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poeta objeto




Na papoetaria de 8/10, Caranguejúnior sugeriu que escrevêssemos todos como se fôssemos objetos.
Quer dizer, escrever a partir do ponto de vista de algum objeto.

Para ilustrar a ideia, passou seu "Poema Souza Cruz", em que o narrador é o cigarro de Clarice Lispector:

Sonhei que era o cigarro de Clarice
Toda vez que ela tragava Minh’alma

Via as palavras brincando em sua boca
Formando versos de fumaça
Seus pulmões eram o Playcenter
Hopi Hari, Happy Air!!
Toda vez que ela soltava-me
Meu espírito voava como poesia ao ar

Sonhei que era o Cigarro de Lispector (a Clarice)
Ela estava sentada
Em sua poltrona na sala
Pensamentos longínquos
Fumaças ao ar
Não havia nenhum passivo fumante
Que pudesse me inalar e estragar
Aquele instante vicioso. Ela e eu, só.

Sonhei que era o cigarro da Lispector
Eu, entre seus dedos
Morria devagar
Manchado de batom
Definhando aos poucos.
E ela nicotinamente relaxando
Sua brilhante mente
Brilhantemente...

Sonhei que era o cigarro de Clarice,
Aquela flor de Liz(pector)
Observei-a escrevendo um poema
Um poema sonhador, um poema Souza Cruz
E meus olhos em brasa de mero cigarro aceso.

Sonhei que era o cigarro de Clarice Lispector
Foram três minutos de ápice
De repente, Morri...
Deixei restos de mim em seu ser.

Enfisemas poemas taquicardias poesias
Acordei suado e amando
Pois naquele cinzeiro
Que ela me apagou
Existiam vários "eus" depositados
Que foram extintos em seus lábios


Agora, vamos ao resultado deste exercício

Caneta de Vinicius
Marcelo Tadeu

Sonhei que era caneta de Vinícius
E que estava entre seus dedos
Somente eu sabia seus segredos
Já era de madrugada e falávamos de seu novo amor
Vinícius estava animado
Minha tinta escorria pelo papel
Estava meio cansado
Mas aguentei firme
Sob seus dedos
Pois queria saber de toda história
Mas uma coisa horrível aconteceu
Minha tinta acabou
Uma tremenda decepção
Já que nem o fim da história
A outra caneta me contou

Amo sua Dor
André Dia(s/z)?

Todo santo sábado
Lá vem ela me visitar,
Depositando rosas aos meus pés.
Meus olhos duros contemplam os seus
Tão tristes e marejados.
Meu dedo apontado para o céu
Tenta lhe falar de esperança,
Que um dia irá reencontrá-lo,
Mas ela parece não entender
E soluça debaixo de minhas asas rachadas.
Mas, ao mesmo tempo, amo sua dor
Que rompe assim, esta solidão
Esta existência imóvel
De anjo de cemitério.

A Pedra
Caranguejúnior

Sou uma pedra
e por ser pedra
tenho alma de pedra
coração de pedra
e sentimentos de pedra

Mas garanto
não sou desumana
como vários seres "humanos"
que matam, roubam
e plantam a semente do mal

Estou aqui no seu quintal
estagnada, observando tudo:
das mais belas
às piores coisas

Já vi tantos fatos
que rolou no meu olhar
de pedra, uma lágrima

Meu desejo, neste momento
é voar e voar e voar...
Pode parecer estranho
esse meu desejo de pedra
Mas te digo, as pedras voam!!
Sim, basta você dar uma
mãozinha...

Senhora
Paulo D'Auria

O seu peso e o seu desprezo diário.
Só me olha quando está triste, mas não me vê.
Na alegria passa saltitante,
No inverno me cobre, me esconde,
No verão, me procura para dormir,
Aos domingos, cuida de mim, me acaricia com panos
me encharca de perfumes, me dá banhos
e, no fim, deixa cair sobre mim
uma gota de suor.

O seu peso e o seu desprezo
sou teu chão
você é minha dona
e senhora.

A Mais Bela
Paulo D'Auria

Você. Garanto. Não existe ninguém mais
nem mais bela nem mais feia
nem mais gorda nem mais magra
mais perfeita
ou mais burra
(olha para mim
mas só consegue ver
você você você)

Eu, todos os dias
e você nem percebe.
Dentro de mim, trago você
e você nem percebe.

Te estudo, copio, persigo.
Só com você
não sou vazio.
Tudo que fiz de minha vida foi te servir
e agora este palhaço entra em seu quarto
e te humilha
e vai embora
e é em mim que você desconta

É em mim que joga o vidro de seu perfume
mais vagabundo e favorito
me deixando em cacos
estilhaçado

Te entendo
e te perdoo
ainda é a mim recorre
neste teu último voo

É com meus pedaços que
num impulso
rasga os pulsos

morremos juntos.

Aniversário





Repente do Aniversário
André Dia(s/z)? e Paulo D'Auria

Vão aniversariar os Poetas do Tietê
E vão comemorar na feira
Que poeta não tem carteira
Para alugar bufê

Vai tá o Marcelão e o Caranguejo
O Paulo mais o André
Poetando com pastel de queijo
de carne e o que mais vié

Vai se muito bacana
Uns bebem caldo de cana
Outros bebem cerveja
Mas no final a poesia é a cereja

Do que esse povo gosta é de poesia
O encontro vai ser no Pacaembu
Palco de muito verso e alegria
Que não gosta de pastel que coma angu!

