em branco

FILE - Os Poemas

Os Poetas do Tietê visitaram a FILE 2012 - Festival Internacional de Linguagem Eletrônica
Confiram aqui o resultado poético desta visita:

Marcelo tadeu

Impressionante
Tudo se torna mais fácil
Simplifica meu dia a dia
Parece feitiçaria
Esta tal tecnologia




Bebê Virtual
Carolina Hermanas

Amores se conectam,
Emotions transbordam emoções,
Abreviações se interligam de alguma maneira
Cibernética e romântica.

Flores ao vento,
Que cartas são essas?
Não existem cartas.
Apenas palavras pequenas,
Apenas um monitor
Quente e...Sem amor.

Dias, horas, anos
Conversando com alguém
Praticamente invisível.
Com alguém sem olhos,
Sem vida,
Sem palavras amorosas. Reais.

Mantêm contato
Diariamente.
Mantêm uma imagem
Perfeita na sua mente.
Que mundo é esse?

Palavras pornográficas,
Insinuações claras.
Posições inventadas.
Será que estamos fazendo amor?
Virtualmente?

Alguns meses,
E um grito ecoa do outro lado.
Da tela do computador.
Sorrio - e pela webcam você também -
E dissemos:
- Nasceu. O nosso bebê virtual. É um IPAD.


CONTO TAMBORETE DE ZONA (INTERNET)
Caranguejúnior

JORNAL DOS ÚLTIMOS TEMPOS
21/01/2016

EXTRA!!! EXTRA!!!
O primeiro bebê que foi fecundado  pela internet, NASCEU!!!
Os pais se conheceram, namoraram, casaram-se e mantiveram relação interneticamente sexual com penetração via cabo USB, a mãe engravidou via placa mãe e a "criança" nasceu!!
Tudo pela internet...
A "criança" se chama Tamagochi, pesa 4GB, processador Dual core 3.0, GHz, MB L2 cache, 800 MHz FSB, Pentium 7, com câmera embutida no cu!
Os médicos se assustaram com as primeiras palavras proferidas pela "criança" que foram...
"Google dádá!! Google dádá!!"
Os pais estão muito felizes disseram que vai ser duro a manutenção da criança, devido o alto custo da assinatura de banda larga, mas, estão conscientes que geraram um bom lucro, e já abriram páginas na internet para o bebê, que por sinal estão bombando no Facebook, Twitter, Orkut, Picasa, Picasso, Davinci, Aleijadinho, flickr, florck, flurck, Youtube, Youtoba e outros caralhos internéticos...


Tecnicamente Inviável

Paulo D'Auria

O admirável ovo da tecnologia
Já nasce frito
E mamífero

O admirável gado da tecnologia
Já nasce temperado
E com lugar marcado

O admirável olho da tecnologia
É de Crystal Liquid Gel
Falso brilhante de grafite
E cego

X
Paulo D'Auria


Falsificando Nelson Rodrigues

Fotografia: Pierre Verger
 "Para os meus três anos, o mar, antes de ser paisagem, foi cheiro. Não era concha, nem espuma. Cheiro. Meu pai, antes de ser figura, gesto, bengala ou pura palavra, também foi cheiro. Ninguém tinha nome na minha primeira infância. A estrela-do-mar não se chamava estrela, nem o mar era mar. Só quando cheguei ao Rio, em 1916, é que tudo deixou de ser maravilhosamente anônimo." Nelson Rodrigues


Carolina Hermanas

Antes de ser mar, antes de ser água, também fui cheiro. Antes de ser escritor, aspirante a fumante, também fui cheiro. Antes de ser criança e espectador, também fui cheiro. Mas quando fui jornalista,assim como meu pai, cronista e dramaturgo, virei pó.
Antes de não ter pai, fui pó. Antes de não conhecer a repugnância democrática, fui pó Mas antes mesmo de ser quem eu não achava quem era, fui vento. Fui cheiro de vento.



