em branco

1º de Maio - Poesia Na Faixa


Dia 1º de Maio os Poetas do Tietê foram às ruas de Sampa aprontar mais um Poesia na Faixa!
E contamos com as presenças especias de Daniel Minchoni, Elide Nascimento, Érica Kamura, Cissa Lourenço e Bispoeta reforçando o time.
O resultado você confere aqui: 

Maria Antonia

Sábado, 09/02/13, nossa Papoetaria aconteceu no histórico edifício da USP da Rua Maria Antonia. Lá visitamos as exposições "Ensaio sobre o liso e o estriado" de Hector Zamora, "Primeiras estórias" de Gilvan Samico, "Coisa superfície" de Paulo Monteiro, e "Zona detenção" de Eduardo Verderame.

Zona Detenção

Coisa Superfície

Primeiras Estórias


Ensaio Sobre o Liso e o Estriado

Ensaio Sobre o Liso e o Estriado


Balança, Mamãe
Carolina Hermanas

Balança mamãe,
Balança,
Henrique diz numa voz enjoada
De gente rica.
Balançar o quê?
A sua mamadeira
Ou o dinheiro guardado
Na sua poupança?
Vida balançada,
Trapaceada por nojentos
Carnívoros degustadores de grama verde,
Cheio de valores reais ou seriam Carnavais?
Então, não seria um valor real. Talvez desleal.
No meio do fogo,
As crianças ressurgem
Como cinzas
E balançam seus sonhos, ou seriam esperanças?
"Balança mamãe"
Um deles fala e a voz some no fogo,
Da mesma forma que aparece.
Acidente.
Sonhos são trombadas contra o concreto.
Balança estreita entre razão e coração.
Às vezes, a grama verde é mais bonita,
Mas o que mesmo é um coração partido?


Ex-Posição
Caranguejúnior

O desenho talhado
Na madeira, renasce
Na gravura, a face
De um povo marcado
Do sertão esquecido
O sofrimento estampado
Uma mistura de liso
Ondulado, crespo, estriado
Uma zona dentenção
Um olhar, uma vitória
Ideias em exposição
Pedaços, primeiras estórias

Paulo D'Auria
I
Já se viu isto?
O povo liso
dorme no estrado estriado!
Dorme no estrado estriado
e vai pelo vão...
O povo tá tão liso
que não tem dinheiro
nem pro colchão!

II
nos fios
dos varais vazio
ais
secando ao vento

III
Meu apartamento tem
área de serviço,
desço o varal de teto,
penduro minhas roupas,
fecho os olhos
e finjo
que lá em cima
é o sol.

IV
VaralViral


V
As gravuras de Xilo expostas no cordel:
"quadrinhos da infância do menino".
As gravuras de Xilo
expostas no cordão
do céu.


CARDÍACOTIDIANO (DIAGNÓSTICO PAULISTANO)

 
 
São Paulo é o corAção do Brasil
É o trabaLho,
O oficio dos ossos
Sem parar
Bilhete único
É coletivo
SinGular
São PaUlo é de pirar
O caos ótico de seus vergalhões
Caótico de suas direções ->
Metros e metros de metrô
Pneus, pinel, arranha céus
ColunA - bate estaca
Coluna - bate estaca
Vidas sobre vigas
Idas e vindas
Só se ver COrreria
Veja a cor, e rIa!
É plural
É de pular
São Paulo é o coração do Brasil
RuAs e viadutos
Adultos e velhos
Madalenas, Marianas, Augustas ao gosto
Cardápios, larápios
TrOmbadinhas, tromba d’águas
Vielas, vias e veias
Assaltos, asfaltos, coNcretos
É surreal, é marginal
Da periferia periferida
Aos edifícios da Paulista
São Paulo é pizza
A massa passa e vem e vai e ferve...
São Paulo é o coração do Brasil
ATEmporal garôa, é de boa!
É nóis! é voz... são eles
É rifle, é grife, é grave
É tarja preta, é trêta!
Perfeita, Com vários defeitos
Prefeitos, verEadores e dores
São Paulo é cinza, em cores
Tudo é caro, tudo é barato
Prato feito, prato farto
São Paulo meu coração
São Paulo meu infarto!
 
