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Meu pai (por Ferreira Gullar)


















meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro

Só não há vagas para guarda-chuvas

por Renato Silva


O equilíbrio da nissei que perdeu o rebolado
na Estação Santo Amaro
na

Estação Santo Amaro
desamparo

A vida do mineiro que perdeu a pulsação
na Estação Vila Carrão
na

Estação Vila Carrão
comoção

A paciência da baiana que perdeu a paz
na Estação Brás
na

Estação Brás
Satanás!

A timidez da paraense que perdeu a solidão
na Estação Conceição
na

Estação Conceição
atração

A coragem do judeu que perdeu a paquera
na Estação Itaquera
na

Estação Itaquera
quem dera

O chão da amazonense que perdeu a alegria
na Estação Santa Cecília
na

Estação Santa Cecília
uma ilha

A higiene do gaúcho que perdeu o cumprimento
na Estação São Bento
na

Estação São Bento
constrangimento

A pureza da goiana que perdeu o juízo
na Estação Paraíso
na

Estação Paraíso
improviso

Só não há vagas para guarda-chuva, sinhô,
nos achados e perdidos do Metrô.


Cidadão das nuvens
Renato Silva

Aonde a coruja dorme

Cidadão das nuvens


O ditador imita Hitler
pelo tempo de um apito -
inicia-se a partida.

No tabuleiro de xadrez esmeralda
brotam as primeiras jogadas.

Uns vão de unha;
outros palavrões, amendoins –
a multidão mastiga.

Esfera pergunta: és fera? -
de pé em pé, de ouvido a ouvido.

Um torcedor cala o rádio,
para cantar o galo
do treinador careca.

Apenas a tiete despreza
o bem-me-quer da bola.

Agasalhado e de luvas,
o arqueiro destoa
do resto do estádio.

O auxiliar é o único sério
a tremular bandeira.

Na barriga da mulata grávida
o recém-nascido brasileiro
chuta com estilo.

A rede é o véu da noiva trave
a esperar o gol de letra.

Aonde a coruja dorme:
Pesadelo de goleiros,
sonho de artilheiros.

Gol: metade do estádio tira
palavras da boca da outra metade.


Cidadão das nuvens
Renato Silva

Poesia também é letra


















Canhoteiro - Fagner & Zeca Baleiro



Um anjo torto
Um canhoteiro
Um São José de Ribamar
Um bailarino
Um brasileiro
Um Paraíba
Um Ceará

Um pé de ouro
Um peladeiro
Mata no peito e beija o sol
Balão de couro
Bola de efeito
Mas que perfeito é o futebol

Corre dispara pára ginga e zás
(Corre dispara pára ginga e jazz)
Mais um zagueiro vai pro chão
Esse já era não levanta mais
Outros virão
Finta canhota voa samurai
Lá vai a bola bala de canhão
Seu pé direito é a bomba que distrai
O esquerdo é o coração

Um belo drible
Decide o jogo
No grande baile do futebol
Só um artista
Um canhoteiro
Acende a tarde inventa o sol.

Nelson Rodrigues
















"Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos..."

Decisão










por Eliane Brito



Multidão hipnotizada,
Antes gritos, agora só respiração
O tambor dá vez às batidas do coração
O peso do mundo em uma bola.

A glória virá dos pés?
A esperança reside nas mãos?
Um olhar dentro dos olhos
Outro, que busca o chão

Som estridente corta o ar
O movimento pós concentração:
A perna que se contrai e que se estende
O corpo longelineo alçando vôo do chão

Ironicamente,
Nem pés, nem mãos, nem travessão
Conhece a dona bola outra dimensão

Um Baggio que isola e que se isola
Um Brasil que ri e chora, que é campeão

Chutebol

Renato Silva - Das nuvens



Vai ser chutebol
a tarde inteira
Pega o gelol
e a caneleira

O tempo a gente chuta de chuteira
Cobra lateral de lá da beira
Arruma confusão, luva, barreira
Bebe água da torneira

Vai ser chutebol
a tarde inteira
Pega o gelol
e a caneleira

Mete um cartão em quem faz cera
Dribla de chapéu, lençol, chaleira
Chinelo vira trave, brincadeira:
que goleiro fim de feira

Todo brasileiro é
unha e carne com os dedos
de Pelé

Todo brasileiro é
unha e carne com os dedos
de Mané.

Hino da Portuguesa (Roberto Leal/ Márcia Lúcia) *

















Vamos à luta, ó campeões,
Hão de vibrar os nossos corações.
Da tua glória, toda a certeza.
Que tu és grande, Ó Portuguesa.
Vamos à luta, ó campeões,
Há de brilhar a cruz de teus brasões,
E tua bandeira verde encarnada,
Que é a luz de tua jornada.
Vitória é a certeza
Da tua força e tradição
Em campo, ó Portuguesa,
Pra nós és sempre o time campeão.


* Trata-se do hino atual.Há também a primeira versão.