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Lixo/Poesia - o que é rio? o que é peixe?


Cardume
ROGERIO SANTOS

cato cacos de poesia
como quem garimpa
palavras perdidas
num dicionário da vida

acaso forro aflore
na Ilha das Flores
um eu expectador
personagem ou diretor

invoco terços vocábulos
verso tríade incesto
os Zés e meus eus
entre pilhas de dejeto

masco nós e cós e cuspo
como pet e pão e domo
minha terra prometida
meu maná estilhaçado

devoro por essa vida
tanto tudo todo todo
remo e rede e barco
e esse peixe multiplicado

que todo peixe é palavra
um feixe no xis da questão
aquele que nada e se cala
é peixe de um novo Sião

Poesia Urbana , Crônicas Paulistanas

Aproveitando a deixa do meu "conterrâneo" Paulo D'áuria, apresento 3 textos autorais dentro do mesmo tema.
Leituras poéticas de fragmentos da nossa cidade.

Hipotenusa


(tirada da janela de casa)

lanço um olhar retilíneo sobre o horizonte de casas um quadro de altivez financiada num prédio de periferia estou acima não se constata outra coisa canta um cego rabequeiro “o sertão já virou mar” e sou deus e sou nenhum contemplo as luzes paulistanas imagino confins pontilhados na loucura surreal densidade demográfica um ponto nas reticências nas entrelinhas da frase que não se acaba em Penha-Lapa parágrafo e letra maiúscula mas deixa perguntas no ar muito mais que nono andar nego cio na solidão no pensamento negocio em linha reta sobre vidas e vigas no céu da terra prometida

Rodossentimento



coração pneu de carro
desvia dos sobressaltos
resiste derrapa na curva
machuca se cai no buraco
altivo se roda alinhado
é rei conduzindo vassalo
até que a morte os separe
até que termine furado

Blade Runner da Silva



na noite

da minha cidade

não há estrelas

desaba chuva

de propaganda

enganosa


out-doors

são máquinas

de lavar dinheiro

ditando o foco

da sociedade

cadente


resta na lua fosca

coadjuvante colírio

nos olhos

bombardeados

por implacáveis

luzes


olhos-de-gato

são reticências

pelas ruas

direcionando

o modo de vida

embalado para viagem


Ideias ?

Sorry, mestres...
Sou teimoso
e incorrigível
com minhas
idéias

feira livre

(Rogerio Santos)



nas cores da feira
a vida encandeia
no verde abacate
limão espinafre
amarelo mamão
lima-da-pérsia
vermelho tomate
caqui coração

amoraconchegante
olhar jabuticaba
tão denso de sonho
azulado sorriso
a morar indeciso
no papel da maça

pastel e garapa
entoam cântico:
tchiiiiiiiiiiiiiiiii
tátátátátátátá


sinfônico desejo
ter a fome saciada
por meio arco-íris

Circular Avenidas



(Rogerio Santos)

a patroa
chamou minha sogra
pro jantar
(de novo?)

a inxirida da véia
tratou de pentelhar
(telefone à cobrar)

- imprestável !...
...qual ônibus
tenho que tomar?
(eu mudei de barraco)

naquele instante
foi quando a idéia me ocorreu:
(hoje eu vou me livrar)

- pega o Avenidas
e vai até o ponto final
(acho que vai demorar)

já vão três dias
e ninguém mais ousa perguntar
(acertei no milhar!)

a jararaca,
virou balaústre do busão
(ligação à cobrar...)

no banco dos bôbos
que nem um boneco "michelin"
(ligação à cobrar!)

- caiu meus dentes
mas não há um meio
de chegar...
(quáquáráquáquáquá)

toma uma sopa
e espera chegar
o ponto final
(ou desce no Araça!)

eu agradeço
em preces a CMTC
(Deus há de abençoar)

pelo Avenidas
que fez minha sogra
circular