 
 
Caranguejunior

Seu Raimundo



Na Papoetaria deste sábado, André Dia(s/z)? nos apresentou a história de "Seu Raimundo" ou Raimundo Arruda Sobrinho, ou simplesmente "Condicionado", um poeta que viveu por 20 anos nas ruas de São Paulo, mais especificamente no canteiro central da Av. Pedroso de Morais, no bairro de Pinheiros. Mas que graças ao esforço da publicitária Shalla Monteiro foi encaminhado para tratamento médico e psicológico e hoje vive com sua família em Goiás.
Para ler a história completa de Raimundo, clique "aqui"
Para visitar a página de Seu Raimundo no FaceBook, clique "aqui"

CURA
André Dia(s/z)?

O poeta está condicionado
a se sentir um eterno deslocado,
Sua alma é uma ave selvagem
agitando-se na gaiola
que é seu corpo, sua vida,
o mundo que o cerca.
Então voa nos versos,
Cada letra de poema
é uma pena na plumagem colorida
de sua fuga de um mundo cinza,
E o que este mundo vê como loucura
o poeta vê como antídoto:
Para esta doença que é o mundo,
A poesia nada mais é que a cura.


SEM LIMITES
Marcelo Tadeu

Por trás de tudo
Da minha loucura
Do meu estado mental
Quem dera
Existe um poeta
E transforma em versos
No momento
Todo meu sofrimento
E as palavras não têm limite
A poesia não tem limite
Minha loucura não tem limite
Mesmo após a morte
Tudo estará no papel





Caranguejúnior

O nome dele é Raimundo
Morador das ruas do mundo
Vive sob um teto de estrelas
Dorme num colchão de papelão
Onde se mantém atualizado
Lendo as notícias de seu cobertor
Dor...
É invisível aos olhos
Da humana humanidade
Dizem que é louco
Um perdido na vida,
Na verdade é apenas
Mais um Filho da Pátria
Um poeta
Ou um ser
De outro poema.



RAIMUNDO
Paulo D'Auria

No CAPS cabe um apê pra ele?
- no CAPS você vai saber dele,
  mas ele vai saber de você?
  Vai saber dele mesmo?

Raimundo a esmo no mundo
na brasa da praça
na rua do centro
da lua
é louco da silva
mas é artista
e voa

Raimundo não tem casa
mas eu lhe pergunto:
No CAPS tem asa?

Ele se chama Raimundo
procura, procura cura
procura rimas
e não encontra
solução

Quo Vadis

Grafite do coletivo São Mateus em Movimento,
na comunidade Vila Flávia, S.P.


Que honra! Os Poetas do Tietê têm o prazer de publicar um poema inédito do poeta e agitador cultural, grande figura da cena poética paulistana e um dos responsáveis por sua atual efervescência como co-fundador da Cooperifa, responsável pelo Sarau A Plenos Pulmões na Casa das Rosas, e pelo sarau mais intimista e exclusivo da cidade, o I Love Laje, Marco Pezão:

Quo vadis

Eu não quero ver
Barricada na calçada
Nem polícia vigiando
Pensamento lá em casa

Eu não quero ter
O meu sono assaltado
E dos filhos, a vida
O sonho ceifado

Trabalha, trabalha, trabalhador
Trabalha, trabalha, trabalha a dor

Crucificada Atenas
Entrincheirado no sofá
Sou réu na tela
Violência maior já é
Ter que morar numa favela

Trabalha, trabalha, trabalhador
Trabalha, trabalha, trabalha a dor

Afiada régua
Quem paga a conta pede trégua
Quo vadis, da gota o extremo 
A guerra urbana emana 
Dos palácios de governo

Trabalha, trabalha, trabalhador
Trabalha, trabalha, trabalha a dor...

Man or Superman?

Na Papoetaria deste sábado, 17/11, André Dia(s/z) propôs o tema da "consciência dos super-heróis", apresentando-nos um painel abrangente sobre o assunto, desde Marshal Law, personagem criado em 1987 por Pat Mills e Kevin O'Oneill, que é um caçador de super-heróis que saem da linha, até a teoria do Super-Homem de Nietzsche.




"Grandes poderes trazem grandes responsabilidades" - Dito popular norte-americano eternizado como o lema de o Homem Aranha de Stan Lee.