Tá to do mundo convidado
Pode vir Dona Maria
E também o Seu José
Pra ela eu faço uma poesia
Pra ele eu pago um café!

Um poema sobre algo que você nunca tenha feito antes



Na Papoetaria deste sábado, sugeri um tema que me havia sido sugerido por Karla Jacobina em uma conversa por telefone há uns 3 anos atrás: "Por que você não faz um poema sobre algo que você nunca tenha feito antes?"

Então, mãos à obra:










Primeira Vez
Marcelo Tadeu

Eu não estava confiante
Minha intenção era de fugir dali
Não adiantaria se fizesse isso
Seguiria comigo por toda s vida.

Que mal estar
Que desejo de não estar lá
Em poucos minutos
Tinha que decidir

Mas porque tanto medo assim?
Não existia tanto perigo
Minhas mãos tremiam
Meu coração acelerado
Enfim
Será que toda a minha primeira vez
Será assim?

Bolada
André Dia(s/)?

Descobri outro dia,
Minha mãe me contou
Que tive trauma de bola
Quando tinha cinco anos,
Não lembrava disso,
Para mim
Simplesmente não gostava de bola,
Mas não,
Tomei uma bolada
Dos garotos mais velhos
Lá no colégio das freiras,
Depois a madre
Contou uma história
Na reunião de pais
Sobre um menino que
Não gostava de bola:
- Menino que não gosta de bola...
  Vocês sabem o que é, né?
Eu nunca joguei bola
Mas já não me sinto infeliz
Pois descobri o que é um menino
Que não gosta de bola!
É artista!

Pivete
Paulo D'Auria

eu já fiz poema de amor
já fiz poesia social
já escrevi sobre flor
já fiz poema surreal

mas nunca escrevi sobre você
por quê?

já falei de sexo
botei no papel palavras sem nexo
escrevi sobre os moradores de rua
e fiz uma poesia para o homem na lua

mas nunca escrevi sobre você
por quê?

você que escondi atrás de personagens secundários
você disfuncional gordinho que não sabia empinar papagaio
não sabia jogar futebol
se apaixonava mais que uma meninha
e batia punheta pra vizinha

você o cara oculto dentro do escuro dentro de mim
você o menino-tarado-apaixonado
pare de desenterrar segredos
pode voltar pro seu buraco
de onde nunca mais te liberto
seu pivete
safado!

A Caixa de Cada Um

Na Papoetaria deste sábado (27/08), André Dia(s/z)? trouxe o segundo capítulo de "O Pequeno Príncipe". Depois da leitura, nos fez a seguinte pergunta: O que há na caixa de cada um de vocês?

O Pequeno Príncipe (trecho)
de Antoine de Saint-Exupéry

Desenhei de novo.
Meu amigo sorriu com indulgência:
- Bem vês que isto não é um carneiro. È um bode... Olha os chifres...
Fiz mais uma vez o desenho.
Mas ele foi recusado como os precedentes:
- Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito.
Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado.
E arrisquei:
- Esta é a caixa. O carneiro está dentro.
Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:
- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro.
- Por quê...
- Porque é muito pequeno onde eu moro...
- Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada!
Inclinou a cabeça sobre o desenho:
- Não é tão pequeno assim... Olha! Adormeceu...
E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.

Caixa de André Dia(s/z)?

Na minha caixa
tem um par de sapatos
que eu guardo
para a última caminhada,
São sapatos alados
para caminhar por cima das nuvens,
Por cima de toda coisa feia que me cerca,
Pularei o muro mais alto,
O muro com o arame farpado da maldade,
E sapatearei feliz
ao som das trombetas dos anjos.

Caixa de Marcelo Tadeu

Na minha caixa
Estão todos os meus sonhos
Talvez nunca saiam de lá
Em minha vivência
Talvez nunca os veja se realizarem
Mas sempre estarão lá
Manterei a caixa sempre cheia
Já que nunca deixarei de sonhar

Caixa de Caranguejúnior

1.
Na minha caixa
Cabe nada e tudo
Cabe o branco e o escuro
Cabe o mar
Iemanjá

Na minha caixa
Cabe tudo e nada
Cabe o beijo da namorada
Cabe as Pirâmides do Egito
Cabe o grito

Na minha caixa
Nada e tudo cabe
Rosas Guimarâneas
Pra Lê Minsk
E o olhar de Clarice

Na minha caixa
Tudo e nada cabe
Paráforas e metábolas
Engenhocas e repimbocas
Einsteins e Franksteins

Te digo amigo
Que na minha caixa
Cabe a noite e o dia
Cabe um tantinho assim
De poesia

2.
Na minha caixa
Há um poeta louco
Prestes a recitar
Um poema

Quiçá este poeta
Saía da caixa
Desembrulhe-se
E desenterre o poema

Pois lugar de poema
É fora da caixa!

A Caixa de Paulo D'Auria

1.
O que você acha?
Cê acha que se encaixa?
Que acha uma brecha?

A minha caixa
embora quase cheia
sempre sera meia
sem você.

2.
na minha caixa o mundo in
teiro   e   o   céu   e   a  lua
meia   e   o   sol   do  meio
dia  na  minha  caixa  vazia

3.