Fotografia Pierre Verger
"Também me vejo na calçada da rua Alegre. Os mesmos seis anos. Sou pequenino e cabeçudo como um anão de Velasquez. E me fascinava ir de uma esquina a outra esquina, sempre pelo meio-fio. Eu me equilibrava, no meio-fio, como se este fosse fino e vibrante como um arame." Nelson Rodrigues


Paulo D'Auria

Nelson veio do mar. Ostra que onda largou na areia e, aos humores do sol submetida, partiu. Da concha quebrada pulou o menino-homem que trazia na boca o afogamento do mar. Por isso Nelson não ria. E não viria a rir nem quando o homem pulou, quebrado o vaso-menino num ricochete adúltero de tiro, do útero-mundo.
Nelson veio do mar. Espécime não classificado de anjo caído entregue à areia de Copacabana por Ogum. Na boca o afogamento germinal de todos os homens, guelras nos olhos, adaptou-se a esse não-respirar não precisando olhar no fundo dos olhos dos homens para desvendar sua alma, conhecia a sujeira do mar. A sujeira do mar profundo.
E no assombro do afogamento da vida, Nelson sem querer enganou a morte. Morreram Roberto, Mário, Joffre, Paulo. A tragédia era a sua casa, viera ao mundo numa manhã de ressaca: a ele bastava voltar para o mar.
Nelson veio do mar e no mar agora respira a fumaça de um milhão de cigarros ordinários que lhe traz Exu, seu revisor e amigo, com quem trava longas discussões morais. Dissolve as bitucas na translucidez do mar profundo fazendo papel para o jornal do dia. Não precisa mais de escafandros, está em seu ambiente inatural. A sujeira da humanidade boia dois círculos acima. Ri gargalhadas, faz sexo com amor e cata na máquina os grãos do editorial do amanhã.




Fotografia Pierre Verger
 "O brasileiro tem tão formidável potencial de fé que pode aplicá-lo por toda parte. E, súbito, nos tiram a vida eterna. Não há mais sobrenatural, não há mais nada. Estamos reduzidos aos quinze minutos da vida terrena. Vamos e venhamos: esse quarto de hora não basta para a nossa fome. Sem a sua eternidade, o brasileiro anda por aí, errante e desgraçado." - Nelson Rodrigues


Marcelo Tadeu

Na complexidade da vida
Onde é tão difícil perceber
Acredite se quiser
Ele escreveu
A vida como ela é

Navegação de Cabotagem - Conhecendo Jorge Amado

Os poetas do Tietê visitam a exposição em homenagem a Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa


Seu Jorge Modernista
Fernanda Migliore
Desenho: Fernanda Migliore
Cheiro de peixe maresia nordeste
ar-condicionado, Jorge-Amado
Jorges coloridos arrepio sagrado
teclas política exílios pensamentos
teclas livre - crente - mente mente
Jorge museu globo livro em tela
E eu inocente, sempre Gabriela.


Embriaguez
Paulo D'Auria
Imagem: Exposição sobre Jorge Amado no
Museu da Língua Portuguesa
Não conheci Jorge Amado quando pisei nas pedras tortas do Pelourinho, quentes ainda da fogueira de 1694 exemplares de suas obras.
Não conheci Jorge Amado quando entrei em sua casa azul-turista, quando dormi no pé da Farol da Barra, quando assisti à novela, quando visitei a Academia Brasileira de Letras.
Não, não conheci Jorge, o Amado em nenhuma dessas ocasiões, de certo que andava ausente, ele ou eu, dos fatos presentes e de menor importância.
Fui conhecer Jorge Amado ontem, uma vela vermelha e outra preta acesas iluminando a encruzilhada e a meia-noite de fria garoa paulistana, quem diria. Veio rindo e abraçado a Prestes, o cavaleiro.
Na hora de falar comigo, Prestes postou-se dois passos atrás de Jorge. Não ria, e seu olhar sisudo, contrastante com o ar bonachão de Jorge, avisava: não era hora de o conhecer.
Jorge agradeceu o charuto e a cachaça, armou uma cara entre a troça e a sabedoria, e disparou: “Deus sorri como um negrinho”.
Paralisado pelo encontro inesperado, fiquei olhando os amigos irem embora cambaleantes. Já iam na outra esquina quando Jorge se volta para trás e grita, “Na próxima entrega traz um licor de violeta pra Zélia!”
Jorge riu, e ainda tive tempo de ver seu riso alvar se desmanchar no ar.