"Zaratustra é sim um Cristo da elite, pois Nietzsche escreveu o evangelho do super-homem - o que anuncia um novo tempo, uma era em que Deus morreu (dass Gott tot ist!), na qual o Homem se apressa para assumir o poder na totalidade, na qual terá que arcar com as conseqüências morais e éticas de um mundo sem Deus." - José Vanir Daniel (http://entendanietzsche.blogspot.com.br/).

Constatado o fato de que alguém que tivesse super-poderes teria de ter também uma super-consciência, todos tivemos de escrever um texto a partir do título "Se Eu Tivesse Superpoderes"


Se Eu Tivesse Superpoderes

Caranguejúnior

Se eu tivesse poderes
queria ter o superpoder legislativo
implantaria e deferiria as super leis
do País das Maravilhas
onde a lei que domina
é a lei dos mais fortes
ou dos mais ricos

Se eu tivesse poderes
queria ter o superpoder executivo
para ajudar os fracos e oprimidos,
Talvez um Robin Hood
tiraria dos mais ricos
e doaria aos mais pobres
usando a arma caneta
e simples assinatura

Se eu tivesse poderes
queria ter o superpoder judiciário
para condenar e prender os foras-da-lei
e aqueles que parecem dentro da lei,
Com superpoder de investigar e argumentar
não teria revisor que me parasse,
andaria por aí de capa preta
e meu nome talvez fosse
Joaquim Barbosa Man


André Dia(s/z)?

Se eu tivesse superpoderes
mandaria às favas, mandaria se foder
quem me impusesse deveres.

Se eu tivesse uma superforça
arrebentaria os muros de meu caminho
me sentiria livre pra andar sem roupa.

Se eu pudesse ficar invisível
espiaria a vida alheia
dormiria com mulheres casadas, pois seria possível.

E, por fim, se eu pudesse voar
como o Doutor Manhattan do Watchmen
ia pra Marte e mandaria todo mundo se danar!


Marcelo Tadeu

Se eu tivesse superpoderes
Mostraria ao mundo toda a minha beleza
Destruiria quem de mim duvidasse
A quem me desafiasse
Seria o melhor dos melhores
Seria o maior dos maiores
Teria o respeito de todos
E sentiria orgulho de escutar
Todos gritando meu nome


Paulo D'Auria

Feito um dia qualquer, amanheci, bebi meu achocolatado com biscoitos vitaminados, meu corn-flakes com yogurte de lactobacilos vivos e fui trabalhar.

Feito um dia qualquer, fui esperar o trem. Foi quando comecei a notar que algo estava errado: Ao disputar minha vaga no tapa pra passar pela porta, derrubei uns dois neguinhos nos trilhos. Depois, assustado, fiquei miudinho, espremidinho em meu lugar marcado.
Feito um dia qualquer, mal grunhi meus bons-dias na empresa, meu chefe descarregou sua pilha de problemas em minha mesa. Feito um dia qualquer, fitei-o profundamente e desejei-lhe em silêncio o que sempre lhe desejo. Mas aí comecei a notar que algo estava errado: Sua cabeça explodiu em pedaços.
Chegou polícia, televisão, jornalista e toda espécie de curioso tentando entender o que havia acontecido. Prestei depoimento. Depois, assustado, fiquei miudinho, em meu lugar calado.
Não sei se foi o achocolatado ou o corn-flakes, os biscoitos ou os lactobacilos, só sei que tem sido assim desde então. Virei chefe, só ando de carrão, tô ganhando uma grana preta com meus misteriosos poderes.
Hoje topei com o pai-de-santo lá do meu terreiro, que me perguntou por onde tenho andando, que nunca mais apareci e essas coisas todas. Foi quando notei que algo havia dado errado: Deus morrera dentro de mim.

Gonzagão - Cultura Pra Pular Brasileira


100 anos de nascimento de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Gonzagão, Rei do Baião!

Gonzagão Is Rock'n'Roll!
André Dia (s/z)?

Lembro de quando era pequeno
me refugiei no rock'n'roll
para destilar meu veneno
contra este mundo ruim, onde ainda estou

Não tinha ideia clara sobre Deus
mas devia ter relação com a guitarra
e os cabeludos que a masturbavam com os dedos seus,
Ah, meu irmão, que farra!

Um dia me chamou a atenção
um senhor com sua sanfona,
Chamavam-no de Gonzagão
E o velho preconceito me abandona!

