(Karla Jacobina)
1 Em toda a Terra, havia somente o pastel de carne, em que se empregava acém passado e moído no recheio. 2 Emigrando do Oriente (por óbvio não poderia faltar japonês na história)... Emigrando do Oriente (quem nasceu primeiro o japa ou o pastel?)... Emigrando do Oriente (o pastel, senão o japonês teria cara de que?)... Emigrando do Oriente (e prendendo todos os devaneios entre parênteses)... Agora vai... Emigrando do Oriente os pasteleiros encontraram uma planície na terra de Sampa e nela se fixaram. 3 Disseram uns para os outros: "Arigatô, konetioá, pastel de carne." Ou seja: Já que estamos perdidos, desvalidos e sentados na pica do paulista, só nos sobra beber. Após encherem a cara de garapa, um japa fez a outra coisa que japa faz além de pastel: “Japonês teve idéia! Japonês teve idéia! Japonês constrói porto seguro de pastel!”. Por óbvio não podia faltar pastel na idéia do japa. Utilizaram os pastéis em vez da pedra, e a garapa serviu-lhes de argamassa. 4 Depois disseram: “Japonês constrói torre comprida, comprida, comprida, de cimo pra lá do céu, assim, nem japonês nem pastel fica perdido em pica de paulista né?”. Não se tratava da construção do Banespa, tampouco da galeria Pajé, era a Torre de Pastel ficando em pé. 5 O SENHOR, porém, desceu, a fim de conhecer a torre, a pica e pedir um pastel pra viagem. 6 E o SENHOR disse: "Eles produzem apenas um sabor de pastel e bebem apenas garapa de garapa. 7 Vamos, pois, descer e confundir seus paladares, de forma que não consigam mais encontrar satisfação no pastel de carne nem na garapa de garapa. Em seguida, vamos dispersá-los por toda superfície da pica do paulista." 8 Então, o SENHOR apresentou-lhes o queijo, a calabresa, o bacalhau e o bacalhau com calabresa e queijo. Mas antes de dispersar os japas dali, pediu um especial com o mundo dentro e uma garapa de abacaxi.
em branco
gênese (segundo a gastronomia)
(Ferrari)
no principio
não era a faca
nem o queijo
era a porra
da fome
penetrando no domingo
recheando-o
de feiras
pasteis e bocas
no principio
não era a faca
nem o queijo
era a porra
da fome
penetrando no domingo
recheando-o
de feiras
pasteis e bocas
estranho recheio
(Jr. Magal)

depois de uma noite alegre,
de conversas e cervejas,
o poeta vai saciar sua fome...
— moça me dá um pastel
— de que sabor?
— sabor de céu, tem com estrelinhas?
— hum não tem...é cada uma! (essa cara tá bêbado... só pode...)
— então me faça um pastel de sopa de letrinhas, pois, sou poeta e tenho fome...
— porraa, uma hora dessa, e demais pra mim... tenho que arrumar outro emprego!
— moça não me leve a mal, mas o poeta tem fome de letras, se tiver pastel com recheio de vogal e consoante, eu quero... coloque também, um pouco de metáforas, um pouco de parábolas ou vice e versa, um pouco de metábolas e um pouco paráforas, uma ligeira porção de substantivo, e o que tiver aí...
— meu Deus!!! estou muito velha para isso meu filho...

depois de uma noite alegre,
de conversas e cervejas,
o poeta vai saciar sua fome...
— moça me dá um pastel
— de que sabor?
— sabor de céu, tem com estrelinhas?
— hum não tem...é cada uma! (essa cara tá bêbado... só pode...)
— então me faça um pastel de sopa de letrinhas, pois, sou poeta e tenho fome...
— porraa, uma hora dessa, e demais pra mim... tenho que arrumar outro emprego!
— moça não me leve a mal, mas o poeta tem fome de letras, se tiver pastel com recheio de vogal e consoante, eu quero... coloque também, um pouco de metáforas, um pouco de parábolas ou vice e versa, um pouco de metábolas e um pouco paráforas, uma ligeira porção de substantivo, e o que tiver aí...