4.

SYNchronicity:
Caixa Mágica de Marcelo Ferrari

Na Papoetaria de 20/08, André Dia(s/z)? nos apresentou a história de Otávio Júnior (leia matéria abaixo) e em seguida nos propôs o tema: Meu 1º livro.


Otávio Júnior, militante da leituraBruno Dorigatti (Portal Litaral) · Rio de Janeiro (RJ) · 12/2/2010
O primeiro contato de Otávio Júnior com a leitura foi muito estranho, algo mais próximo da ficção, como ele mesmo ressalta. “Achei um livro no lixo, a caminho de um campo de futebol. Eu andando no meio do lixão, que ficava próximo à minha casa, encontrei um livro, levei pra casa. Aí tudo ficou nublado, o tempo fechou, e ia armar uma chuva muito grande. E eu li, li, li, e depois voltou tudo ao normal, o sol saiu de novo”, conta. Segundo ele, foi ali, ao ler Don Ratton, uma obra infanto-juvenil,que colocou na cabeça o desejo de ser escritor, aos 8, 9 anos de idade.

Morador da Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, mais conhecida como a comunidade do jogador de futebol Adriano, Otávio Júnior é aquele caso tipicamente improvável de quem não dá bola para as adversidades e corre atrás do que acredita. Em 1998, montou o projeto Teatro na Escola, com a peça O livro encantado, escrita por ele, e onde fez também o cenário com material reciclado, papelão e isopor que encontrava no lixo. Ia então às escolas para apresentar a peça, que falava da importância da leitura na vida das crianças. Esse foi o início. Hoje Otávio mantém o projeto "Ler é 10, leia favela", que, em três anos e meio, atendeu 6.500 crianças de comunidades como a sua, onde o livro praticamente inexiste.
Leia a matéria completa em:
http://portalliteral.terra.com.br/imprime_artigo/otavio-junior-militante-da-leitura

A Primeira Vez
André Dia(s/z)?

Lembro de ti
Como se fosse ontem,
Percorri tuas linhas
feitas de um mundo novo
Condensado no meio de tua capa dura
Que, a cada vez que abria,
Em êxtase, me deparava
Com tantas letras, vírgulas
E vida vibrante.
Em estado de priapismo lírico
Agarrava a caneta trêmula
E a metia a escrever coisas,
Pois senti
Que dentro de minha alma inquieta
Havia também várias letras
Prontas a serem ejaculadas,
E que, um dia, quem sabe,
Formariam, ao contato
Do velho caderno-útero,
O feto tresloucado,
Que desavergonhadamente,
Eu chamaria de poesia!

Inspiração
Marcelo Tadeu

Me acomodei num canto
Fiquei em silêncio
O dia estava estranho
Havia algo em mim
Que eu não sabia explicar.
Não queria conversa
Apenas queria ficar quieto,
Peguei um livro e comecei a ler,
E uma inspiração
Que só poderia vir do céu
Tomou conta de mim,
Peguei papel e caneta
E escrevi meu primeiro poema

O Guardador de Livro
Paulo D'Auria

Feito um guardador de rebanhos
o guardador de livros nunca os leu,
mas é como se os tivesse lido:
O guarda noturno da Biblioteca Municipal é analfabeto
E entende os livros no escuro.

Todos os dias ele vem no contrafluxo do rush
de seu barraco no morro
para o centro da cidade.
Os últimos leitores saindo,
os bibliotecários dando boas-noites,
as luzes se apagando.

Assiste a novela no celular com tv digital
e, ao final, começa a ronda.
De lanterna na mão, folheia os livros.
Começou adivinhando histórias pelas figuras,
hoje, entende tudo:

Abre os livros maiores e de letras menores,
elas se movem nas páginas,
acaricia-lhes com as pontas dos dedos.
Fecha os olhos,
apaga a lanterna
e ouve.

É na escuridão que Deus fala com ele.

Reencarnação








Na Papoetaria deste sábado,
Marcelo Tadeu sugeriu que trabalhássemos sobre o tema "Reencarnação", o resultado você confere abaixo:







Reencarnação
Marcelo Tadeu

Na minha outra vida
Tudo será mais simples
Já que agora sei todos os caminhos
Não perderei mais tempo
Não deixarei escapar
Nenhum momento
Na minha outra vida
Todos os dias serão grandes dias
Serei diferente
Na maneira de falar
De pensar e de amar
Levarei em mim os ensinamentos
Que tirei dos meus próprios erros
Me livrarei da ignorância
Que habita meu ser
Minha outra vida será fantástica
Pois agora
Eu sei viver



Caminhada Incessante
André Dia(s/z)?

A longa estrada
não termina nunca,
O ponto de partida
já não me recordo.
Apesar de ainda colher espinhos
Penso apenas
Em plantar as rosas,
Flores estas
Feitas de esperança,
Cujo perfume faz-me
Pensar em dias melhores
Já sem os espinhos
Lá do ponto de partida,
Nestas eras, tantas vidas,
Caminhada incessante.


Volta Revolta
Paulo D’Auria

Por que você voltou
Fazendo barulho como quem
Não deve nada a ninguém?
Por que você voltou
Desarrumando tudo outra vez
Como se fosse a primeira vez?