Cama de Pregos

Tela: "Paisagem", de Carlos Zilio, 1974

Fajuto Faquir
Paulo D'Auria

Fosse um faquir
fajuto e roto
com meus duzentos quilos
os pregos não respeitariam minha pele
os pregos não respeitariam minha filosofia
ocidental
baseada em morrer
cedo
e doente
e lentamente

Fosse um faquir
falso
os pregos não respeitariam minha carne
praticando o sangramento
a purificação
feito facas
de um curandeiro turco (fake indiano)
no interior do recôncavo baiano
num romance de Jorge Amado
esfolando
um personagem secundário
e obscuro

Fosse um faquir
vivendo em fausto vazio
os pregos não respeitariam minha alma
surpreendendo-a pelos desvãos do desvio
de meu corpo inchado
e a sacrificariam
num varal de charque
voltado para a Meca

Encosto a cabeça em meu travesseiro de pregos
e durmo meus pesadelos tranquilo
porque é assim
o desassossego
dos justos

Maldita Condição
André Dia(s/z)?

Tentei te amar
num colchão de algodão
e lençóis de paixão
suaves como cetim,
Cama de pregos é o que me resta
refestelado sob pele rasgada
a dor do desprezo me mutila,
Testículos perfurados,
e eu não me movo
consciente que sou merecedor.
Reto e uretra são uma só chaga,
Sangue e dejetos são chorados
pelo olho que é o buraco
que é o meu corpo agora,
Sou um vazio exposto,
exposto aos olhos do mundo,
olhos estes que se fecham
à passsagem do homem-retalho
que um dia ousou
assumir sua maldita condição
de poeta.

Dias de índio

Imagem:
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/nambikwara


Marcelo Tadeu

I
Roubaram nossas terras
nossa dignidade
e ainda nos obrigam
a usar micro-ondas

II
Ele nos assustam
com suas flechas modernas
- E nós somos os selvagens?


Novo Mundo
André Dia(s/z)?

Espírito guerreiro
percorre a mata devastada,
sua lança e suas flechas
contra as máquinas
são quase nada,
mas o índio espera.
No cachimbo sorve a paciência
enquanto o seu mundo acaba
e o cinza do concreto
e o branco da cara pálida
se sobrepõem ao verde da mata,
ao colorido alegre da arara,
mas o índio espera.
Um dia os computadores vão dar pau,
e vão pedir pro índio
para ensinar a esfregar os seus pauzinhos
para acender uma nova fogueira
para aquecer um mundo novo
que jamais devia ter acabado.



Paulo D'Auria

Um rio primeiro
de onde em minhas lembranças você nasceu.
um rio primeiro
por onde na velha canoa percorremos o mundo
um mundo essência
de sabedoria pleno
nas folhas nos pássaros nas nuvens
e no azul por trás das nuvens
a tua ciência banhando meu olhos

Então veio o pó
e o homem feito do pó
e sua sabedoria do ferro forjado a fogo
então veio o jamais

Estava escrito nas pedras que se dissolvem com os séculos
de onde nasce o pó
de onde nascem os homens de pó
estava escrito
que este seria o mundo primeiro
e por fim o mundo do nunca mais

I
O indizionho descalço
perdeu as havaianas na BR-etcetal
no acidente fatal
do choque cultural

II
O indizionho descalço
joga bola no campo de terra,
depois que a tarde cai
fica o escuro,
a câmera escura
pra revelar o brasil

III
O indiozinho descalço
entra no supermercado
e o segurança de terno preto e gravata
vem logo dizer: "É PROIBIDO!"
o indiozinho ri, dá meia volta
e ganha a rua de sol de janeiro:
"Eu não tinha mesmo dinheiro!"

 
FINDO ÍNDIO (TRIBO TAKUKUNAMÃO)
Caranguejúnior

Peri está por aí...
Nas ruas do centro
Cabisbaixo, sem sorrir
Vagando, perdido
Dizem que enlouqueceu
Quase virou bandido
Vive de esmolas, no breu
Sem rumo, sem itinerário
Pois foi expulso de suas terras
Pelos latifundiários 

Enquanto Ubirajara dá um trampo
De engraxate na Sé
Pra ganhar um troco, no tranco
Do almoço ou do café
É ignorado como brasileiro
Toma todas, cheira um branco...
E perde seu pouco dinheiro
No jogo de baralho
Pois foi expulso de suas terras
Pelos latifundiários 

Já Iracema mora no Jaraguá
Com seus seis Curumins
Em uma tribo de lá
Passa perrengues, tempos ruins
Recebe o “bolsa família”
Que mal dá pra se virar
Vivem de migalhas, vazias vasilhas
Chora, por nada ter no velho armário
Pois foi expulsa de suas terras
Pelos latifundiários

