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Páscoa-Pesach-Passagem



Travessia
Marcelo Tadeu

Uma passagem
uma passarela
que um dia
mais cedo ou mais tarde
todo homem terá
que atravessar

O medo
o desconhecido de lá
aterroriza a vida
do lado de cá


Um monte páscoal
Paulo D'Auria

Passam as luas, cheias
passa inverno, primavera
passam os anos
uns após outros e outro e outros,
tudo tão lentamente
que me agarro às parede para não cair
tudo tão vertiginosamente
que tenho tempo de repetir e repetir e repetir

Passam os mares vermelhos
os cristos os moiséses
as cruzes

Talvez seja eu
procurando nos lados obscuros
e errados,
perco dias
acumulando-se na poeira
dos anos
e sinto
não ter aprendido nada
nada
nada







Ovos de Saudade
André Dia(s/z)?


Era pequenininho
me mandaram esconder,
pois viria o coelhinho
os ovinhos vinha trazer


- Não é coelhinho,
é alguém fantasiado!
Ouvi dizer meu vizinho,
o estraga prazeres do lado!


E assim, fiquei sabendo
que o coelhinho não existia,
os dedinhos fiquei lambendo,
ovinho melhor, nunca comeria!


Ovos de saudade
que ainda lambo nos dedos,
o doce não se esvaiu com a idade,
e de acabar tenho tanto medo!



Galinha de ouro
Paulo D'Auria


Queria ter essa galinha
que bota ovos de chocolate...
- Que arte!
Seria minha particular
galinha dos ovos de ouro!

pedra fundamental


Em 1928, na Revista de Antropofagia, um poeta até então pouco conhecido publica o poema que ainda hoje é lembrado como o grande divisor de águas da poesia nacional: "No Meio do Caminho", de C. D. de Andrade.
No mês de outubro comemora-se o aniversário de Drummond, e os Poetas do Tietê publicam suas variações sobre o tema "tinha uma pedra no meio do caminho".

NO MEIO DA INFÂNCIA
fernanda migliore

No meio da infância
estava a pedra,
novas matemáticas
outros jogos.

Mestres demais
ou fim da festa?
De repente,
nem dez brigadeiros me bastavam
nenhuma bola me rolava colorida
e os vestidos da menina eram
curtos pra mulher.

De repente - um só jogo:
Pula, pula, pula pedra!

No meio da infância
estava a pedra.
No meio do caminho,
do destino,
rola bola
pula pedra
brinca, brinca de pular.

PEDRAS DE DRUMMOND
marcelo tadeu

Ao Ler o Poema
Fiquei Imaginando
Ao viver, encontrei as pedras
Então, as tirei do meu caminho
E fui embora
Doce Ilusão
Aparecerem pedras novas

NO MEIO
caranguejúnior

I
No meio da pedra
tinha um caminho,
e foi por lá
que passei.

II
No meio da sala
tinha uma TV
e uma criança pálida
perdendo seu tempo

III
No meio da rua
pode-se encontrar
pedra, pó, erva...
e várias pessoas
sem esperança.

IV
No meio das ideias
Tinha um maracatu,
Tinha um maracatu
No meio das ideias
Então, não deu
Pra escrever linhas tortas
Nem pra eu
Nem pra tu
Só o
Ma
Ra
Ca
Tu

V
No meio da selva
havia pedras
Na selva de pedra
haviam meios
E o garoto com seu cachimbo
não encontrou o tal bom começo
Se perdeu entre as pedra.
É o fim.
(no
meio
do
começo
tinha
um
fim)

PÉTREA
paulo d'auria

A pedra de Drummond
é a maior pedra da história da literatura,
dura, dura, tão dura de engolir
aos puristas da alta-cultura

Mas não se faz literatura sem pedras,
não se faz arte sem pedras,
principalmente não se faz artistas sem pedras.
Poeta de flores e amores somente
não é poeta por inteiro.

Subo na careca pétrea de Drummond
e avisto ao longe.
Até onde
vai o caminho
sem fim.
MAR
paulo d'auria
falta um mar mediterrâneo
no meio da minha vida
falta um mar pacífico
no meio da minha tempestade de espírito
falta um mar atlântico
que me leve ao desconhecido

falta um mar
falta um mar
falta um mar
falta eu aprender
a nadar
NO MEIO DO DENTE
andré dia(s/z)?
No meio do dente
tinha um buraco,
Tinha um buraco
no meio do dente,
Tudo culpa da bala toffee
que arrancou a obturação:
Ai! Toffodido! Toffodido!

heterônimos do tietê

Ainda inspirados pela visita à exposição sobre Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, os Poetas do Tietê criaram seus próprios heterônimos:

Maicon da Silva (andré dia(s/z)?) é engraxate, nasceu em 1982 em Capão Redondo. Pegou gosto pela poesia ao encontrar uma antologia de poetas em uma caçamba de construção, juntamente com centenas de livros escolares novinhos em folha, bem próximo a uma escola pública.
Tem o sonho de publicar um livro, mas antes pretende juntar um dinheirinho para poder comprar um terno e gravata, pois percebeu que colegas de profissão que se vestem melhor têm a preferência dos "doutor" na hora da engraxada.