Sim, eu te amei,
Mas isso foi antes de eu mandar publicar
Um anúncio na seção de óbitos
Com seu nome, RG e fotos

Se você pensa que pode simplesmente reaparecer
Com essa cara de nada, de reencarnada
Saiba que tem muito pecado para expiar

Eu te odiei por esta vida e por 3 mais
Por sua causa recuei 3 estágios na minha evolução
Estou arriscando regressar como uma barata

Então não venha se fazer de sol
Com seu sorrido feito de sol
Não retorne radiante
Que joguei fora esta minha encarnação
Cavando 7 níveis de inferno
Onde lhe enterrei
Cavando 7 níveis de inferno
Para lhe soterrar.

Muy amigo...

Aproveitando o recém-comemorado "Dia do Amigo", André Dia(s/z)? teve uma ideia genial para a Papoetaria deste sábado. Que escrevêssemos um poema não para o nosso melhor amigo, mas para aquele amigo traíra, aquele cafajeste que se dizia amigo, mas não passava de um tremendo interesseiro!

Para abrir a postagem, Oscar Wilde:





Loucos e Santos
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

No Final Restam Poucos
Marcelo Tadeu

Me apresentei
Cumprimentei
Começava ali uma amizade
Foi o primeiro passo
Seria estabelecido então
Um laço, um pacto.
Pra mim era certo
Tudo estava claro
Eu tinha a absoluta certeza
Que tudo era pra sempre.
Mas o destino
Às vezes é ingrato
Não tem dó nem piedade
Me pregou um castigo,
Um belo dia
Fez sair da minha
Própria boca
Inimigo.

Ovelhinha Querida
André Dia(s/z)?

O prazer
de estar ao teu lado
se comparava apenas
às cenas de sonho
ao paraíso cantado pelos poetas,
Mas que poema escrever
se tinha toda poesia
personificada ao meu lado?
Lambuzei todo teu ser em mel
e você me emporcalhou com merda.
Entreguei, até,
minha própria integridade física
em bandeja de prata
para os bobos,
ovelhinha querida.
E, no final,
quem acabou tosquiado
fui eu.
Receba então
cada palavra
como uma faca em brasa
enfiada o mais fundo possível
em tuas partes mais íntimas,
A retorcer-se impiedosa
na lembrança
de teu desdém,
Moeda de troca maldita
neste comércio desigual
da amizade.

Poeta Menor
Paulo D’Auria

e aquele disco do Pixinguinha, sim
pode devolver, nada do que roubou é seu;
eu fingia não ver em nome de nossa amizade
mas você me fez questionar se isso existia

quando o senado aprovou a anistia
ampla geral e irrestrita
pensei em surfar a onda de paz
e lhe perdoar, mas
eu não tenho vocação para isto

devolva o disco, o resto
enfie naquele lugar!
a verdade é que as tralhas materiais
não valem um pensamento meu pra você

Dante mandou seus inimigos para o inferno
eu, poeta menor, só quero que você
me aqueça neste inverno e depois
vou embora sem dinheiro no criado-cego-surdo-mudo
sem olhar pra trás

Claro e Escuro: As Duas Faces Do Poeta


Estes poemas são o resultado de nossa ultima oficina de poesia, idealizada a partir de uma entrevista com o poeta Glauco Mattoso, em que ele diz: "Sou fascinado pelo paradoxo, pelo oxímoro, pela antítese, pois acho que todos somos contraditórios o tempo todo ... Em nós convive o claro e o escuro, o certo e o errado, o prazer e a dor, o belo e o feio, entre outras dualidades. Mocinho e bandido, bonzinho e maldito, o poeta tem um pouco dos dois."
O exercício proposto na oficina era que cada poeta saisse de seu lugar comum, e mostrasse sua outra face. Como por exemplo, o poeta sergipano Araripe Coutinho conseguiu com essa simples foto, tirada no Palácio Museu Olímpio Campos, em Aracaju.

Paulo Dauria deveria escrever um poema fofo:

A Flor Na Qual Estou
A flor que eu lhe dei
não comprei em floricultura
no sinal fechado
não roubei de jardim sem dono
A flor que eu lhe dei, eu cultivei
o seu vento trouxe a semente
o seu olhar, a luz
o seu amor, o calor que a fez germinar

E cuidei para que não despertasse nas tempestades de verão
Para que não morresse no frio do inverno
Para que desse frutos no outono
E abrisse na primavera

A flor que eu lhe dei
A flor que eu lhe dei entreguei a cada dia
Dia após dia,
A flor que morre no vaso
sem àgua de sua sala
É essa flor

A flor na quaL ESTOU
Iteiro, nu

Uma flor apenas
Apenas uma
flor

Caranguejunior deveria escrever um poema formal, com rima:

Sem Pré-Conceito
Abaixo o preconceito
em geral
Todos tem o direito
à liberdade real
Abaixo a homofobia
Preconceito racial
Que hoje em dia
Não pode ser normal
Abaixo a intolerância
Acima a humildade
Abaixo a ignorância
Tenhamos mais humanidade
Ser "o mano"
Ser humano
Preconceito
é desumano
A cor da pele
A forma de amar
Todos nós temos que estar
No mesmo patamar

Marcelo Tadeu deveria escrever um poema social:

