo que chova canivete
só então se percebe
como são todos silvestres
quando querem correr.

Mas daí...

Falta tempo, falta tempo, falta tempo...

anti-são silvestre

São Paulo não é silvestre
São Paulo é agreste
É filme b
Sangue, suor e lágrimas
São Paulo é uma peste

Se existe algo que São Paulo não é, é silvestre
São Paulo é novela ruim
Selva de pedra, asfalto e medo
São Paulo é o fim

São Paulo é exatamente o contrário de silvestre
São Paulo é o mais óbvio chavão de metrópole
Cinza, suja e fria

São Paulo se odeia
Se antropofaz
E regurgita

Reinventando-se de tal maneira
Que aos 31 dias do mês de dezembro
São Paulo amanhece
Mais que silvestre
São Paulo se traveste
São Silvestre

estúpida são silvestre

É o início,
Só há o verbo
E o caos.

Deus ainda não jogou os dados, as fichas,
Não girou a roleta do tempo.

Não há nada,
Ainda não foi dada a largada
Desta estúpida são silvestre.

Uma nova chance, passarinhos,
Desta feita romperemos a fita da vitória
Ou mais uma vez nos perderemos
Pelo caminho?

ton-ton

1.
MASP, Paulista, Consolação, Ipiranga, São João, Minhocão, Memorial da América Latina, Av. Rudge, Rio Branco, Lgo. do Paissandu, Teatro Municipal, Viaduto do Chá, Brigadeiro, Paulista, Prédio da Gazeta.
Ton-Ton, o motoboy, percorria estes endereços diariamente, mas passava tão depressa no corredor entre os carros, buzinando e se equilibrando, que não se dava conta.
Na expectativa da largada, - a multidão, o número colado no peito, 27.335, o tênis velho machucando o pé, - é que não ia mesmo perceber.
Na Paulista um acotovelamento.
Descendo a Consolação, todo santo empurrando.
Passou pela famosa Ipiranga com São João e assobiou uma melodia que sequer conhecia.
No Minhocão, as pessoas nas janelas acenando, começou a notar.
O Memorial da América Latina era um deslumbramento.
A Av. Rudge, solidão.
Foi na Rio Branco que viu com clareza.
Parou de correr, caminhava.
“O que me importa? Devo estar em milésimo lugar!”
Olhou, olhou bem, caminhava cada vez mais devagar.
Sorriu de satisfação.
Sim, era São Paulo!

2.
Cruzou descalço a linha de chegada. Não era o último.
Ganhou um beijo da namorada que chegou para o final.
- Tá linda de branco! Quem ganhou? Brasileiro?
- Um negão. Queniano, parece. E o tênis?
- Esfolou meu pé.
- Jogou fora? E vamos assistir ao show da virada assim? Eu de vestido novo, você descalço?
- Dá sorte... Tomara que chova, preciso de um banho.
- Vadeílton...
- Vamos procurar um dog? Eu comeria um boi agora!

Voltavam para casa e a chuva caiu diante de seus olhos, estirada no meio da madrugada.
Bêbado, ele a pediu em casamento.Bêbada, ela riu, “Ton-ton... Você!”

Naquela noite não havia corredor, não precisava se equilibrar.

equipe de manutenção

por Ferrari

A vizinha levou um vinho e um panetone.

A mesa estava posta no quintal, repleta, iluminada, próxima ao chafariz que, segundo Eliseu, só não bombeava melhor que seu coração. Feito pombos, os convidados pulavam de travessa em travessa. Na parede, uma imagem de São Epitáfio zelava pela moral e bons costumes, mas com a conversa variada, o santo parecia perdido. A festa era a última parcela da dívida que Eliseu tinha com São Epitáfio. Entre outras coisas, ele havia prometido ao santo a inauguração de um chafariz na virada do ano, caso sobrevivesse a operação cardíaca.

De repente, o quintal escureceu. O filho da vizinha subiu na laje da casa e viu que o bairro inteiro estava apagado. Eliseu ligou pra companhia de luz. A equipe de manutenção já estava a caminho.

Faltavam poucos minutos pro ano-novo, quando o caminhão da Força e Luz parou diante da casa. Via-se apenas um vulto em cima do poste. Na festa: uva passa, uva passa, uva passa… Alguém ligou um radinho de pilha numa estação evangélica. O pastor dizia: “Vamos dar as mãos e fazer uma corrente pra entrada do ano. Se você estiver sozinho, levante suas mãos pro céu; estaremos todos juntos”. Na espera de um milagre extra e gratuito, Eliseu ligou a chave do chafariz e pôs a imagem de São Epitáfio ao lado do interruptor. Depois chamou todos pra darem as mãos ao redor do chafariz. Em poucos minutos, a corrente de fé estava formada – só faltava a corrente elétrica.“Treze segundos”, disse o pastor no rádio. “Oito… três… dois… um…”.