Macunaíma o “Herói”
Anda mais sumido
Do que a FUNAI
Pelo céu cinza, foi vencido
A poluição do ar
O mantém escondido
Lá no vasto firmamento
Faça chuva ou luar,
Passa despercebido
Em nossos pensamentos

E nos olhos de Raoni, o cacique
Rolam lágrimas de tristeza
Ata, protesto, motim, chilique
E nada foi o suficiente
Para proteger a natureza
Da ambição do homem, Infelizmente
A dor maior de sua vida
É ver um “Belo monte” de árvores caídas
“Belo monte” de terras invadidas
E ver a guerra perdida

E o povo Guarani sofre
Nas terras Brasileiras, massacre
Sem terra, sem sul, sem norte
No Amazonas, Mato Grosso, Acre...
Sem demarcação, paz e sorte
Humilhação em toda parte
Massacrados em vários cantos
Pela polícia e legislação federal
No futebol, "O Guarani" perde pro Santos
Na final da decisão estadual

Os Índios são sempre passado
Nunca presente
Vivem isolados, abandonados
Sem futuro, sempre ausentes
O homem branco mata
Maltrata e tortura
E os índios seguem em busca da cura
De serem respeitados, como PESSOA
Sonhando em ter de volta
Suas vidas boas, Villas Boas.

Portinari: Guerra e Paz

Os Poetas do Tietê visitam a exposição dos painéis "Guerra e Paz", de Cândido Portinari


GUERRA X PAZ
Caranguejúnior
(poema feito sobre o mote “A marreta da morte é tão pesada / que a pedreira da vida não aguenta” retirado do site interpoetica.com)

Desse mundo o ódio tomou conta
Dos corações dos homens sem amor
Que plantam violência, guerra e terror
Espalhando a dor na primeira afronta
Manchando o céu com cor avermelhada
De batalhas sem propósitos e sangrentas
Para matar usam várias ferramentas
De rancor à alma já está armada
A marreta da guerra é tão pesada
Que a pedreira da paz não aguenta


Inocentes se vão como o vento
A morte chega sem convite
Estraçalha vidas igual dinamite
Sem chance de qualquer argumento
E Deus chora com as mãos lavadas
O homem que do poder se alimenta
De ambição sua aura é sedenta
Na sorte a humanidade está lançada
A marreta da guerra é tão pesada
Que a pedreira da paz não aguenta


 
Portinari
Marcelo Tadeu

Mas que bela magia é essa
Apenas com um lápis e um pincel
Se utilizando de todas as cores
Mostrou ao mundo
Em desenho tão vivo
A tristeza da guerra
E a alegria da paz

 
Tinta Azul!
Carolina Hermanas

De vários ângulos vejo o teu sofrer,
Sentada,ajoelhada e descabelada.
Seria fome? Ou vontade de viver?
Um coro ressoando ao teu redor,
Seria o fim dos tempos?

Crianças formando rodas,
Meninos brincando nos balanços,
Todos inertes no seu próprio morrer.

Olhos despertos,
A cada passo uma transmutação de cores;
Enquanto houver guerra,
A cor preta — destruidora de sonhos — prevalecerá.
Teus sonhos serão escuros,
E tuas palavras também.

Talvez, se ver um pouco do azul,
A esperança se reerga.
Tuas mãos escondem tua feição;
O que é isso manchando teus dedos?
Seriam lágrimas de sangue?
Ou gotas de chuva?

Olha a tua volta,
Vê sangue e escuta gritos.
Por fim, teu último suspiro.
Um balde de tinta azul é jogado na sua cabeça; tarde demais!

Homem Morrendo
Carolina Hermanas

Desenho meu rosto num painel,
Retoco minha boca torta,
Puxo os olhos para baixo - agora estão caídos;
E me vejo numa situação horrenda.

Aproximo-me do meu ser,
E vejo o que estou pintando;
O meu sangue, a minha origem.

Começo a tossir,
Uma,duas, três vezes,
E, na terceira, meu pulmão infla.
Dou uma última pincelada antes de cair.
Mas quero que veja;
Não estou me autorretratando,
Estou me matando fazendo o que amo.
Estou morrendo em meio aos pincéis.

 
Guerra e Pés
André Dia(s/z)?

O que vejo agora,
Contemplo absorto
A mãe que chora
seu querido filho morto,

Porque eu sou assim?
Não consigo ver a tristeza da cena?
Deus! Olhai por mim!
Não consigo, de fato, sentir pena!

