em branco

Poetas catadores, catalegrias, catapaixões...

Imagem: henriquecorreia.blogspot.com

Na Papoetaria de 12/11, André Dia(s/z)? leu o surpreendente conto de Álvaro Cardoso Gomes, “Achados na Praia”, em seguida, sorteou entre nós alguns sentimentos. A ideia era que cada um escrevesse sobre o sentimento sorteado como se este fosse um objeto recém encontrado pelo poeta. E mais, com a proibição de citá-lo no texto. Veja só no que deu:  


Achados na Praia
de Álvaro Cardoso Gomes
(trecho) Leia na íntegra em na Revista E, clicando aqui
 

Tenho achado coisas interessantes na praia. Outro dia, encontrei uma mulher boiando no riacho. Em meio a caixas de papelão, latinhas de cerveja, garrafas de refrigerante, sacos de lixo, ela se deixava levar em direção ao mar. Quando empacou num banco de areia, resgatei-a das águas e dos detritos.
Estava imunda e mal lhe podia divisar os traços. Levei-a, então, para casa e, com detergente, sapólio e uma grossa bucha, consegui tirar as manchas de óleo e barro. Depois que lhe dei um banho, usando sabonete e xampu, reparei que era muito bela. Tinha a pele branca, quase transparente, os cabelos loiros como o trigo, o corpo pequeno, os seios miúdos e pernas longas. Mas o que mais me encantou foi a boca vermelha como um morango(...) (para terminar de ler o conto, clique aqui)


Madrugada
Paulo D’Auria

“Se é macumba, chuta!” Diziam os garotos da minha vila. Mas eu via as balas, a pipoca, a canjica, e pensava: “Chutar? Por que a gente não come?”
Pois ontem de madrugada, voltando para casa, dobrei uma esquina e chutei, sem querer, mas com força, uma macumba. Tudo pelo chão: pinga cheirando, tigela partida, ebó esparramado. E um charuto rodopiando pelos ares em câmera lenta.
Com o chute, subiu, deu duas ou três voltas na frente do meu nariz, e caiu, chovendo brasas pela calçada. A fumaça ficou pairando no ar.
Fiz conchas com as duas mãos, capturando-a, e levei a órfã para casa. Lá, guardei-a num vidro vazio de palmito.
Deitei, mas não conseguia dormir em paz. Talvez (a voz da garotada ecoando no tempo) tivesse aborrecido alguma entidade, que agora me punia com insônia e angústias.
Fui buscar o vidro. A fumaça parecia se adensar. Era como se o charuto inteiro tivesse queimado ali dentro.
Liguei a TV para esquecer: “Fala que eu te escuto”, “Disque-amizade”, “Gincana eletrônica”. Eu não estava vazio o suficiente para encarar as bizarrices da madrugada com humor.
De soslaio, olhei para o vidro no criado-mudo. A fumaça se adensando mais e mais. Não era nenhuma entidade que me assombrava, era ela, a fumaça, viva, tumor sob a pressão da tampa rosqueada.
Encarei-a de frente, eu sabia o que tinha de fazer. Abri a tampa e traguei a fumaça toda de uma vez.
Eu não estava vazio o suficiente. Ali dentro, ardendo, era como se o charuto inteiro tivesse queimado.



Coração de Cristal
Marcelo Tadeu

O que tinha dentro daquela caixa
Jogada no lixo
Que brilhava tanto?
Me aproximei ainda com medo
Peguei a caixa com receio
Quando a abri
Para a minha surpresa
Eis que surge
Um objeto tão essencial
Um coração de cristal
Muito estranho
No lixo
Um símbolo
Uma representação
Um objeto
Tão bonito
Baseado no qual
Todo homem
Toma sua decisão


Braços
André Dia(s/z)?

Cabisbaixo
andava
debaixo do céu cinza,
chutou algo que rolou
até a sarjeta.
Limpou as camadas de lama
das pontas,
enfiou no bolso,
foi pra casa.
Lavou,
começou a brilhar.
Sorrindo
correu até o quarto
pendurou em cima da cama
e ficou olhando
o brilho das pontas
se tornarem braços
que embalaram seus sonhos.
Eram os braços da mulher amada
perdida num tempo longínquo
personificada agora
numa simples estrela
de papelão dourado.