No poste, o vulto se transformou na equipe de manutenção – um homem só, ou melhor, um só homem – pois também estava com as mãos levantadas.

“Aleluia!”, disse o chafariz.

Só não há vagas para guarda-chuvas

por Renato Silva


O equilíbrio da nissei que perdeu o rebolado
na Estação Santo Amaro
na

Estação Santo Amaro
desamparo

A vida do mineiro que perdeu a pulsação
na Estação Vila Carrão
na

Estação Vila Carrão
comoção

A paciência da baiana que perdeu a paz
na Estação Brás
na

Estação Brás
Satanás!

A timidez da paraense que perdeu a solidão
na Estação Conceição
na

Estação Conceição
atração

A coragem do judeu que perdeu a paquera
na Estação Itaquera
na

Estação Itaquera
quem dera

O chão da amazonense que perdeu a alegria
na Estação Santa Cecília
na

Estação Santa Cecília
uma ilha

A higiene do gaúcho que perdeu o cumprimento
na Estação São Bento
na

Estação São Bento
constrangimento

A pureza da goiana que perdeu o juízo
na Estação Paraíso
na

Estação Paraíso
improviso

Só não há vagas para guarda-chuva, sinhô,
nos achados e perdidos do Metrô.


Cidadão das nuvens
Renato Silva

'' TEMPO VELOZ ''


o ano paaaasssssouuuuu
rapidamente
como os Quenianos na São Silvestre
como as nuvens no sertão
como eu pela manhã
correndo atrás do buzão...

Caranguejúnior

microconto

Mas ele tinha feito promessa a São Silvestre de que correria para sempre.
E agora a crise etc e tal, ficou sem o emprego de Papai-Noel.
Contava com ele pra pagar a inscrição. Se virava como?
Antes de ligar a tv, repassou a vida:
Não, não daria um romance, como diria "A Falecida".
Por hora, mal tinha assunto pra um microconto.

coisa que o valha

Ufa!
Ufa!
Ufa!
embagem de sonho papel de bala brigadeiro
o gari varrendo
uma maratona por dia

Ufa!
Ufa!
Ufa!
tatu-bolinha porco-espinho minhocão
a criança inventando
uma maratona por dia

Ufa!
Ufa!
Ufa!
amazonense sergipano paulista
o sertão parindo
uma maratona por dia
- e o matuto seguindo -

Ufa!
Ufa!
Ufa!
São Paulo São João São Silvestre
o poeta sonhando
uma maratona por dia

e o gari a criança o matuto o poeta
nunca ganharam medalha
ou coisa que o valha!
Ufa!
Ufa!
Ufa!
valha-nos nossa senhora!

o bêbado

O bêbado que mal sabia qual dia era dia disso ou daquilo,
o natal percebia porque via
sob o verão equatorial,
sobre o asfalto a quarenta graus,
a cidade às voltas com pinheiros estilizados,
neve de plástico
e renas de ilusão.

Pegava então suas tralhas e mudava-se para a Paulista,
esperar o grande dia.
Ano após ano, 3 segundos antes do vencedor,
invadia a avenida
e acenava para a câmera posicionada
atrás da linha de chegada.

Há 10 anos longe de casa,
a barba longa,
a cara encovada,
- a quem será que ele esperava?

''CORRERIA ANUAL''



'' Luciano, campeão da são silvestre de algum ano... alguém se lembra??''



povo batalhador
passa o ano todo
correndo pelas ruas da cidade
atrás de dinheiro
trabalho
felicidade
e no fim do ano
acha fôlego
e corre pelas ruas
atrás da glória
da vitória
de um dia ser lembrado
na história
povo guerreiro
seu zé motorista
seu João pedreiro
seu Pedro taxista
seu Severino porteiro
todos em busca
de serem mais um
herói Brasileiro
de uma condecoração
fazendo de si
a bravura em pessoa
não sendo mais um na multidão
enchendo as ruas de beleza
sabendo que já é
herói por natureza...

Caranguejúnior ''mais um herói por natureza''

Corredor

Corre...Corre...Corredor!
Corre até não mais poder...
Tenta achar a ti mesmo,
No lado de fora...
Na grande avenida...

Avenida da vida,
Cadê seu troféu?
Corre até não chegar...
Nem no ultimo lugar...

Não se aguenta nos pés,
Não se aguenta no chão...
Mas tem que correr...
Tem que ganhar...

Sofrer tentando ganhar...
Sofrer assim...
Não dá vergonha!
Sofrimento de vencedor!

Vencedor?
Corre...Corredor!
Corre afinal, pra não ser...
no final, mais um "morredor!"