O Pisante do Doutor
Eu engraxo
com gosto,
pois engraxar
é uma arte.
Lambuzo de graxa
o pisante do doutor,
que se acha importante,
me olha todo superior,
mas ele mesmo, coitado,
não sabe dar o brilho
que eu dou
nos sapatos que vão embora
pros lugares onde nunca
poderei entrar.

Eva Ruiz (paulo d'auria) é professora de geografia aposentada da rede pública estadual. Atualmanete ministra oficinas de cordel em bibliotecas municipais. Tem 65 anos, é divorciada, não tem filhos e mora sozinha. Já teve fantasias com suas alunas.

Só, neto
Passam-me as horas do dia
esperando por você,
passam sem nenhuma alegria
molhadas pela chuva fria.

E eu perscrutando os porquês
do amor, do desamor, das idas e vinda (vazias)
da primavera sem bouquets
do cinza no meio da vida

Mas viver não é isso apenas:
enquanto a vida foge,
eu a te escrever poemas?

Ou será mais? se for,
que seja sonho, delírio que me aloje
em tua cama, teus beijos, teu amor!

Seu Joaquim (marcelo tadeu) tem 55 anos e é auxiliar de limpeza.

O faxineiro
Um dia desses
Varrendo a calçada
Parei pra pensar,
Fiquei olhando os carros
As vitrines
As roupa e as pessoas
E observei:
Os meus sonhos para alguns
São tão comuns
Que fiquei assustado
Um pouco tonto e com medo,
Me sentei em uma cadeira
E perguntei ao amigo do lado,
- Será que tudo que passa
pela minha cabeça
é besteira...

José da Silva (caranguejúnior) é guardador de carros - flanelinha -, tem 37 anos e atualmente mora na Rua das Esquinas Quaisquer.

Viagem dos Sonhos
Não peguei o bonde
Que passou em direção à Felicidade
Fiquei aqui
Perdido nesta cidade
Esquecido

Meu trabalho de guardador
Quebra o galho durante o dia
Guardo a dor no coração
Guardá-la eu não queria

Como o pão
Que o diabo amassou
Leio as notícias
Do meu cobertor

Choro sozinho
Rio sozinho
E sozinho vivo
Conversando com a lua
Que me garoa

Esperto fico
Sonho com o dia
Em que o bonde retornará
E eu poderei embarcar
E seguir viagem

Reflexões sobre entrevista de Donizete Galvão

"(...)Vidas acanhadas atrás de janelas / na cidade que não definha nem prospera. / (...) Nunca saí deste círculo de ferro. / Nunca saí dessa Minas que não termina." Trechos de "Ruminações", poema de Donizete Galvão.

Neste sábado na Papoetaria, discutimos uma entrevista do poeta Donizete Galvão concedida a Andréa Catropa para o programa Ondas Literárias.

A partir dessa discussão, vários temas foram sugeridos para o nosso "Poema do Dia", entre eles, "Vida Besta", "A Poesia Como Antídoto da Morte" e o fato da poesia estar fora do mercado, ou seja, "A Poesia Não É Mercadoria".

Abaixo, nossa produção:

Planejamento (vida besta)
Caranguejúnior

Quatro horas da matina
acordar, tomar banho
trocar de roupa e sair

Quatro ônibus
e um trem...

Trabalhar, sufoco
suor na testa
cimento nos olhos

Quatro pessoas
conversa no almoço
Quatro garfadas
e um arroto

Quatro passos
trabalho, sufoco
Suor na testa
cimento nos olhos

Quatro para às seis
final do espediente
quatro pessoas
na parade de ônibus

Quatro ônibus
e um trem...

Quatro passos
para casa
tomar banho
trocar de roupa
e dormir... zzzz

Poesia Antídoto da Morte
Marcelo Tadeu

Sei que um dia
não estarei mais aqui
O meu corpo, minha alma
estarão em outro lugar
que não sei onde é,
Neste momento não quero discutir
sobre este segredo,
Só quero ressaltar
que minha memória
ficará aqui
para sempre

Poesia Não é Mercadoria
André Dia(s/z)?