Caneca de Chá
Carolina Hermanas

Entro na loja de penhores
E o encontro no meio da bagunça,
Empoeirado num canto.

Brilha como um cristal
E me olha como um diamante
Não resisto, olho na mesma direção,
E compro.

Chego em casa saltitante
Com o novo brinquedo,
Dou para ele um pouco de água
E observo seu movimento uniforme.

Borbulha de um jeito único,
Eletrizando-me ao encostar-se em mim,
Esquenta meu semblante com seu calor,
E derrama-se sobre meu corpo.

Em tempo: Paulo D’Auria escreveu sobre a Dor, Marcelo Tadeu sobre a Razão, André Dia(s/z)? sobre a Alegria e Carolina Hermanas sobre a Paixão.

Arqueologia - Escavando Poesia


Imagem: capa do álbum "Para los
arqueólogos do futuro"  de 1989,
da banda chilena "Congreso".

Na Papoetaria do dia 5/11, a partir do poema "Dino", do poeta Pipol, e de duas frases, de Foulcaut e Stephen King, tentamos ligar uns pontinhos soltos da História.


"Os acontecimentos na arqueologia das ciências humanas são acontecimentos-limite, anunciam os derradeiros momentos de algo prenunciando o surgimento de outra coisa" - Foulcaut


“O trabalho do escritor é conseguir tirar cada osso do solo sem danificá-lo. Às vezes o fóssil que você desenterra é pequeno, uma concha marinha. Às vezes é enorme, um tiranossaurus rex. – Stephen King


Dino (Pipol)
Equipe escavando na América do Sul
encontra os restos fósseis do que seria
o maior dinossauro que já existiu.

 
Cientistas renomados da América do Norte
não medirão esforços para provar que,
embora maior e certamente muito mais forte,
o novo dinossauro não era carnívoro,
e sua agressividade nem chegava perto
da do Tiranossauro Rex,

 
o dinossauro favoritos dos garotos
da América do Norte.

Passado Moderno
Carolina Hermana

Quem vive de passado é museu,
Monalisa, Leonardo da Vinci,
Retratos velhos e quase esquecidos,
Deixados de lado. 

Não importa com quantos paus se faz uma caverna,
Modernidade traz à tona luz de graça,
A internet abençoada conecta o mundo,
Ocultando de vez o envio de cartas. 

Ser ou não ser?
Fazer ou esquecer?
Protestar ou dormir?
Reclamar ou agir? 

Escrevam poesias,
Pichem palácios,
Reclamem rebeldia,
Não elogiem os palhaços.


sobre palitos, deditos & doritos
Paulo D’Auria 

eu vi a pintura rupestre na televisão
os homenzinhos palitos caçando com suas lanças palitos
grandes animais palitos do paleolítico
e eles (já) moravam no morro onde
faziam fogueiras cantavam trepavam
e desenhavam suas grandes façanhas na rocha
para a posteridade ver 

(e 40 mil anos depois não é que eu vi
eu vi o pablo picasso palito na televisão) 

a vida na pedra era dura
fazia inverno quando devia fazer verão
mulher se caçava na clava
(a vida na pedra era dura)
o deus sol era inclemente
(fazia verão quando devia fazer jardim de inverno)
e nem tinha inventado ainda a tal redenção
a vida / na pedra era / dura 

feliz de minha vida mole engoli
a o último gole de cocacola e sorri
espanei as migalhas do colo
passei perfume
conferi a hora
e saí 

lá fora o menino palito estendeu seu bracinho palito
e me entregou seu bilhete rupestre neo-neolítico:
tenho 6 irmãos
meu pai foimbora di casa
minha mãe impregada istá disimpregada
pregada
pregada na cruz palito da vida palito
com seus bracinhos palitos abertos 

acho que perdi
a loco
motiva
o trem bala
da história 

voltei para casa e tranquei
a história a porta a razão do lado de fora 

mas a frase de um velho de 90 anos que trabalha na roça
batendo na porta da minha cabeça pedra:
“a vida é dura pra quem é mole!” 