Protesto

Ele chegou
Sem pudor
Tirou as roupas
No meio de todos
Ficou exposto
Criou espanto
Ninguem imaginava
Tanta coragem
Nenhum outro
Teve a audácia
E gritou
No meio do salão
Cada membro
Cada parte do meu corpo
Representa minha indignação

André Dia(s,z)? deveria escrever um poema de amor tradicional:

Quarto Escuro

Ela me apareceu
Como lindo desabroxar,
De repente, desapareceu
Onde a encontrar?
Ela, que me fez compreender
O significado da palavra amor,
Me fez então, me perder
Num jardim, sem nenhuma flor
Onde estará a beleza?
Onde estará a felicidade?
Não estará aqui, com certeza
Longe de minha beldade
Deixo cair uma lágrima
Ao lembrar de sua mãozinha
A procuro, de maneira àvida
Ai! Onde estará minha florzinha?
Andávamos de mãos dadas,
Fazendo planos para o futuro
Doces tardes, agora negadas
a este poeta, triste em seu quarto escuro.

Páscoa-Pesach-Passagem



Travessia
Marcelo Tadeu

Uma passagem
uma passarela
que um dia
mais cedo ou mais tarde
todo homem terá
que atravessar

O medo
o desconhecido de lá
aterroriza a vida
do lado de cá


Um monte páscoal
Paulo D'Auria

Passam as luas, cheias
passa inverno, primavera
passam os anos
uns após outros e outro e outros,
tudo tão lentamente
que me agarro às parede para não cair
tudo tão vertiginosamente
que tenho tempo de repetir e repetir e repetir

Passam os mares vermelhos
os cristos os moiséses
as cruzes

Talvez seja eu
procurando nos lados obscuros
e errados,
perco dias
acumulando-se na poeira
dos anos
e sinto
não ter aprendido nada
nada
nada







Ovos de Saudade
André Dia(s/z)?


Era pequenininho
me mandaram esconder,
pois viria o coelhinho
os ovinhos vinha trazer


- Não é coelhinho,
é alguém fantasiado!
Ouvi dizer meu vizinho,
o estraga prazeres do lado!


E assim, fiquei sabendo
que o coelhinho não existia,
os dedinhos fiquei lambendo,
ovinho melhor, nunca comeria!


Ovos de saudade
que ainda lambo nos dedos,
o doce não se esvaiu com a idade,
e de acabar tenho tanto medo!



Galinha de ouro
Paulo D'Auria


Queria ter essa galinha
que bota ovos de chocolate...
- Que arte!
Seria minha particular
galinha dos ovos de ouro!

VIRADA CULTURAL 2011 - SARAU AMBULANTE

Os Poetas do Tietê irão realizar um Sarau Ambulante (é na rua mesmo!) durante a Virada Cultural 2011, que acontecerá neste fim de semana, dias 16 e 17 (sábado e domingo).

O Sarau Ambulante será em frente à Biblioteca Mário de Andrade no dia 16 - Rua da Consolação, 94, próximo ao metrô Anhangabaú, às 19:00hrs.

Participe!

Traga seu Poema e o grito poético!

Poesia na cabeça e no pé!

OS POETAS DO TIETÊ - 1° CARAVANA DA POESIA

Nos dias 18 e 19 de Dezembro do ano 2010, foram os dias em que participei de uma experiência pra lá de emocionante e libertadora, os dias que foram realizados a 1° Caravana da Poesia, onde poetas de São Paulo foram ao Rio de Janeiro para 4 Sarais na periferia.A “viagem” começou mesmo na sexta-feira dia 17, onde me encontrei com o Poeta Marcelo Tadeu integrante do grupo Poetas do Tietê, em um bar no Anhangabaú, para umas cervejas e conversas antes de embarcarmos no buzão, e de onde iríamos direto para o Bixiga, mais precisamente n° 70 da rua 13 de maio, onde é o local da livraria do Buzo (Suburbano Convicto). Chegando ao local não havia ninguém na livraria, o porteiro pediu que entrássemos, pois, já haviam poetas lá em cima aguardando, subimos as escadarias e a livraria estava fechada e retornamos pelos degraus, para nossa surpresa havia uma poetiza do sarau da Cidade Ademar, uma das Camilas (Milane), sozinha, fumando um cigarro, ela nos chamou e nos informou que estava trancada lá, quando fomos até o portão, verificamos que o porteiro tinha nos deixado trancados no recinto também, entre gritos e assobios, ninguém estava lá para abrir o portão. Depois de várias ligações e quase 40 minutos trancados, vieram nos acudir, abriram o portão e foi uma sensação boa de liberdade. Subimos a 13 de Maio para encontrarmos o Pezão, achamos logo o poeta junto com o poeta Valmir Jordão e Tubarão, decidimos então, descer a 13 de Maio para tomarmos algumas geladas e papearmos, entre sobe 13 e desce 13, encostamos em um bar conhecido dos Poetas Valmir e Pezão. Entre cervejas e cervejas, os poetas que iriam participar da caravana, foram chegando, Sarau do Binho, Elo da Corrente, poesia na brasa, Sarau da Cidade Ademar, Suburbano convicto, Círculo palmarino e Vila Fundão, fora os Poetas do Tietê. O ônibus estacionou quase a uma da madrugada, e já estávamos quase todos embriagados de tanta cerveja que rolou, embarcamos e o ônibus partiu em direção a cidade maravilhosa.