Não é preciso ser cabeludo
e ter uma guitarra na mão
para quebrar com tudo
e deixar nego com o queixo no chão!

Forró, baião ou xote,
Ele mesmo não gostava de se rotular
mas pra mim o véio vai ser sempre rock,
Aquilo era Deus a se manifestar

Podólatra, poeta, artista,
Eu mesmo não sei o que sou
Mas antes que algum fio de rapariga me contradiga,
Repito: Gonzagão Is Rock'n'Roll!

Rei do Baião
Marcelo Tadeu

Não estou louco
Eu vi nas estrelas
Um Acordeão
E uma voz que ecoava
Como uma grande festa
Para aqueles que ainda se vão
Uma grata surpresa
No céu tem baião



Toca Gonzaga
Caranguejúnior

Gonzagão é ritmo
Rítmico é rima
É bode cabra
Da peste
De leste a oeste
De norte a Exu
Gonzagão é cool
É raga movie

É xote, baião de dois de três
Arretado, passos marcados
É maraca (tu e eu) no embalo
Forró que até se dança só
[Acompanhado é mais mió]

Gonzagão é funk de embolada
É repente de repente
É cultura pra pular brasileira
Da terra é dos seres tão
Do sertão à capitá
Gonzagão lá está

Gonzagão é samba
É bamba
Partido alto
Oxente!
Partiu pro alto
Foi pro céu
Mas ainda toca
Na radiola da alma
De muita gente...

Luiz Gonzaga Exu de Nascimento
Paulo D'Auria

Nascido em Exu, tinha que ser cabra macho
Nascido em Exu, tinha que ser mensageiro
Tinha que escrever o prefácio
O rascunho primeiro do coração brasileiro

Luiz Gonzaga do Nascimento
Luz, Lua, Sol e Vento
O soprador dos quatro elementos
No fole do coração brasileiro

Nascido em Exu, tinha que ser Rei
Rei do baião e do maracatu
Rei de todos nós, de eu e de tu
Rei do sertão, de Pernambuco, do céu e do mar azul

Luiz Gonzaga do Nascimento
Quando a luz de tua canções
Se espalhar nos corações
Eu te asseguro, não chore não, viu
Nasceu contigo o novo Brasil.



Maracatu
Caranguejúnior, Hermanas, D'Auria, Dia (s/z)?

Mara, cá tu vai o meu sol alevantar
Tu é tudo que eu sempre quis
Tu vai pôr a minha lua pra deitar
Mara, cá tu vai ser bem feliz
Mara, cá tu vai ser meu bem querer
Mara, cá só falta você

Mara, cá tu e eu viveremos na paz
No dia claro ou na noite em breu
Escutando forró, blues e jazz
Mara, cá tu vem dançar mais eu
Mara, cá tu e eu vamos embolar
Mara, cá tu vai me maracatucar

Mara, cá tu tirar minha sandália
colada no pé de tanto andar no sertão,
Mara, cá tu já me botou tanta gaia
Que a cabeça pesa a olhar pelo chão!

Mara, cá tu e eu vamos escrever uma canção
Mara, cá tu é a dona do meu coração
Mara, cá tu deixa eu te dizer um segredo
Mara, cá tu, é tudo o quê eu desejo
Mar, mar, mar, cá tu vamos batucar
Mar, mar, mar, cá tu vamos maracatucar


God Save The Hebe!

God Save The Hebe!
que já se encontra lá no céu
que reinou sobre a televisiva plebe
Agora, de nuvens veste o véu!


God Save The Hebe!
espalha sua simpatia entre os anjos,
que juntam as mãozinhas numa prece,
saudade da rainha em todos os cantos!


Na corrida para o xixizinho
no intervalo comercial,
voltávamos para ver o selinho
naquele convidado especial!


Perdoem se sou tão brega
ao exaltar a grande diva da telinha,
Como agradecer o leitor do poema, que se encerra?
Muito obrigado...Gracinha!

Poesia é Freud!

