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o português e o tijolo

(Karla Jacobina)



Que um pedreiro e um tijolo subam juntos num andaime
Que o pedreiro e o tijolo cheguem bem alto
Que um português seja engenheiro
Que o português tenha uma filha encapetada, de sete anos, daquelas piolhentas
Que no café da manhã, os piolhos da piolhenta saltem pra cabeça grande do pai
Que o pedreiro e o tijolo continuem subindo
Que o português chegue na obra
Que o pedreiro e o tijolo cheguem mais alto um tantinho
Que o português, por coceira do destino, tire o capacete da cabeça ao meio dia e trinta e nove
Que o pedreiro tenha tomado uns goro na hora do almoço
Que o pedreiro até a tampa, deixe o tijolo cair lá de cima
Que o tijolo despenque girando
Que o português continue coçando
Que o tijolo continue girando
Que o português coce mais um cadinho
Que o tijolo gire mais rápido
Que o português quebre a cabeça bem no meio com o tijolo da reforma



Mais sobre a autora, acesse:
http://karlajacobina.blogspot.com

estação da luz

(por Karla Jacobina)

Eu seguia na rua, como a uma mulher grávida, sem conseguir olhar os pés. Eu seguia na rua, como a purpurina em um pote aberto, em que o vento da noite passa e te esparrama pelo asfalto. Eu seguia na rua e não seguia mais cega. Eu parei de empurrar o corpo para frente fingindo levá-lo para casa. Eu parei de bussolar os meus pés birutas. Eu parei de escarpaniar, de sapatear e de tamancar Eu simplesmente ouvi o seu "pé-raí!" e parei. Eu grudei toda a carne na parede pixada da estação da luz. Desestiquei os olhos. Abri os pés e andei parada. Eu era a estação da luz a olhar os meus passaligeiros passar por mim.


antes de sair

(por Karla Jacobina)



Eu tomei o último chá no copo de requeijão, antes de sair.
Antes de sair, eu abri a janela que viveu sendo parede.
Eu lavei colheres de plástico, antes de sair.
Antes de sair, eu lavei as mãos de veludo com sabonete de pêssego.
Eu equilibrei água dos olhos, antes de sair.
Antes de sair, eu mudei os livros de lugar na estante torta.
Eu li as linhas das folhas da planta, antes de sair.
Antes de sair, abraços ternos dos ternos de risca de giz.
Eu engoli a seco, caroço de ameixa, antes de sair.
Antes de sair, eu vivi o segundo dia como se fosse o segundoe o último dia como se fosse o último.
Eu andei pelo corredor de portas, escolhi a que abria a rua e saí.

despedida em negrito

(por Karla Jacobina)


Depois que nossas mãos se desgrudaram nos degraus do ônibus, terminei de subi-los com nossos olhos dados. Empurrando uns e outros, parei diante da fresta que zelava por seu rosto. Era um rosto de despedida, com lenços brancos no semblante.
O motorista deu partida. Meu peito minguava enquanto meus olhos cresciam acompanhando seu rosto percorrer as janelas do ônibus e por fim, se pôr na janela mais oriental.
Nós já nos despedimos tantas vezes e ainda assim, a cada chacoalhar de mão por detrás do vidro, sentia o meu sangue coalhar e azedar o gosto da despedida.
Sentada com a mochila no colo e os fones no ouvido, ouvia uma de suas canções favoritas que se pergunta tanto e a todo tempo, que chega a perguntar até no nome "Por que te vas?". Eu sabia porque ia, só não entendia porque ia tanto. O azedume da despdedia não era meu sabor predileto, mas me alimentava, ainda que de uma forma estranha.
Lágrimas de cândida desbotavam os meus olhos. Descoloridos, se tornaram incapazes de reconhecer minha rua. A linha de chegada, a do Equador, a de partida, eu não enxergava. Eu não via mais os lenços brancos, nem a saudade atrás da foto três por quatro. O negrito doído da palavra despedida, a cândida havia apagado.

terminal

(Por Karla Jacobina)



O terminal é sempre igual
passa um monte de gente
diferente

ANTES DO PRIMEIRO SUTIÃ


Nasci mulher e meu pai caiu em lágrimas. Primeira filha mulher e última tentativa: também. Sempre disse satisfeito com a preferência da cegonha, no entanto, ganhei uma camisa do seu time antes do primeiro sutiã.

Sem time, menor de idade, mas com uma camisa oficial, troquei os episódios da Barbie pelas transmissões do Brasileirão.

Aprendi a colocar os pulmões pra fora todas as vezes que a camisa igual a minha marcava gol.

Na verdade, eu não vestia a camisa do time com a camisa igual a minha. Eu vestia a camisa do homem que me deu braços para vestir a camisa que eu ganharia logo na seqüência.

A vida mudou de campo, a camisa furou no sovaco e meu pai foi morar mais distante do que um tiro de meta.

