em branco

O chute


Levei um
chute na
minha identidade!
Já não sei
mais quem eu sou!
João? Maria?
José? Rodrigo?
Sou um monte
de pedaços!
O que não importa,
se espalhou
Mas, meu tesão
ficou colado na
sola,
Entre os dedos
Que este vil
cão, chupou!

Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

O falo


Viril
violador,
Extropiado
de tanto
se meter
onde não
foi chamado,
Que fim terá
o falo?
Ridiculamente
rígido
num priapismo
assustador ?
Ou cabisbaixo
e vencido
entre dois ovos
cozidos em seboso
suor?
Palmas! Palmas
para o falo!
Este incansável
incompreendido molestador!


Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

musa


fotomontagem sobre imagens de Monalisa, Frida Khalo, Simone de Beuvoir, Venus de Milus, Madonna, Anita Garibaldi, Florbela Espanca e Giselle Bundchen

Não, eu não idealizo a minha musa,
não a emolduro em telas que não a conteriam;
mesmo os seus defeitos, eu reciclo
e transformo em mil novas possibilidade.

Minto isso pra vocês,
porque pra mim
ela já nasceu perfeita:
meio Monalisa com Simone de Beuvoir,
meio Madonna com Florbela Espanca,
meio Giselle Bundchen com Anita Garibaldi,
meio calabresa, meio muzzarela.

Todos esses meios,
todos essas juntas,
são gota
que respingou no avental de Deus
no dia em que Ele tonalizou
o seu olho
esquerdo.

Poema especialmente escrito para o sarau de hoje. Sua proposta é de interação com as obras da Exposição "Diálogos" do Coletivo Nobre Sucata, e, por priorizar esta interação, acabou fugindo um pouco do tema "lixo?"

LIXO, O LUXO DE OUTROS DIAS





lixo
o luxo de outros dias

jogados ao léu
numa montanha de chorume
sem cume
sem perfume

recicladores
reciclam as cores
as dores do mundo

o que restou ?
o que restará?

o que restaurou!
o quê restaurar!?

lá
na montanha do monte Himalata
onde ninguem quer subir

os artistas conquistaram
o seu pedaço
de pau
de ferro
de garrafas e latas
que hoje
transforam-se
em nobres sucatas...




Caranguejúnior

coração de garrafa pet


Imagem: um castelo de lixo
(curiosidadesnanet.wordpress.com)


Tá certo, eu não arquiteto
cidades, eu não desenho
automóveis, eu não piloto
foguetes.

Sou um poeta só,
mas não precisa rir assim do meu amor.
Se até uma garrafa pet você recicla,
e faz casinha para o seu pet que você beija – de língua!

Tá certo, eu nem sou cachorro não,
nem lixo nem aquilo.
Poeta que só lhe sonharia um reino,
que faria de meus braços carruagem
que lhe viajaria à lua nova.

Mas não precisa ir assim de mim,
reciclo meu coração de vidro barato
e faço falsos diamantes para teus dedos,
casinha para teus deslumbres.

Para minha rainha
fecho sábado de carnaval a avenida,
e brincamos doces polcas, falsas valsas,
até o nunca mais desfalecer.

paisagem noturna




SETEMBRO - Lixo?

Lixo?
Imagem: pimentanamuqueca.com.br


O sarau de setembro dos Poetas do Tietê estará inserido no evento multicultural de encerramento da Exposição Diálogos do Coletivo Nobre Sucata. Exposição que apresenta telas, esculturas, instalações etc, criadas a partir de material encontrado nas ruas da cidade.



Pensando nisso, os Poetas do Tietê elegeram como tema de setembro "Lixo?"




Embarque em mais esta navegação literária do Poetas do Tietê!

São Rivotril


São Rivotril
que estás no alto
da prateleira!
Bendito sois
entre as caixas
de remédios!
Socorrei-me,
pois parece que
irei explodir,
como bomba de São João!
Mas, João, nada pode fazer,
contra o demônio do stress
que me possui!
Só o suavizante manto
tarja-preta
que traz a paz das nuvens
à minha cabeça!
Antes: Puta que o pariu!
Agora: A dor de existir?
Sumiu! Sumiu! Sumiu!
Santo! Santo! São Rivotril!

Merda


Pisei
na
merda,
Merda
fedida
Que
nem
pum
no
elevador
parado,
Pum
de
repolho,
Que
nem
trabalho
de
segunda feira,
Que nem
casal
se
beijando
no
cinema,
E eu
sozinho,
olhando
pra
tela
branca!
Merda!

trilha sonora do stress

Dizem que as estatística dizem que nas poucas horas entre o “É Fantástico” e o “está no ar o Bom-dia São Paulo”, neste curto período: domingo-à-noite-segunda-feira-de-manhã, ocorre o maior número de suicídios e ataques cardíacos na semana.