Os Poetas do Tietê se encontraram para tentar explicar em versos o que Freud já tentou explicar:



"Vimos que uma metade da atividade mental humana dedica-se ao domínio do mundo exterior real. A isso acrescenta a psicanálise que outra parte, singularmente estimada, da criação psíquica se consagra ao cumprimento de desejos, à satisfação substitutiva daqueles desejos reprimidos que desde a idade infantil vivem insatisfeitos na alma de cada um. A essas criações, cuja conexão com um inconsciente inapreensível foi sempre suspeitada, pertencem os mitos, a poesia e a arte, e o trabalho dos psicanalistas lançou realmente viva luz sobre os domínios da mitologia, da literatura e da psicologia do artista. Foi demonstrado que os mitos e as fábulas são, como os sonhos, suscetíveis de interpretação, foram seguidos os intricados caminhos que conduzem do impulso do desejo inconsciente até a realização na obra de arte, aprendeu-se a compreender a ação afetiva da obra de arte sobre o indivíduo receptivo, explicou-se afinidade interior do artista com o neurótico, e suas diferenças, e mostrou-se a relação entre sua disposição, suas vivências casuais e sua obra. A avaliação das qualidades artísticas são problemas estranhos à psicanálise. Parece, contudo, que a psicanálise está em situação de dizer a palavra decisiva em todos os problemas relativos à vida imaginativa do homem."  Sigmund Freud


A Mente do Artista
Marcelo Tadeu

Não tente acompanhar
Não tente segui-los
Meus pensamentos viajam por planetas
Passam pelas estrelas
até voltarem
e escreverem
todos os poemas



A Cabeça do Poeta
André Dia(s,z)?

Na cabeça do poeta
existem várias ruas
por onde circulam
sonhos, medos e fantasias
na cabeça do poeta
nada é impossível,
milagres surgem dependurados
da grande àrvore-alma
como tangerinas cheias de suco,
Ás vezes, doce quando é alegria,
Às vezes, azedo quando é decepção,
Mas sempre um fruto nobre,
Desses que se reparte,
Fruto jamais perecível,
E o seu nome é arte.

O Que é Poesia?



Marcelo Tadeu Costa e André Dia(s,z)? após a leitura de trechos do livro "O Que É Poesia", de Fernando Paixão, deram sua visão a respeito desse assunto:


Marcelo Tadeu:

Poesia

Que palavras são essas
Ditas de uma maneira tão diferente
Que encantam a gente
Capazes de mudar o mundo
Capazes de mudar a vida
e quem duvida
Que elas tenham tanta força
Apenas ouça
Apenas ouça



André Dia(s,z)?:

Por Trás da Moldura

Poesia é a musica
cuja lingua estrangeira
destoa do burburinho infernal
dessa máquina cotidiana
desse trator que passa por cima
de sonhos ainda não germinados

Poesia é o vislumbrar
da graciosidade da fêmea
em meio à truculência do macho,

Poesia é um pingo de "sim"
num oceano de "nãos"
Um grão de sorriso
num deserto de caretas raivosas,

Poesia é não se contentar
em apenas apreciar o quadro
mas ter a curiosidade
de ver o que existe por trár da moldura."

FILE - Os Poemas

Os Poetas do Tietê visitaram a FILE 2012 - Festival Internacional de Linguagem Eletrônica
Confiram aqui o resultado poético desta visita:

Marcelo tadeu

Impressionante
Tudo se torna mais fácil
Simplifica meu dia a dia
Parece feitiçaria
Esta tal tecnologia




Bebê Virtual
Carolina Hermanas

Amores se conectam,
Emotions transbordam emoções,
Abreviações se interligam de alguma maneira
Cibernética e romântica.

Flores ao vento,
Que cartas são essas?
Não existem cartas.
Apenas palavras pequenas,
Apenas um monitor
Quente e...Sem amor.

Dias, horas, anos
Conversando com alguém
Praticamente invisível.
Com alguém sem olhos,
Sem vida,
Sem palavras amorosas. Reais.

Mantêm contato
Diariamente.
Mantêm uma imagem
Perfeita na sua mente.
Que mundo é esse?

Palavras pornográficas,
Insinuações claras.
Posições inventadas.
Será que estamos fazendo amor?
Virtualmente?

Alguns meses,
E um grito ecoa do outro lado.
Da tela do computador.
Sorrio - e pela webcam você também -
E dissemos:
- Nasceu. O nosso bebê virtual. É um IPAD.