Dentro do “buzão”, a alegria estava tomando conta, muitos poetas estavam indo ao Rio de Janeiro pela primeira vez e ainda por cima, para recitar poesias. Entre batuques de pandeiros e versos de samba, rap e (“ninguém vai nanar”) a viagem foi embalada pela madrugada adentro. Chegamos ao RJ e pegamos logo um engarrafamento monstro na Rodovia Presidente Dutra, conseguimos chegar ao SESC Ramos, onde fomos recepcionados, por volta das dez da manhã, a viagem foi longuíssima e cansativa, mas, todos estavam animados para a aventura poética na cidade. Tomamos café da manhã no SESC Ramos, almoçamos e relaxamos um pouco antes da partida para o primeiro sarau - Complexo do Alemão.

O ônibus partiu para o Complexo do Alemão, precisamente na Grota, uma das comunidades do local, o Buzo gravou a nossa chegada para o programa Manos e Minas da TV Cultura, desembarcamos na comunidade e logo de cara vimos as cenas que até então, só tínhamos visto pela TV, soldados armados de fuzis e metralhadoras, tropa de elite, caminhões de guerra, circulando pelas vias, o momento foi de tensão, mas, sabíamos que nada iria abalar a nossa vibe positiva. Seguimos até o local onde rolou o sarau, era um evento da comunidade chamado Circulando, sétimo ano que rola esse evento por lá. Os poetas foram anunciados pelos microfones e logo estávamos todos unidos, poetas-comunidade, na mesma sintonia. O Sarau começou com os tambores do Sarau da Brasa chamando os poetas, vários poetas se apresentaram, nesse meio tempo, os Poetas do Tietê foram até uma parte da comunidade gravar os vídeopoemas para exibição no blog, enquanto o sarau pegava fogo na outra parte do evento. Tudo correu bem, sem problemas algum, a receptividade da comunidade foi na paz, saímos do complexo do alemão por volta das cinco e tantas da tarde em direção a comunidade Fallet em Sta. Teresa.

Dentro do buzão indo em direção a Sta. Teresa, víamos da janela a beleza e a pobreza da cidade, uns pontos lindos, outros nada agradáveis do RJ, chegamos em Sta. Teresa por volta das seis e meia da noite, desembarcamos em um ponto onde tinham vários casarões antigos, ruas de paralelepípedos, bairro bem arborizado e bonito, logo pensamos que iríamos recitar naquele lugar amistoso, puro engano. Começamos a caminhar pelo bairro, subindo e descendo ladeiras, entrando por vielas e escadarias, logo a face da comunidade foi revelando-se para os poetas. Homens armados com pistolas e fuzis nos fitando, o tráfico imperando nas ruas, a pobreza de alguns a riqueza de outros e a tensão tomou conta de todos que ali estavam, sem exceção. Fomos chegando próximo ao local onde estava acontecendo um evento organizado pela comunidade, a cena foi de susto, bandidos armados faziam a segurança próximo ao local, uma fotografa que nos acompanhava, retirou a câmera da bolsa e logo foi repreendida por um dos traficantes, dizendo que não podia filmar nem fotografar e isso a base de gritos, a moça ficou em pânico e começou a chorar, o escritor Julio Ludemir que estava nos acompanhando e conhece a comunidade, foi conversar com o traficante para amenizar a situação. Subimos para o local do sarau que correu bem, apesar da tensão que rondava por ali, ao final do sarau, fomos convidados a comer um enorme bolo (e por sinal uma delícia!) que a comunidade havia preparado para o evento. Logo chegou a hora de parti já eram quase dez da noite, teríamos que subir ladeiras e escadarias novamente, poucos estavam dispostos, um dos traficantes que estava mais enturmado com os poetas, fez questão de ir buscar o ônibus para que não fizéssemos aquela romaria toda da subida, mais, não teve jeito, o ônibus não entrava naquelas vielas apertadas da comunidade, subimos a base da “canela” e chegamos ao buzão, suados, cansados e felizes por tudo ter corrido bem. Partimos então, para o terceiro sarau do dia no Morro Agudo em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense.

Embarcamos e o ônibus partiu para Nova Iguaçu no Enraizados, uns cansados, outros ainda com as baterias carregadas, porém, ninguém desanimado, ainda estávamos no clima de adrenalina ocorrido no último sarau na comunidade Fallet. Chegamos ao local, centro de cultura do Enraizados por volta das meia noite e meia, e no local já estava rolando um evento com música e foi só os poetas chegarem que a animação tomou conta de todos, assistimos as apresentações de free style do MCs do projeto Enraizados, muito bom por sinal, tinha um menino de onze anos que mandou muito bem no free style. Após a apresentação dos MC’s, começou o nosso sarau com a abertura do sarau da brasa com os tambores chamando os poetas para recitarem, tudo na maior paz e alegria, todos os poetas visivelmente cansados fizeram um recital muito louco, mandaram bem em todos os poemas, encerramos com os tambores da brasa a noite de poesia, mais ainda rolou uma batalha de MC’s na brincadeira com os poetas e os meninos do projeto Enraizados, a noite só estava esquentando, um churrasco e muita cerveja ainda estava para sair, enfim, lembro que fui dormir por volta das cinco da matina, embriagado e com a garganta ruim de cantar e as mãos doendo de tocar atabaque.