eu / sou / mole / mole / mole
de marré marré marré

futuro do presente
Paulo D'Auria

na arqueologia do futuro do presente os arqueólogos vão desenterrar a os ossos e os ossos e mais ossos da nossa cabeça vazia oca sem cérebro que o pouco os insetos já terão comido devolvido à terra na forma de limbo digo húmus na arqueologia do futuro do presente os arqueólogos vão desenterrar os nossos cocôs junto à fogueirinha de papel e calcular os anos pelo carbono 14 dos carros escapamentos de banco de couro e concluir que éramos contemporâneos moradores das cavernas viadutos e dos autómóveis de aço luxo na arqueologia do futuro do presente os arqueólogos vão cuidadosamente tirar o pó dos ossos de nossas cabeças ocas insossas e levantar a questão que ecoará através dos séculos o que afinal nós estávamos pensando?


Essência Envenenada
André Dia(s/z)? 

Achei meu coração
enterrado no cemitério dos velhos sonhos,
já não batia como antes
mal podia reconhecê-lo
cada fraca palpitação
era um código Morse
que já não me dizia nada.
Os anos 2000 não são coloridos
como os desenhos dos Jetesons,
a revolução industrial
mastigou com seus dentes metálicos
cada vestígio da frágil semente,
bolhas esverdeadas de sabão
estouram todos os dias,
o índio mata para comprar drogas,
enterro de volta meu coração.
Quem sabe,
quem sabe um dia
o desenterre para um transplante,
esta troca tão sonhada
da inocente essência envenenada

O Poeta Flâneur




Na Papoetaria do dia 29/10, o tema foi o poeta como espectador da cidade. O conto "Um Homem na Multidão, de Edgar Alan Poe, nos serviu de inspiração.

Um Homem na Multidão (trecho)

Há não muito tempo, ao fim de uma tarde de outono, eu estava sentado ante a grande janela do Café D. . . em Londres. Por vários meses andara enfermo, mas já me encontrava em franca convalescença e, com a volta da saúde, sentia-me num daqueles felizes estados de espírito que são exatamente o oposto do ennui; estado de espírito da mais aguda apetência, no qual os olhos da mente se desanuviam e o intelecto, eletrificado, ultrapassa sua condição diária tanto quanto a vívida, posto que cândida, razão de Leibniz ultrapassa a doida e débil retórica de Górgias.
Com o charuto entre os lábios e o jornal sobre os joelhos, divertira-me durante grande parte da tarde, ora a meditar os anúncios, ora observando a companhia promíscua reunida na sala, ou ainda a espreitar a rua através das vidraças enfumaçadas(...)


Longe de Seu Tempo
Marcelo Tadeu


Um velho
Vestido de terno e chapéu
Num calor imenso
No ônibus desejou bom dia a todos
Cedeu lugar para uma mulher sentar


Aos olhos de todos
Mais um louco
Puxava conversa com qualquer um
Como se conhecesse a tempos
Sorria contava piadas
Como se todos fossem íntimos


Aos olhos de todos
Mais um homem querendo aparecer
Aos meus olhos
Um velho carente
Em busca de atenção e alento
Ou talvez um homem
Longe de seu tempo


Abraço de Graça
Carolina Hermanas


Objeto pequeno rodopiando sozinho,
Roda, roda, roda e para.
Sorriso inventado
Se desmanchando sozinho,
Sorri, sorri, sorri e para.


Olhos feito túnel,
Mãos feito fada,
Corpo pequenino,
Sorriso inventado


Agarra minhas pernas,
Olha feito cachorro abandonado,
Implora por um pouco de abrigo,
Sorriso inventado


Me mostra a moeda,
Me mostra uma careta,
Joga os braços pelo ar,
Sorriso inventado


Qual o valor de uma moeda?
Qual o valor de um sorriso?
Qual o valor de um carinho?
Pensa, pensa, pensa e para.


Numa Camisa Amarela
André Dia(s/z)?