Fui no mercado,
entre as embalagens
coloridas
não havia poesia,
Falaram que lá
não vende dessas
coisas não.
Chegando em casa
sentei no vaso
e das entranhas
tirei inspiração,
Escrevi versos
que os outros
chamam de merda,
Não sevem para vender
mas me alimentam

Carros de boi, carros de bestas
Paulo D'Auria

não é porque os automóveis não choram como choravam os carros de boi
não é porque a janela se abre para o muro e não para o coreto
não é porque o metrô itaquera anda mais a passo que a carroça de Odualdo
não é por nada
não é por tudo
que a vida besta deixa de girar como vespa
como mosca varejeira depositando seus bernes
na água parada dos cérebros estacionados
a tv ligada a tv desligada
não se passa nada

não é porque eu lembro que era melhor
não é porque anseio será melhor
não é por nada
não é por tudo
que eu vou esquecer
que a roda do mundo deixará de girar
vomitando estações
onde
não quero saltar

ah, o amor!


O amor e o desamor por 4 Poetas do Tietê:
Preconceito
Marcelo Tadeu

Para quem não gosta de escrever sobre amor
Eu vos digo
Não tem como fugir
Ele se veste de várias formas
Se apresenta com várias máscaras
E no seu texto
Ele pode estar lá
Como outra palavra


Meu nome é bonde, perdi o bonde
Paulo D’Auria

passou o bonde
o trem
bala
passou o a
mór
por que não escrevo mais os velhos poemas de amor ou por outra
por que não me apaixono mais
perdia a capa-cidade de amar?
qual o sentido de se doar
em um mundo em que tudo se latro-sina?

e pra não dizer que não falei das flores
do bouquet de 1.000 rosas roubadas
poderia relembrar a primeira namorada mas
perdi o bonde
o trem
bala
perdido (n)a estação
qual poeta de folhetim

e assim sem nem começar
o poema de amor chega
ao fim

O amor
André Dia(s/z)?

O horror
de me prender
nessa cruz,
O amor.
Não! Não mais!
Tirem os pregos
dessas chagas!
Não mais sangue!
Não mais pus!
Não mais lágrimas!
Só o esperma,
o gozo da masturbação!
Santa Punheta
Do Amor-Próprio!

Não era amor, era...
Caranguejunior

Pensei que era
Meu amô
Senti que era
Seu amô

Quando me tocava
E me olhava
Em minha barriga acontecia
Uma revoada de borboletas

Pensei que era amô
Senti que já era!
Quando o médico diagnosticou:
Não era amô querida
Era lombriga...

O amor é foda
Caranguejunior

O amor sou eu
O amor é você
E eu
O amor somos nós
O amor é você perto
Eu longe
E nós juntos na cama
O amor é definitivamente foda
É foda!

coisas que não existem

“ A poesia é uma espécie de aventura para capturar coisas que não existem” Ferreira Gullar

Essa estranha aventura traduzida por 3 Poetas do Tietê:

Visão poética
Marcelo Tadeu

Eu vejo nos olhos
eu vejo nas águas
e vejo no ar.
Não tenho poderes
apenas sou poeta,
não enxergo com olhos,
e tudo o que vejo
escrevo.


O barulho
André Dias(s/z)?

O barulho
que passa,
pego no ar,
barulho das máquinas
dos homens,
barulho-homens-máquinas
me impedem de pensar,
quero rir
quero chorar
quero ir embora
quero almoçar.
Meu corpo se desfaz
em fumaça
misturada
com o barulho no ar,
nada para dizer,
muito para poetar.


Rede de caçar borboletas
Paulo D'Auria

no ar passarinho vento
sinal do celular da televisão via satélite
no ar 15 folhas de outono cheiro de esgoto
azul
e os pensamentos todos do mundo misturados

e o poeta pescando
poeta antena parabólica
poeta com sua rede de caçar
borboletas e furacões

no ar o menino e a pipa
a pipa leva o menino
pela linha que a prende
ao chão
às mãos
do menino que fica
e vai

cataventos birutas barômetros
metereologistas astrônomos astrólogos
o poeta são todos
e não é
nenhum

Visões de Pasárgada

Visões de Pasárgada por 3 Poetas do Tietê :

Todo poeta tem sua Pasárgada
por Paulo D'Auria

Todo poeta tem sua Pasárgada,
algumas têm amigos de verdade
outras têm sol a vontade
mas todas
tem prostitutas bonitas.

A prostituta, essa namorada natural dos poetas
a prostituta, que qualquer um pode ter
mas amar, amá-la, só os poetas sabem:
Amá-la inconsequente, amá-la na bebedeira
amá-la completamente, amá-la num poema;
o poeta, esse marido mítico das prostitutas.