CONTO TAMBORETE DE ZONA (INTERNET)
Caranguejúnior

JORNAL DOS ÚLTIMOS TEMPOS
21/01/2016

EXTRA!!! EXTRA!!!
O primeiro bebê que foi fecundado  pela internet, NASCEU!!!
Os pais se conheceram, namoraram, casaram-se e mantiveram relação interneticamente sexual com penetração via cabo USB, a mãe engravidou via placa mãe e a "criança" nasceu!!
Tudo pela internet...
A "criança" se chama Tamagochi, pesa 4GB, processador Dual core 3.0, GHz, MB L2 cache, 800 MHz FSB, Pentium 7, com câmera embutida no cu!
Os médicos se assustaram com as primeiras palavras proferidas pela "criança" que foram...
"Google dádá!! Google dádá!!"
Os pais estão muito felizes disseram que vai ser duro a manutenção da criança, devido o alto custo da assinatura de banda larga, mas, estão conscientes que geraram um bom lucro, e já abriram páginas na internet para o bebê, que por sinal estão bombando no Facebook, Twitter, Orkut, Picasa, Picasso, Davinci, Aleijadinho, flickr, florck, flurck, Youtube, Youtoba e outros caralhos internéticos...


Tecnicamente Inviável

Paulo D'Auria

O admirável ovo da tecnologia
Já nasce frito
E mamífero

O admirável gado da tecnologia
Já nasce temperado
E com lugar marcado

O admirável olho da tecnologia
É de Crystal Liquid Gel
Falso brilhante de grafite
E cego

X
Paulo D'Auria


Falsificando Nelson Rodrigues

Fotografia: Pierre Verger
 "Para os meus três anos, o mar, antes de ser paisagem, foi cheiro. Não era concha, nem espuma. Cheiro. Meu pai, antes de ser figura, gesto, bengala ou pura palavra, também foi cheiro. Ninguém tinha nome na minha primeira infância. A estrela-do-mar não se chamava estrela, nem o mar era mar. Só quando cheguei ao Rio, em 1916, é que tudo deixou de ser maravilhosamente anônimo." Nelson Rodrigues


Carolina Hermanas

Antes de ser mar, antes de ser água, também fui cheiro. Antes de ser escritor, aspirante a fumante, também fui cheiro. Antes de ser criança e espectador, também fui cheiro. Mas quando fui jornalista,assim como meu pai, cronista e dramaturgo, virei pó.
Antes de não ter pai, fui pó. Antes de não conhecer a repugnância democrática, fui pó Mas antes mesmo de ser quem eu não achava quem era, fui vento. Fui cheiro de vento.



Fotografia Pierre Verger
"Também me vejo na calçada da rua Alegre. Os mesmos seis anos. Sou pequenino e cabeçudo como um anão de Velasquez. E me fascinava ir de uma esquina a outra esquina, sempre pelo meio-fio. Eu me equilibrava, no meio-fio, como se este fosse fino e vibrante como um arame." Nelson Rodrigues


Paulo D'Auria

Nelson veio do mar. Ostra que onda largou na areia e, aos humores do sol submetida, partiu. Da concha quebrada pulou o menino-homem que trazia na boca o afogamento do mar. Por isso Nelson não ria. E não viria a rir nem quando o homem pulou, quebrado o vaso-menino num ricochete adúltero de tiro, do útero-mundo.
Nelson veio do mar. Espécime não classificado de anjo caído entregue à areia de Copacabana por Ogum. Na boca o afogamento germinal de todos os homens, guelras nos olhos, adaptou-se a esse não-respirar não precisando olhar no fundo dos olhos dos homens para desvendar sua alma, conhecia a sujeira do mar. A sujeira do mar profundo.
E no assombro do afogamento da vida, Nelson sem querer enganou a morte. Morreram Roberto, Mário, Joffre, Paulo. A tragédia era a sua casa, viera ao mundo numa manhã de ressaca: a ele bastava voltar para o mar.
Nelson veio do mar e no mar agora respira a fumaça de um milhão de cigarros ordinários que lhe traz Exu, seu revisor e amigo, com quem trava longas discussões morais. Dissolve as bitucas na translucidez do mar profundo fazendo papel para o jornal do dia. Não precisa mais de escafandros, está em seu ambiente inatural. A sujeira da humanidade boia dois círculos acima. Ri gargalhadas, faz sexo com amor e cata na máquina os grãos do editorial do amanhã.