Despertamos logo cedo numa manhã de domingo quente a beça, para nos organizar para ir à praia, de inicio a dúvida de qual praia ir, mais, a maioria venceu, iríamos a Ipanema, o buzão encostou por volta das onze da manhã, embarcamos de mala e cuia, pois, era nosso último dia no RJ, fomos a Ipanema, chegando no local de desembarque, logo todo mundo se espalhou, os Poetas do Tietê foram até Copacabana onde gravou-se um Videopoema na estátua do Drummond, que fica à beira da praia, e curtimos o Arpoador e Ipanema também. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas, ainda teríamos o último compromisso no morro do Borel, último sarau da Caravana da poesia, embarcamos no buzão por volta das seis da tarde e partimos para o Borel.

Chegamos na comunidade por volta das sete da noite, desembarcamos em frente a um SESC, e pegamos umas kombis que é o transporte tradicional de quem sobe o morro, pois, o ônibus que estávamos não entrava nas ruas estreitas da comunidade, tampouco, subiria aquele morro imenso, a vista lá de cima era maravilhosa, dava para ver o RJ inteiro, muito lindo mesmo, o lugar não poderia se chamar outro – Chácara do Céu- onde desembarcamos na casa do Sr. Gabeira, líder comunitário, haviam duas placas que anunciavam “Rajadas Poéticas: Os Poetas estão chegando” no terraço da casa, sua esposa e família nos recepcionaram com uma galinhada (uma delícia!) para matar a fome dos famintos poetas, comemos bastante e depois ainda rolou uma sobremesa para fechar o banquete, subimos a laje da casa do Sr. Gabeira para admirar aquela paisagem deslumbrante do RJ é a melhor digestão que existe, comer e olhar a paisagem. Hora do último sarau, fomos para o local, uma antiga igreja, próximo a uma UPP (unidade de polícia pacificadora) da comunidade, fomos nos organizando e chamando a criançada toda para participar, alguns minutos depois, a comunidade já estava nos aguardando começar o sarau. Foi demais, a comunidade aplaudia cada um dos poetas que se apresentaram como se fosse o primeiro sarau da caravana, um dos melhores que fizemos nos dois dias de caravana, e para encerrar o sarau, fizemos uma ciranda com todos os presentes, as crianças adoraram. Nos despedimos de todos por volta das onze da noite, felizes, com a sensação do dever muito bem cumprido. Embarcamos nas Kombis e fomos em direção ao ônibus, embarcamos no “buzão” e hibernamos, não se ouvia um ruído de vozes, pandeiros ou outra coisa qualquer, só os roncos e respirações dos poetas fadigados. Por volta das três da madrugada, acordamos com o ônibus balançando e um barulho, o pneu do buzão havia estourado, um detalhe que não poderia faltar na aventura, toda caravana tem o seu perrengue, o motoristas e alguns dispostos desceram para trocar o pneu, depois de uns quarenta minutos, estávamos de volta a estrada. Chegamos em SP por volta das sete e meia da manhã da segunda feira, dia 20, cansados e felizes, com um gostinho de quero mais, fechando o ano com chave de ouro... olhei para trás e vi os poetas com suas malas voltando para suas casas e vidas reais.



 Caranguejúnior

OS POETAS DO TIETÊ - I CARAVANA DA POESIA

Os poetas do Tietê embarcam no buzão da I Caravana da Poesia que vai para o Rio de Janeiro em 2 dias e onde participarão de 4 sarais na cidade.

Organizado pela Poiesis junto com o escritor, apresentador e cineasta Alessandro Buzo, a I caravana da poesia vai contar com um buzão com 40 e tantos poetas de diversos sarais de São Paulo como: Brasa, Fundão, Elo da Corrente, Ademar, Suburbano e Binho, e os Poetas do Tietê foram convidados por Marco Pezão, Coordenador da Poiesis para participarem dessa jornada poética de 2 dias na Cidade Maravilhosa, abaixo os locais por onde a I Caravana da Poesia irá passar:



Sábado 18/12






14h - Complexo do Alemão


19h - Comunidade Fallet (Sta. Teresa)


22h - ENRAIZADOS (Nova Iguaçu, Baixada)






Domingo 19/12


Manhã e tarde (PRAIA)






18h - Ultimo Sarau no "Salgueiro"


Fonte dos locais: http://buzo10.blogspot.com/




Na volta postamos as fotos aqui.

Poemanônimo

Nesta reportagem espetacular, poeta desconhecido relata o trauma de seu contato com o sórdido "Poemanônimo"!!!!!


pedra fundamental


Em 1928, na Revista de Antropofagia, um poeta até então pouco conhecido publica o poema que ainda hoje é lembrado como o grande divisor de águas da poesia nacional: "No Meio do Caminho", de C. D. de Andrade.
No mês de outubro comemora-se o aniversário de Drummond, e os Poetas do Tietê publicam suas variações sobre o tema "tinha uma pedra no meio do caminho".

NO MEIO DA INFÂNCIA
fernanda migliore

No meio da infância
estava a pedra,
novas matemáticas
outros jogos.

Mestres demais
ou fim da festa?
De repente,
nem dez brigadeiros me bastavam
nenhuma bola me rolava colorida
e os vestidos da menina eram
curtos pra mulher.