Sem time e maior de idade, cabe no meu peito a camisa de todas as torcidas com camisa do mundo. E um pacaembú de saudades do meu pai.

coração de pastel















Ele é um pastel
de cebola
só sabe fazer chorar
meu coração de queijo


(Karla Jacobina)

humor e pastéis















(Karla Jacobina)

Pastel de carne
menstruada

de queijo
barraca duvidosa

Especial
olho guloso

Berinjela com queijo
venenosa

Palmito
furando a dieta

Escarola
furando de novo

Camarão
me dá alergia

Bacalhau
saudades do mar

no brinde
ganho o dia

torre de pastel

(Karla Jacobina)



1 Em toda a Terra, havia somente o pastel de carne, em que se empregava acém passado e moído no recheio. 2 Emigrando do Oriente (por óbvio não poderia faltar japonês na história)... Emigrando do Oriente (quem nasceu primeiro o japa ou o pastel?)... Emigrando do Oriente (o pastel, senão o japonês teria cara de que?)... Emigrando do Oriente (e prendendo todos os devaneios entre parênteses)... Agora vai... Emigrando do Oriente os pasteleiros encontraram uma planície na terra de Sampa e nela se fixaram. 3 Disseram uns para os outros: "Arigatô, konetioá, pastel de carne." Ou seja: Já que estamos perdidos, desvalidos e sentados na pica do paulista, só nos sobra beber. Após encherem a cara de garapa, um japa fez a outra coisa que japa faz além de pastel: “Japonês teve idéia! Japonês teve idéia! Japonês constrói porto seguro de pastel!”. Por óbvio não podia faltar pastel na idéia do japa. Utilizaram os pastéis em vez da pedra, e a garapa serviu-lhes de argamassa. 4 Depois disseram: “Japonês constrói torre comprida, comprida, comprida, de cimo pra lá do céu, assim, nem japonês nem pastel fica perdido em pica de paulista né?”. Não se tratava da construção do Banespa, tampouco da galeria Pajé, era a Torre de Pastel ficando em pé. 5 O SENHOR, porém, desceu, a fim de conhecer a torre, a pica e pedir um pastel pra viagem. 6 E o SENHOR disse: "Eles produzem apenas um sabor de pastel e bebem apenas garapa de garapa. 7 Vamos, pois, descer e confundir seus paladares, de forma que não consigam mais encontrar satisfação no pastel de carne nem na garapa de garapa. Em seguida, vamos dispersá-los por toda superfície da pica do paulista." 8 Então, o SENHOR apresentou-lhes o queijo, a calabresa, o bacalhau e o bacalhau com calabresa e queijo. Mas antes de dispersar os japas dali, pediu um especial com o mundo dentro e uma garapa de abacaxi.

coração de leão



(por Karla Jacobina)

Todo leonino é carente e todo paulistano finge que não. Os paulistanos escondem a carência por detrás da volumosa juba de orgulho. Atacam, rugem, correm, plantam bananeira, afogam a bananeira, dão nó bananeira, tudo para esconder seus coraçõezinhos de carne, sangue e solidão.
Os reis da selva de pedra, possuem hábitos insones e durante o dia tendem a devorar sua caça numa mesa individual de um fast food. São velozes no trânsito e nas calçadas, usam sapatos de marca e garras na língua. Quando chega a noite, esses reis tendem a se sentir exaustos e mais exaustos ainda em imaginar o longo caminho até seus abrigos. Eles estão, em média, há duas horas e meia, sem trânsito, de seu local de repouso.
A volta para casa é feroz. Após um longo dia de engarrafamento mental, os leões se engarrafam nas ruas. Os leões bem-sucedidos mantêm-se isolados em seus territórios quatro portas, enquanto os leões não tão bem-sucedidos-assim, sobem uns nos outros para dar espaço a mais um conterrâneo no busão.
Como diz a lenda, os leões têm corações imensos e generosos. A lenda só não conta que tal coração se esconde bem no fundo de uma jaula escura. Assim, não compreendem tal destamanho, enquanto não se relacionam com outros corações de leão. No busão, os leões não tão bem-sucedidos-assim têm a oportunidade de explorar terras cardíacas, até então desconhecidas. No amontoado de feras e ferros, os leões se socializam. Como gostam de estar em bando, mas negam que isso seja uma necessidade, o ônibus é um excelente pretexto para tratar a carência crônica leo-paulistana. Esfregam os pêlos de linho uns nos outros, compartilham seus cansaços nas poltronas, trocam maus hálitos e reclamando do motorista e das obras na avenida Santo Amaro, crescem seus corações.
Ao descer no ponto final o leão descobre que seu coração é do tamanho do espaço percorrido entre um leão e outro. Já perto do abrigo, o rei da selva de pedra colhe ramos de humildade no asfalto. Todo leonino é carente e todo paulistano tem coração.