Eu vi a senhora
que passou rapidamente
passaria despercebida
não fosse a camisa amarela
destacando os seios flácidos a balançar.
Pensei em quantas bocas
já sugaram aqueles seios,
Seriam apenas
as sugadas inocentes dos bebês?
Ou também
as sugadas lascivas dos homens?
Aqueles seios
já teriam produzido leite?
Homens já teriam
esguichado leite naqueles seios?
Ela se foi,
se esvaneceu na multidão,
e o que ficou apenas
foi aquele par de seios flácidos
numa camisa amarela.


Quero vê se essa semana passo lá na universidade
Paulo D’Auria


lab lab lab
sílaba cilada sibila
no lab bab blab
labirinto trans trans
trans for má tico au tô má ti co
da cidade


“— Velho dos infernos! 74 latas, dois e vinte?!”
“— Ô Marilda”
GRITOS DE CRIANÇA
“— Vamo comê manga?”


labirinto cíclico
casal numa pista de dança
ônibus que repetisse sempre o mesmo trajeto
com uma pequena variação decimal (deu o sinal?)
chegando hoje a um lugar poucos centímetros distante de ontem
abrindo o círculo
circulando o circo


“— Tamires, vem cá!”
“— Vô pegá água”
ÔNIBUS FREANDO NA AVENIDA
“— Deixa o gato aí, viadinho”
“— Olha essa que vermelha!”
“— Quero comprá mais um negócio pra mim”
ÔNIBUS ACELERANDO NA AVENIDA


“— Quero vê se essa semana passo lá na universidade”
universo idade verso cidade inverso sub merso
lab lab tran si cidade lab lab
ratos que não aprendo
ex exp exposta experiência ciência sem resposta
condiciona dor (de ar de cabelo etc)
procurando a saída desta caixa esquina
lab bab bla bla bla
descre vendo sempre os mesmo círculos com cem trincos
a saída mas
a saída mas nunca
a saída mas nunca sem
a saída mas nunca sem dar uma
a saída mas nunca sem dar uma cabeçada
“— É nunca não! É nunca não!”


“— Quero vê se essa semana passo lá na universidade...
lá tem um pé carregado...
...senão!”

Onde Jesus Esteve




Na papoetaria de 15/10, André Dia(s/z)? leu dois trechos bastante provocativos do livro “Os Cães Ladram – Truman Capote”:

1) “Vi uma vez o aviso numa porta, no bairro do Irish Channel: “Entre e veja onde Jesus esteve.”“O que é?” Disse a mulher que abriu a porta quando toquei a campainha.“Eu queria ver onde Jesus esteve”, expliquei, e por um momento ela pareceu perdida; seu rosto enrugado e branco como marshmallow; não tinha sobrancelhas, nem pestanas e usava um quimono de algodão fino. “Você também, querido” ela disse, e o riso farto fez seus seios fartos balançarem.“Mas você é muito pequeno para ver onde Jesus esteve.”
2) "Eles se sentem compelidos a provar algo, pois a classe média norte americana, da qual a maioria provem, reserva palavras cruéis para seus homens sensíveis, para os jovens inteligentes ousados que não provam imediatamente que seus dons rendem dinheiro vivo. Mas, quando uma civilização acaba, é dinheiro o que os sucessores procuram nas ruínas? Ou é uma estátua, um poema, uma peça?”

Confira, a seguir, o resusltado destas provocações:


Penetra
Paulo D'Auria
entre
entre e veja
jesus já

na fila
do sus

abra
abra os olhos
e deixe
a luz de jesus cegar


le ia
jonas na ba le ia
já lia
a bíb lia



levante a cruz
levante
levante a lona
e deixe o pequeno penetra entrar

clã
clan/destino

qué que temdeixa o menino cristo
dar suas gargalhadas
também
neste circo
deixe ele rir
com o palhaço ensinado
e as inflantes piruetas do elefante
infante
infantaria
derrube
derrube
à lona
o fraco
noucaute out out
lá lá lá
onde jesus esteve
ondeondasordas
um dia
também
lá tão bem
serão felizes
sorria meu bem
só ria
amém.