Só consigo ver
aqueles pés enormes,
perfeitos a preencher
minha obsessão, com suas dimensões disformes!

Aquelas voluptuosas solas sujas
de calcanhares inteiramente rachados,
Fazem-me igual aos vampiros e bruxas,
Seres amaldiçoados!

Há uma ignominiosa guerra
dentro de mim,
Contra esta bestial fera,
a uivar sem fim!

Peço então, a redenção
me ajoelho e lambo como reza,
em minha canina abjeção
degusto os pés da mãe, sem pressa.

Medito e percebo então,
Nunca mais encontrarei a paz
Guerra e pés serão
realidades jamais deixadas para trás.

Terra e Paz
André Dia(s/z)?

Vi a criança
nos braços da mãe,
como boneco desengonçado
Qual o valor da vida humana?

Vi o sangue
encharcar a terra,
como chuva do céu
quando os anjos cortaram os pulsos

As feras cravaram as garras
na inocência do menino,
Que jaz como brinquedo quebrado
pelas garras do homem diabo,

Sob seu sangue de querubim,
que ensopando a terra,
enfim, encontra a paz.

 
Na gangorra dos homens
Paulo D’Auria

I
As mãos,
as mãos,
as mães.
A mãe com o filho nos braços está de costas,
a mãe com o filho nos braços é uma pietá de rosto coberto,
a mãe e o filho nos braços feito uma boneca, de pau,
a mãe e o azul do filho morto.

As mães,
as mães,
as mãos.
As mulheres choram com as mãos na cabeça
sobre os cabelos desgrenhados,
As mãos erguidas ao céu em prece
sobre os cabelos rabiscados,
as mãos cobrindo as faces
dessas desgraçadas pietás sem rosto.

A morte vem cavalgando vermelha
sobre seu cavalo rabiscado,
desgraçado,
desgrenhado
à lápis.
A morte cavalgando em seu puro sangue.

II
No balanço do tempo
as crianças alçam voo,
no diabolô do tempo
as crianças se reinventam,
no coro do tempo,
as crianças.

Na gangorra dos homens
e no balanço do tempo.
Na gangorra dos homens,
e no balanço do tempo
o mundo segue seu curso não-inevitável
e as crianças brincam
simplesmente.

Vanzoliniando Parte 2

Ainda homenageando o mestre Paulo Vanzolini, inspirados por sua canção "Longe de Casa Eu Choro", os Poetas do Tietê declaram seu amor pela cidade:


Longe de Casa eu Choro
letra de Paulo Vanzolini

Longe de casa eu choro e não quero nada
Pois fora do chão ninguém quer e não pode nada
Sinto falta de São Paulo
De escutar na madrugada
Uns bordões de violões
E uma flauta a chorar prata

Dor de amor não me magoa
A saudade da garoa é que me mata
E eu saio pra rua
Assobiando comprido
Um samba comovido
Que Sivio Caldas cantasse
E me iludo que a garoa
Vem molhar a minha face

Mas é pranto e choro tanto
Quem me dera que hoje mesmo
Eu voltasse pro chão que eu adoro
Pois longe de casa
Eu choro e não quero nada.

Morro do Jaraguá
Paulo D'Auria

O avião vem chegando
E eu procuro de longe
O Morro do Jaraguá,
Não me interessam os edifícios
Não me interessam as avenidas
Não me interessa a mancha cinza
No horizonte.

Meu coração só se acalma
Quando os olhos alcançam
O Morro do Jaraguá,
Minha rosa-dos-ventos
Na tempestade
Ou na escuridão
Da cidade.

O Morro do Jaraguá tem sabiás
Que choram suas flautas
No compasso do samba
Do tempo e do espaço.

O avião parte outra vez,
Não olho para trás,
Procuro a paz
Na última gota de garoa
Em minha face.

Saudades da terra da garoa
Marcelo Tadeu

Quanto mais eu choro
Mais eu lembro de São Paulo
Pois são dos meus olhos
Que cai a garoa

Assim como em São Paulo
Sinto no meu no rosto
Os pingos da chuva
Vindos do meu próprio
Choro

Então para não sentir saudades
Choro, choro muito

E assim
Ao olhar pela Janela
Dá a impressão para mim
Que nunca saí desta terra

 Selo "Sesc Pompeia", obra de Fernanda Migliore


Vídeo de "Ronda", com Ana Bernardo e Italo Peron, gravado no Conversa Com Verso de 24/03/12