— meu Deus!!! estou muito velha para isso meu filho...
feira livre
(Rogerio Santos)

nas cores da feira
a vida encandeia
no verde abacate
limão espinafre
amarelo mamão
lima-da-pérsia
vermelho tomate
caqui coração
amoraconchegante
olhar jabuticaba
tão denso de sonho
azulado sorriso
a morar indeciso
no papel da maça
pastel e garapa
entoam cântico:
tchiiiiiiiiiiiiiiiii
tátátátátátátá
sinfônico desejo
ter a fome saciada
por meio arco-íris

nas cores da feira
a vida encandeia
no verde abacate
limão espinafre
amarelo mamão
lima-da-pérsia
vermelho tomate
caqui coração
amoraconchegante
olhar jabuticaba
tão denso de sonho
azulado sorriso
a morar indeciso
no papel da maça
pastel e garapa
entoam cântico:
tchiiiiiiiiiiiiiiiii
tátátátátátátá
sinfônico desejo
ter a fome saciada
por meio arco-íris
moça bonita não paga
(Cidadão das Nuvens - Renato Silva)
Olha a manhã, freguesa
Olha a manhã, freguês
Para armar a feira
nós acordamos
antes das três
Olha a maçã, freguesa
Olha a maçã, freguês
Já foi da branca-de-neve
de Newton e pode
ser de vocês
Moça bonita não paga
Moça bonita me leva
Te dou uma maçã do amor
para comer sua maçã de Eva
Moça bonita não paga
Pega do chão e leva
Faz feira na feira do chão
comida que a outra despreza
Olha a manhã, freguesa
Olha a manhã, freguês
A lua já foi embora
O sol agora é
a bola da vez
Olha a maçã, freguesa
Olha a maçã, freguês
Pro moção e pra mocinha:
meia-dúzia
a preço de seis
Moça bonita não paga
Moça bonita me leva
Sou pobre sou trabalhador
Tenho uma Kombi amarela
Moça bonita não paga
Pega do chão e leva
Procura outra verde maçã
e um trevo que a livre das trevas.
Olha a manhã, freguesa
Olha a manhã, freguês
Para armar a feira
nós acordamos
antes das três
Olha a maçã, freguesa
Olha a maçã, freguês
Já foi da branca-de-neve
de Newton e pode
ser de vocês
Moça bonita não paga
Moça bonita me leva
Te dou uma maçã do amor
para comer sua maçã de Eva
Moça bonita não paga
Pega do chão e leva
Faz feira na feira do chão
comida que a outra despreza
Olha a manhã, freguesa
Olha a manhã, freguês
A lua já foi embora
O sol agora é
a bola da vez
Olha a maçã, freguesa
Olha a maçã, freguês
Pro moção e pra mocinha:
meia-dúzia
a preço de seis
Moça bonita não paga
Moça bonita me leva
Sou pobre sou trabalhador
Tenho uma Kombi amarela
Moça bonita não paga
Pega do chão e leva
Procura outra verde maçã
e um trevo que a livre das trevas.
xixi com tinta
(Ferrari)
— É hoje? — eu perguntava, todos os dias ao acordar. Uma vez a cada sete dias a resposta era afirmativa. Pra mim, além de afirmativa, era o dia do suquinho. Só de pensar, meu estômago lambia os beiços. Logo me voluntariava a carregar as sacolas pra minha mãe. Uma vez na feira, eu conversava telepaticamente com o líquido dentro da caixa de isopor, lambendo-o com a língua da imaginação. Quando finalmente passava diante da barraca do suquinho, apontava pra caixa e salivava:
— Mãeinhê! Compra?
— Credo, filho! Isso aí é xixi com tinta! — retrucava a mãeinhê.
Podia ser até veneno! Meu sonho era sentir aquele xixi gelado deslizando goela abaixo. Mas sobre a radiação seca do asfalto, a bruxa transformava o suquinho em caldo de cana. O suborno verde até que não era ruim, mas, além da cor fosca, vinha num copo sem graça e não dentro de foguetes, carros, telefones celulares, como o suquinho. Eu engolia o caldo ocre resignado.
O tempo atropelou minhas lombrigas e deixou apenas o gosto da frustração e esta história que, certo dia, contei pra um amigo. E ainda bem que contei, pois por coincidência, milagre ou misericórdia divina, não é que meu amigo encontrou o tal suquinho numa mercearia! Ele comprou um roxo, em formato de carro e foi até em casa no mesmo dia. Era um Fusca. Ainda estava gelado quando me entregou. Meus olhos ficaram mais úmidos do que minhas mãos. Numa espécie de terapia de vida passadas, me sentei no chão e comecei a morder o pára-choque do suco. Quando o plástico se rompeu, espremi todo o líquido goela abaixo, até terminar a catarse.