Onde Jesus Esteve
André Dia(s/z)?
Me lembro
de quando pequeno
procurar onde Jesus esteve,
mas não encontrei nenhuma pegada
nenhum indício,
Jesus era o homem morto na igreja?
A quem as velhinhas
botavam moedas na caixinha do altar?
Vi que não era,
Vi que Jesus era
O colorido das flores
A fofura da nuvens de algodão
A graciosidade
da menina mais bonita da escola,
Para mim
Jesus era a poesia
com que impregnei
meus primeiros e toscos versos
e que ainda faz
com que movimente esta caneta,
Jesus não é uma recompensa material,
Ele é o contrário
de tudo que se dá valor aqui,
Jesus é o sorriso
que me brota nos lábios
ao assumir minha condição de poeta
num mundo que escarnece
de minha escolha.


Grande Poeta
Marcelo Tadeu

Jesus Cristo mudou o mundo com seus poemas verdadeiros.
Um grande poeta reconhecido depois de morto, mas vivo na memória de cada um de nós.



Onde Jesus Esteve
Marcelo Ferrari



Prega com o palito.
Não tem palito!
Claro que tem.
Não tem, tô falando.
Vou prega com a mão.
Não! Com a mão não!
Economizei
mais de um mês
pra comprar este naco.
Com a mão você não prega!
E como vou prega?
Com o palito!
Não tem palito.
Claro que tem.
Onde? Meu deus!
Pergunte ao seu filho.
João Batista?
Não! Jesus Esteves!
Jesus, venha cá?
Onde está o palito?
Tá na despensa, pai.
Pregue lá!
E volte logo:dois palitos.
(...)
Cadê o moleque?
Onde Jesus Esteves!
Onde logo!
Onde logo!
Senão vou ter que
lavar as mãos.

poeta objeto




Na papoetaria de 8/10, Caranguejúnior sugeriu que escrevêssemos todos como se fôssemos objetos.
Quer dizer, escrever a partir do ponto de vista de algum objeto.

Para ilustrar a ideia, passou seu "Poema Souza Cruz", em que o narrador é o cigarro de Clarice Lispector:

Sonhei que era o cigarro de Clarice
Toda vez que ela tragava Minh’alma

Via as palavras brincando em sua boca
Formando versos de fumaça
Seus pulmões eram o Playcenter
Hopi Hari, Happy Air!!
Toda vez que ela soltava-me
Meu espírito voava como poesia ao ar

Sonhei que era o Cigarro de Lispector (a Clarice)
Ela estava sentada
Em sua poltrona na sala
Pensamentos longínquos
Fumaças ao ar
Não havia nenhum passivo fumante
Que pudesse me inalar e estragar
Aquele instante vicioso. Ela e eu, só.

Sonhei que era o cigarro da Lispector
Eu, entre seus dedos
Morria devagar
Manchado de batom
Definhando aos poucos.
E ela nicotinamente relaxando
Sua brilhante mente
Brilhantemente...

Sonhei que era o cigarro de Clarice,
Aquela flor de Liz(pector)
Observei-a escrevendo um poema
Um poema sonhador, um poema Souza Cruz
E meus olhos em brasa de mero cigarro aceso.

Sonhei que era o cigarro de Clarice Lispector
Foram três minutos de ápice
De repente, Morri...
Deixei restos de mim em seu ser.

Enfisemas poemas taquicardias poesias
Acordei suado e amando
Pois naquele cinzeiro
Que ela me apagou
Existiam vários "eus" depositados
Que foram extintos em seus lábios


Agora, vamos ao resultado deste exercício

Caneta de Vinicius
Marcelo Tadeu

Sonhei que era caneta de Vinícius
E que estava entre seus dedos
Somente eu sabia seus segredos
Já era de madrugada e falávamos de seu novo amor
Vinícius estava animado
Minha tinta escorria pelo papel
Estava meio cansado
Mas aguentei firme
Sob seus dedos
Pois queria saber de toda história
Mas uma coisa horrível aconteceu
Minha tinta acabou
Uma tremenda decepção
Já que nem o fim da história
A outra caneta me contou

Amo sua Dor
André Dia(s/z)?