De repente - um só jogo:
Pula, pula, pula pedra!

No meio da infância
estava a pedra.
No meio do caminho,
do destino,
rola bola
pula pedra
brinca, brinca de pular.

PEDRAS DE DRUMMOND
marcelo tadeu

Ao Ler o Poema
Fiquei Imaginando
Ao viver, encontrei as pedras
Então, as tirei do meu caminho
E fui embora
Doce Ilusão
Aparecerem pedras novas

NO MEIO
caranguejúnior

I
No meio da pedra
tinha um caminho,
e foi por lá
que passei.

II
No meio da sala
tinha uma TV
e uma criança pálida
perdendo seu tempo

III
No meio da rua
pode-se encontrar
pedra, pó, erva...
e várias pessoas
sem esperança.

IV
No meio das ideias
Tinha um maracatu,
Tinha um maracatu
No meio das ideias
Então, não deu
Pra escrever linhas tortas
Nem pra eu
Nem pra tu
Só o
Ma
Ra
Ca
Tu

V
No meio da selva
havia pedras
Na selva de pedra
haviam meios
E o garoto com seu cachimbo
não encontrou o tal bom começo
Se perdeu entre as pedra.
É o fim.
(no
meio
do
começo
tinha
um
fim)

PÉTREA
paulo d'auria

A pedra de Drummond
é a maior pedra da história da literatura,
dura, dura, tão dura de engolir
aos puristas da alta-cultura

Mas não se faz literatura sem pedras,
não se faz arte sem pedras,
principalmente não se faz artistas sem pedras.
Poeta de flores e amores somente
não é poeta por inteiro.

Subo na careca pétrea de Drummond
e avisto ao longe.
Até onde
vai o caminho
sem fim.
MAR
paulo d'auria
falta um mar mediterrâneo
no meio da minha vida
falta um mar pacífico
no meio da minha tempestade de espírito
falta um mar atlântico
que me leve ao desconhecido

falta um mar
falta um mar
falta um mar
falta eu aprender
a nadar
NO MEIO DO DENTE
andré dia(s/z)?
No meio do dente
tinha um buraco,
Tinha um buraco
no meio do dente,
Tudo culpa da bala toffee
que arrancou a obturação:
Ai! Toffodido! Toffodido!

heterônimos do tietê

Ainda inspirados pela visita à exposição sobre Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, os Poetas do Tietê criaram seus próprios heterônimos:

Maicon da Silva (andré dia(s/z)?) é engraxate, nasceu em 1982 em Capão Redondo. Pegou gosto pela poesia ao encontrar uma antologia de poetas em uma caçamba de construção, juntamente com centenas de livros escolares novinhos em folha, bem próximo a uma escola pública.
Tem o sonho de publicar um livro, mas antes pretende juntar um dinheirinho para poder comprar um terno e gravata, pois percebeu que colegas de profissão que se vestem melhor têm a preferência dos "doutor" na hora da engraxada.

O Pisante do Doutor
Eu engraxo
com gosto,
pois engraxar
é uma arte.
Lambuzo de graxa
o pisante do doutor,
que se acha importante,
me olha todo superior,
mas ele mesmo, coitado,
não sabe dar o brilho
que eu dou
nos sapatos que vão embora
pros lugares onde nunca
poderei entrar.

Eva Ruiz (paulo d'auria) é professora de geografia aposentada da rede pública estadual. Atualmanete ministra oficinas de cordel em bibliotecas municipais. Tem 65 anos, é divorciada, não tem filhos e mora sozinha. Já teve fantasias com suas alunas.

Só, neto
Passam-me as horas do dia
esperando por você,
passam sem nenhuma alegria
molhadas pela chuva fria.

E eu perscrutando os porquês
do amor, do desamor, das idas e vinda (vazias)
da primavera sem bouquets
do cinza no meio da vida

Mas viver não é isso apenas:
enquanto a vida foge,
eu a te escrever poemas?

Ou será mais? se for,
que seja sonho, delírio que me aloje
em tua cama, teus beijos, teu amor!

Seu Joaquim (marcelo tadeu) tem 55 anos e é auxiliar de limpeza.

O faxineiro
Um dia desses
Varrendo a calçada
Parei pra pensar,
Fiquei olhando os carros
As vitrines
As roupa e as pessoas
E observei:
Os meus sonhos para alguns
São tão comuns
Que fiquei assustado
Um pouco tonto e com medo,
Me sentei em uma cadeira
E perguntei ao amigo do lado,
- Será que tudo que passa
pela minha cabeça
é besteira...

José da Silva (caranguejúnior) é guardador de carros - flanelinha -, tem 37 anos e atualmente mora na Rua das Esquinas Quaisquer.

Viagem dos Sonhos
Não peguei o bonde
Que passou em direção à Felicidade
Fiquei aqui
Perdido nesta cidade
Esquecido

Meu trabalho de guardador
Quebra o galho durante o dia
Guardo a dor no coração
Guardá-la eu não queria

Como o pão
Que o diabo amassou
Leio as notícias
Do meu cobertor

Choro sozinho
Rio sozinho
E sozinho vivo
Conversando com a lua
Que me garoa

Esperto fico
Sonho com o dia
Em que o bonde retornará
E eu poderei embarcar
E seguir viagem