Todo poeta tem sua Pasárgada,
algumas têm praias
outras têm rios
e todos nadam a largas braçadas,
tornam-se atletas, se esquecem de ser poetas!

Glórias, honrarias literárias podem esperar,
que sejam póstumas!
Pra já, - em Pasárgada, São Paulo
Sarajevo, Oslo – o poeta só almeja
o gozo.


Outra Pasárgada
por André Dia(s/z)?

Vim embora
De Pasárgada,
Lá nada encontrei
Que me interessava,
Paraíso de outro
Poeta,
Eu quero meu
Próprio paraíso,
Nada de exercícios
Pois sou preguiçoso
Quero dormir até
Meio dia,
Acordar com alguém
Diferente todo dia,
Lá não existem roupas
A criada se inclina
Com seus peitos grandes
Com meu desjejum,
Diante de minha cama
Há uma fila que não
Termina,
Todos vêm me acariciar
Com as mãos depois com a boca,
Eu sou o mais lindo
O mais desejado
E meu paraíso é ver
A volúpia de cada um
Diante de rei tão adorado!


Terra de Maria
por Marcelo Tadeu

Quando me encontrar no vazio
Quando me encontrar perdido
É pra lá que eu vou
Na Terra de Maria
Tudo faz sentido

Quando não souber quem sou
Quando me sentir ninguém
É pra lá que eu vou
Na Terra de Maria
Eu sou Rei

Sou Egoísta
E o caminho
Não Revelarei
Já que Maria
É só minha.

O Jogo


Três Poetas do Tietê falam sobre a eliminação do Brasil na África do Sul:

O Jogo
por Marcelo Tadeu :

A raiva, o grito, o revide, a violência
Sentimentos de quem já imagina
Que vai perder.
A calma, a paciência, o deboche
Sentimentos de quem já imagina
Que vai vencer

Acabou...

O Jogo
Por André Dia(s/z)?:

Me segurei... Tive vontade de chorar, mas estava cercado de pessoas... Essas pessoas que gritaram, que vibraram enquanto me mantive em silêncio durante os 90 minutos de jogo... E que depois, após a seleção ser desclassificada, só disseram palavrões. Mas eu não disse nada, só segurei a emoção.
Eu... Que não sou nenhum grande fã de futebol... Que realmente não entendo porra nenhuma! Tá certo, eu entendo quando é falta... Quando é gol, só isso.
E também entendo de segurar uma chance de ser feliz, mesmo que por poucos instantes, todo mundo torcendo pro mesmo time, sem rivalidades, todos irmãos vestidos de verde e amarelo... Até o dia seguinte e o sonho acabar...

O Jogo
Por Paulo D’Auria:

Não gosto de botar a culpa pelas derrotas em uma pessoa só. Sei que muita gente vai crucificar o Felipe Melo, muita gente vai meter a boca no Dunga, mas prefiro acreditar que quando um time com 11 jogadores perde, a culpa deve ser dividida por 11.
Aliás, antes de tudo, a culpa é de quem ganhou: a culpa do Brasil perder é da Holanda que ganhou!
Quando botamos a culpa neste ou naquele jogador, estamos egoisticamente desclassificando uma vitória merecida e suada do outro time, como se o nosso time merecesse a vitória de antemão e os outros fizessem apenas figuração.
Mas que o Brasil fez um primeiro tempo arrasador, que parecia que ia ganhar de 3, 4, 5, isso parecia. Mas depois, bastou um golzinho contra, uma jogada de escanteio magnificamente bem ensaiada pela Holanda, e pronto: o Brasil desmoronou.
O país do futebol alegre começou a apelar para a violência, esqueceram que futebol se joga com a bola e queriam jogar só com a chuteira...
Bom, nos vemos em 2014, quando o menininho que chorou no Vale do Anhangabaú, o menininho que chorou na praia de Copacabana, em Salvador, em Campo Grande, em Rio Branco, quando os 200 milhões de brasileiros menininhos terão a oportunidade de sorrir novamente.
Ou chorar, resgatando a sina de povo fadado à tristeza, quem não se lembra de 1950?... E que não venha o Uruguai!

Haiquasis - Papoetaria 13/03




Marcelo Tadeu

Suba no barco
jogue todo o seu sofrimento
para os tubarões e deixe
que eles estraçalhem
o seu tormento



Paulo D'Auria

I
Na areia na areia na areia
Medo do mar
ou medo de sereia?

II
As velas recolhidas
barcos na areia anseiam
o dia da partida