Todo santo sábado
Lá vem ela me visitar,
Depositando rosas aos meus pés.
Meus olhos duros contemplam os seus
Tão tristes e marejados.
Meu dedo apontado para o céu
Tenta lhe falar de esperança,
Que um dia irá reencontrá-lo,
Mas ela parece não entender
E soluça debaixo de minhas asas rachadas.
Mas, ao mesmo tempo, amo sua dor
Que rompe assim, esta solidão
Esta existência imóvel
De anjo de cemitério.

A Pedra
Caranguejúnior

Sou uma pedra
e por ser pedra
tenho alma de pedra
coração de pedra
e sentimentos de pedra

Mas garanto
não sou desumana
como vários seres "humanos"
que matam, roubam
e plantam a semente do mal

Estou aqui no seu quintal
estagnada, observando tudo:
das mais belas
às piores coisas

Já vi tantos fatos
que rolou no meu olhar
de pedra, uma lágrima

Meu desejo, neste momento
é voar e voar e voar...
Pode parecer estranho
esse meu desejo de pedra
Mas te digo, as pedras voam!!
Sim, basta você dar uma
mãozinha...

Senhora
Paulo D'Auria

O seu peso e o seu desprezo diário.
Só me olha quando está triste, mas não me vê.
Na alegria passa saltitante,
No inverno me cobre, me esconde,
No verão, me procura para dormir,
Aos domingos, cuida de mim, me acaricia com panos
me encharca de perfumes, me dá banhos
e, no fim, deixa cair sobre mim
uma gota de suor.

O seu peso e o seu desprezo
sou teu chão
você é minha dona
e senhora.

A Mais Bela
Paulo D'Auria

Você. Garanto. Não existe ninguém mais
nem mais bela nem mais feia
nem mais gorda nem mais magra
mais perfeita
ou mais burra
(olha para mim
mas só consegue ver
você você você)

Eu, todos os dias
e você nem percebe.
Dentro de mim, trago você
e você nem percebe.

Te estudo, copio, persigo.
Só com você
não sou vazio.
Tudo que fiz de minha vida foi te servir
e agora este palhaço entra em seu quarto
e te humilha
e vai embora
e é em mim que você desconta

É em mim que joga o vidro de seu perfume
mais vagabundo e favorito
me deixando em cacos
estilhaçado

Te entendo
e te perdoo
ainda é a mim recorre
neste teu último voo

É com meus pedaços que
num impulso
rasga os pulsos

morremos juntos.

Aniversário





Repente do Aniversário
André Dia(s/z)? e Paulo D'Auria

Vão aniversariar os Poetas do Tietê
E vão comemorar na feira
Que poeta não tem carteira
Para alugar bufê

Vai tá o Marcelão e o Caranguejo
O Paulo mais o André
Poetando com pastel de queijo
de carne e o que mais vié

Vai se muito bacana
Uns bebem caldo de cana
Outros bebem cerveja
Mas no final a poesia é a cereja

Do que esse povo gosta é de poesia
O encontro vai ser no Pacaembu
Palco de muito verso e alegria
Que não gosta de pastel que coma angu!

Tá to do mundo convidado
Pode vir Dona Maria
E também o Seu José
Pra ela eu faço uma poesia
Pra ele eu pago um café!

Um poema sobre algo que você nunca tenha feito antes



Na Papoetaria deste sábado, sugeri um tema que me havia sido sugerido por Karla Jacobina em uma conversa por telefone há uns 3 anos atrás: "Por que você não faz um poema sobre algo que você nunca tenha feito antes?"

Então, mãos à obra:










Primeira Vez
Marcelo Tadeu

Eu não estava confiante
Minha intenção era de fugir dali
Não adiantaria se fizesse isso
Seguiria comigo por toda s vida.

Que mal estar
Que desejo de não estar lá
Em poucos minutos
Tinha que decidir

Mas porque tanto medo assim?
Não existia tanto perigo
Minhas mãos tremiam
Meu coração acelerado
Enfim
Será que toda a minha primeira vez
Será assim?

Bolada
André Dia(s/)?