Fotografia Pierre Verger
 "O brasileiro tem tão formidável potencial de fé que pode aplicá-lo por toda parte. E, súbito, nos tiram a vida eterna. Não há mais sobrenatural, não há mais nada. Estamos reduzidos aos quinze minutos da vida terrena. Vamos e venhamos: esse quarto de hora não basta para a nossa fome. Sem a sua eternidade, o brasileiro anda por aí, errante e desgraçado." - Nelson Rodrigues


Marcelo Tadeu

Na complexidade da vida
Onde é tão difícil perceber
Acredite se quiser
Ele escreveu
A vida como ela é

Navegação de Cabotagem - Conhecendo Jorge Amado

Os poetas do Tietê visitam a exposição em homenagem a Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa


Seu Jorge Modernista
Fernanda Migliore
Desenho: Fernanda Migliore
Cheiro de peixe maresia nordeste
ar-condicionado, Jorge-Amado
Jorges coloridos arrepio sagrado
teclas política exílios pensamentos
teclas livre - crente - mente mente
Jorge museu globo livro em tela
E eu inocente, sempre Gabriela.


Embriaguez
Paulo D'Auria
Imagem: Exposição sobre Jorge Amado no
Museu da Língua Portuguesa
Não conheci Jorge Amado quando pisei nas pedras tortas do Pelourinho, quentes ainda da fogueira de 1694 exemplares de suas obras.
Não conheci Jorge Amado quando entrei em sua casa azul-turista, quando dormi no pé da Farol da Barra, quando assisti à novela, quando visitei a Academia Brasileira de Letras.
Não, não conheci Jorge, o Amado em nenhuma dessas ocasiões, de certo que andava ausente, ele ou eu, dos fatos presentes e de menor importância.
Fui conhecer Jorge Amado ontem, uma vela vermelha e outra preta acesas iluminando a encruzilhada e a meia-noite de fria garoa paulistana, quem diria. Veio rindo e abraçado a Prestes, o cavaleiro.
Na hora de falar comigo, Prestes postou-se dois passos atrás de Jorge. Não ria, e seu olhar sisudo, contrastante com o ar bonachão de Jorge, avisava: não era hora de o conhecer.
Jorge agradeceu o charuto e a cachaça, armou uma cara entre a troça e a sabedoria, e disparou: “Deus sorri como um negrinho”.
Paralisado pelo encontro inesperado, fiquei olhando os amigos irem embora cambaleantes. Já iam na outra esquina quando Jorge se volta para trás e grita, “Na próxima entrega traz um licor de violeta pra Zélia!”
Jorge riu, e ainda tive tempo de ver seu riso alvar se desmanchar no ar.

Cama de Pregos

Tela: "Paisagem", de Carlos Zilio, 1974

Fajuto Faquir
Paulo D'Auria

Fosse um faquir
fajuto e roto
com meus duzentos quilos
os pregos não respeitariam minha pele
os pregos não respeitariam minha filosofia
ocidental
baseada em morrer
cedo
e doente
e lentamente

Fosse um faquir
falso
os pregos não respeitariam minha carne
praticando o sangramento
a purificação
feito facas
de um curandeiro turco (fake indiano)
no interior do recôncavo baiano
num romance de Jorge Amado
esfolando
um personagem secundário
e obscuro

Fosse um faquir
vivendo em fausto vazio
os pregos não respeitariam minha alma
surpreendendo-a pelos desvãos do desvio
de meu corpo inchado
e a sacrificariam
num varal de charque
voltado para a Meca

Encosto a cabeça em meu travesseiro de pregos
e durmo meus pesadelos tranquilo
porque é assim
o desassossego
dos justos

Maldita Condição
André Dia(s/z)?

Tentei te amar
num colchão de algodão
e lençóis de paixão
suaves como cetim,
Cama de pregos é o que me resta
refestelado sob pele rasgada
a dor do desprezo me mutila,
Testículos perfurados,
e eu não me movo
consciente que sou merecedor.
Reto e uretra são uma só chaga,
Sangue e dejetos são chorados
pelo olho que é o buraco
que é o meu corpo agora,
Sou um vazio exposto,
exposto aos olhos do mundo,
olhos estes que se fecham
à passsagem do homem-retalho
que um dia ousou
assumir sua maldita condição
de poeta.