— E aí, gostou? — perguntou meu amigo.
— Parece xixi com tinta! — respondi satisfeito.
— É hoje? — eu perguntava, todos os dias ao acordar. Uma vez a cada sete dias a resposta era afirmativa. Pra mim, além de afirmativa, era o dia do suquinho. Só de pensar, meu estômago lambia os beiços. Logo me voluntariava a carregar as sacolas pra minha mãe. Uma vez na feira, eu conversava telepaticamente com o líquido dentro da caixa de isopor, lambendo-o com a língua da imaginação. Quando finalmente passava diante da barraca do suquinho, apontava pra caixa e salivava:
— Mãeinhê! Compra?
— Credo, filho! Isso aí é xixi com tinta! — retrucava a mãeinhê.
Podia ser até veneno! Meu sonho era sentir aquele xixi gelado deslizando goela abaixo. Mas sobre a radiação seca do asfalto, a bruxa transformava o suquinho em caldo de cana. O suborno verde até que não era ruim, mas, além da cor fosca, vinha num copo sem graça e não dentro de foguetes, carros, telefones celulares, como o suquinho. Eu engolia o caldo ocre resignado.
O tempo atropelou minhas lombrigas e deixou apenas o gosto da frustração e esta história que, certo dia, contei pra um amigo. E ainda bem que contei, pois por coincidência, milagre ou misericórdia divina, não é que meu amigo encontrou o tal suquinho numa mercearia! Ele comprou um roxo, em formato de carro e foi até em casa no mesmo dia. Era um Fusca. Ainda estava gelado quando me entregou. Meus olhos ficaram mais úmidos do que minhas mãos. Numa espécie de terapia de vida passadas, me sentei no chão e comecei a morder o pára-choque do suco. Quando o plástico se rompeu, espremi todo o líquido goela abaixo, até terminar a catarse.
— E aí, gostou? — perguntou meu amigo.
— Parece xixi com tinta! — respondi satisfeito.
pastel de carne
(André Dias)
Enterrei meus dentes...
O pastel se abriu,
Mandíbula tremeu...Fremente!
Bafo quente! Lingua sentiu!
Sentir a carne!
Desejo! Volupia! Tesão...
Morrer...Fartar-me...
Pecado...Sensação!
Vamos, dona...
Dê-me um caldo de cana!
Ao sabor da carne, se soma...
Apagará minha chama?
Caldo gostoso, mulher...
Por hoje, estou saciado!
Obrigado! Quanto é?
Deixa-me ficar ao teu lado!
Vendo-te servir...
À outros esfomeados!
Antes de finalmente, partir...
Procurar a carne, noutros lados!
Enterrei meus dentes...
O pastel se abriu,
Mandíbula tremeu...Fremente!
Bafo quente! Lingua sentiu!
Sentir a carne!
Desejo! Volupia! Tesão...
Morrer...Fartar-me...
Pecado...Sensação!
Vamos, dona...
Dê-me um caldo de cana!
Ao sabor da carne, se soma...
Apagará minha chama?
Caldo gostoso, mulher...
Por hoje, estou saciado!
Obrigado! Quanto é?
Deixa-me ficar ao teu lado!
Vendo-te servir...
À outros esfomeados!
Antes de finalmente, partir...
Procurar a carne, noutros lados!
feira moderna
(Fernando Brant, Beto Guedes e Lô Borges)
Tua cor é o que eles olham, velha chaga
Teu sorriso é o que eles temem, medo, medo
Feira moderna, o convite sensual
Oh! telefonista, a palavra já morreu
Meu coração é novo
Meu coração é novo
E eu nem li o jornal
Nessa caverna, o convite é sempre igual
Oh! telefonista, se a distância já morreu
Indepedência ou morte
Descansa em berço forte
A paz na Terra amém
Tua cor é o que eles olham, velha chaga
Teu sorriso é o que eles temem, medo, medo
Feira moderna, o convite sensual
Oh! telefonista, a palavra já morreu
Meu coração é novo
Meu coração é novo
E eu nem li o jornal
Nessa caverna, o convite é sempre igual
Oh! telefonista, se a distância já morreu
Indepedência ou morte
Descansa em berço forte
A paz na Terra amém
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