O que que é isso gente? É stress! Só de pensar, “Vai começar tudo de novo, o meu chefe, a cobrança, aquela pendência que eu ainda não consegui resolver...” Só de pensar já dá uma falta de ar, uma dor no peito, no braço esquerdo!

“Olha a hora! Seis e quarenta e cinco! Repita! Seis e quarenta e cinco!” Eu de férias, na praia, e meu vizinho me acordava todo santo dia com o rádinho de pilha e o barbeador elétrico: “Olha a hora! Seis e quarenta e seis! Repita! Seis e quarenta e seis!”
Ô meu Cristo amado! Fé-ri-aaas! Relaxa homem!
Não tem jeito, não. O paulistano acostuma com aquela hora de acordar todo dia e não desacostuma nem nas férias! Nem na aposentadoria!

“São Paulo da garoa, São Paulo terra boa!” Boa, com esse friozinho, de ficar debaixo das cobertas até mais tarde... “São Paulo que amanhece trabalhando!”
Que trabalhando? Que trabalhando? Me deixa dormir!

TRRRRIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMM
“São Paulo que não pode adormecer...”

Ô cidadezinha estressada, sô! Só mais cinco minutinhos!

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ESPERMATOZÓIDES DO SACO DE METAL



a noite cai
e os olhos ardendo
adentro o grande óvulo
fecundado de trabalhadores

do CAIS DE SANTA RITA
a prece das seis horas
o sinal da cruz
do sinal fechado

a pressa de chegar
não me deixa enxergar a BOA VISTA
o Capibaribe cheio, imponente...
no meio da cidade

o Borborema Cheio de sonhos
e conversas
José's, João's e JOANA BEZERRA
descem e sobem sem parar

amontoados
querendo ao menos ter
ao menos ver uma
BOA VIAGEM se aproximar

e Deus contempla-nos com
PIEDADE
espremido e amarrotado
sorrio,CANDEIAS chegou!

com o pé direito desço
do grande óvulo fecundado
de trabalhadores
espermatozóides do saco de metal




Caranguejúnior

CORRERIA

o tempo é curto
o tempo é escasso
o tempo é confuso
o tempo é tudo
o tempo é nada
nosso mal...
não tenho tempo
para o tempo
o tempo
não tem tempo pra mim
correria sem fim
que tempo?
nessa vida
não tenho cronômetro




Caranguejúnior

o motorista

Ah, só porque eu sou motorista de ônibus em São Paulo você acha que já sabe o que eu vou falar:
Trânsito-motoboy-congestionamento-marginal parada.
Trânsito louco-motoboy maluco-engarrafamento-marginal alagada.
Trânsito-trânsito-trânsito-trânsito-trânsito!



imagem: victornavena.blogspot.com
Não, eu adoro isso!
“Sai da frente, Dona Maria! Vai pilotar fogão!
Ô barbeiro, braço duro, alfaiate, fdp, pqp! Sai da frente!”
Adoro, adoro, adoro!
Você quer saber o que me estressa?
O que me estressa mesmo são trinta segundos de silêncio.
Vou te contar a minha história.
Eu venho do interior, trabalhava na roça, contato com a terra etc, e um silêncio dos infernos!
O dia todo eu e os passarinhos.
Chegava a noite, como qualquer bom brasileiro eu ia ver a novela. E não conseguia entender porque nos intervalos passava um comercial, dois, e daí trinta segundos de silêncio. Um comercial, dois, e mais trinta segundos de silêncio. E a gente que nem bobo olhando para a televisão muda, vazia, esperando, esperando o próximo comercial e, muitas vezes, vinham mais trinta segundos de silêncio!

Pois um dia meu vizinho veio para o Hospital das Clínicas tratar de um mal qualquer, e voltou, me contou a novidade:
- O Zé, sabia que em São Paulo a TV não tem comercial vazio?
É o intervalo inteiro, tudinho, tudinho cheio de comercial, é cada comercial bacana, sô! que só vendo!

“Sai da frente, Dona Maria! Vai pilotar fogão!
Ô barbeiro, braço duro, alfaiate, fdp, pqp, sai da frente!”
Adoro, adoro, adoro!
Você quer saber o que me estressa?
O que me estressa mesmo são trinta segundos de silêncio.

Vagabunda!

Ai, enfermeira!
Em vez de bálsamo,
Tétano da traição!
Em vez de beijo,
Putrida infecção!
Esperanças?
Levou junto
com a comadre!
Veneno no soro
a sufocar-me,
Cuspo-te o pus
num sorriso dolorido
como incisão das
mais profundas!
Te amo! Ai! Te amo!
Doce! Meiga! Vagabunda!

van filosofia