Descobri outro dia,
Minha mãe me contou
Que tive trauma de bola
Quando tinha cinco anos,
Não lembrava disso,
Para mim
Simplesmente não gostava de bola,
Mas não,
Tomei uma bolada
Dos garotos mais velhos
Lá no colégio das freiras,
Depois a madre
Contou uma história
Na reunião de pais
Sobre um menino que
Não gostava de bola:
- Menino que não gosta de bola...
  Vocês sabem o que é, né?
Eu nunca joguei bola
Mas já não me sinto infeliz
Pois descobri o que é um menino
Que não gosta de bola!
É artista!

Pivete
Paulo D'Auria

eu já fiz poema de amor
já fiz poesia social
já escrevi sobre flor
já fiz poema surreal

mas nunca escrevi sobre você
por quê?

já falei de sexo
botei no papel palavras sem nexo
escrevi sobre os moradores de rua
e fiz uma poesia para o homem na lua

mas nunca escrevi sobre você
por quê?

você que escondi atrás de personagens secundários
você disfuncional gordinho que não sabia empinar papagaio
não sabia jogar futebol
se apaixonava mais que uma meninha
e batia punheta pra vizinha

você o cara oculto dentro do escuro dentro de mim
você o menino-tarado-apaixonado
pare de desenterrar segredos
pode voltar pro seu buraco
de onde nunca mais te liberto
seu pivete
safado!

A Caixa de Cada Um

Na Papoetaria deste sábado (27/08), André Dia(s/z)? trouxe o segundo capítulo de "O Pequeno Príncipe". Depois da leitura, nos fez a seguinte pergunta: O que há na caixa de cada um de vocês?

O Pequeno Príncipe (trecho)
de Antoine de Saint-Exupéry

Desenhei de novo.
Meu amigo sorriu com indulgência:
- Bem vês que isto não é um carneiro. È um bode... Olha os chifres...
Fiz mais uma vez o desenho.
Mas ele foi recusado como os precedentes:
- Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito.
Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado.
E arrisquei:
- Esta é a caixa. O carneiro está dentro.
Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:
- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro.
- Por quê...
- Porque é muito pequeno onde eu moro...
- Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada!
Inclinou a cabeça sobre o desenho:
- Não é tão pequeno assim... Olha! Adormeceu...
E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.

Caixa de André Dia(s/z)?

Na minha caixa
tem um par de sapatos
que eu guardo
para a última caminhada,
São sapatos alados
para caminhar por cima das nuvens,
Por cima de toda coisa feia que me cerca,
Pularei o muro mais alto,
O muro com o arame farpado da maldade,
E sapatearei feliz
ao som das trombetas dos anjos.

Caixa de Marcelo Tadeu

Na minha caixa
Estão todos os meus sonhos
Talvez nunca saiam de lá
Em minha vivência
Talvez nunca os veja se realizarem
Mas sempre estarão lá
Manterei a caixa sempre cheia
Já que nunca deixarei de sonhar

Caixa de Caranguejúnior

1.
Na minha caixa
Cabe nada e tudo
Cabe o branco e o escuro
Cabe o mar
Iemanjá

Na minha caixa
Cabe tudo e nada
Cabe o beijo da namorada
Cabe as Pirâmides do Egito
Cabe o grito

Na minha caixa
Nada e tudo cabe
Rosas Guimarâneas
Pra Lê Minsk
E o olhar de Clarice

Na minha caixa
Tudo e nada cabe
Paráforas e metábolas
Engenhocas e repimbocas
Einsteins e Franksteins

Te digo amigo
Que na minha caixa
Cabe a noite e o dia
Cabe um tantinho assim
De poesia

2.
Na minha caixa
Há um poeta louco
Prestes a recitar
Um poema

Quiçá este poeta
Saía da caixa
Desembrulhe-se
E desenterre o poema

Pois lugar de poema
É fora da caixa!

A Caixa de Paulo D'Auria

1.
O que você acha?
Cê acha que se encaixa?
Que acha uma brecha?

A minha caixa
embora quase cheia
sempre sera meia
sem você.

2.
na minha caixa o mundo in
teiro   e   o   céu   e   a  lua
meia   e   o   sol   do  meio
dia  na  minha  caixa  vazia

3.



4.

SYNchronicity:
Caixa Mágica de Marcelo Ferrari